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Sexta, 04 Dezembro 2020

Histórias de tortura e submundo

leticia_albergaria_divulgacao Divulgação

"As batidas no portão não param. São jogados baldes de água e nuvens de insetos são arremessadas pelas minhas portas e janelas. Sem água, sem luz, sem comida, sem medicação. Eu não me levanto. Tenho apenas um sofá-cama. Alguém instala uma luz muito forte na cabeceira da minha cama". O relato entre a tortura e o delírio abre o livro Eu, personagem de mim mesma, de Letícia Albergaria, que será lançado em meados de setembro no formato e-book pelo site da Amazon. A edição impressa deve ficar mais para frente, diante dos problemas ocasionados pela pandemia.

O livro trata de uma história tensa, de uma personagem inadaptada, em constante peregrinação pelos submundos das elites ou periferias, escapando de um problema para outro, encontrando com pessoas conflitivas e sendo, ela mesma também, provocadora de conflitos. Como o nome sugere, o livro é uma espécie de autobiografia com licença poética. "Eu diria que é 50% ficção e 50% de realidade, cabe ao leitor descobrir", ri Letícia.

Embora para descobrir o que de fato ocorreu, apenas conhecendo a autora, ou talvez nem assim. Enigmática, provocadora, perturbadora, ela busca mergulhar o leitor no universo que viveu. Filha de classe alta capixaba depois atingida pela crise, lésbica, desajustada aos padrões das elites, perambula pelo álcool, drogas e se equilibra na linha tênue entre a depressão e a dita "normalidade", que talvez não mais consista em estar de bem com um mundo terrível.

"Penso que o submundo nos cerceia a todo momento e não está necessariamente nas favelas. O underground pode estar na Zona Sul, nas universidades, nos bares da moda. Algumas escolhas e 'não escolhas' acabam saindo muito caras e podem acarretar em problemas pro resto da existência. Se o leitor inferir isso, creio que essa é a grande sacada do meu trabalho", diz a autora.

O obra começou a ser escrita em 2004 como um subterfúgio, uma forma de expressão em meio a tudo que vivia. Época em que não havia tanto acesso à internet e os rascunhos se faziam em cadernos, papéis coloridos ou papel de pão.

Depois de parar por muito tempo, retomou em 2014, quando ainda se recuperava do episódio de tortura que, garante, foi real e ocorreu dois anos antes, quando morava em Belo Horizonte, a mando de sua ex-companheira. As marcas permanecem até hoje em seu corpo e sua mente. "A cena da tortura, talvez, esteja impregnada em tudo que faço. Ocorreu, eu nem sei como estou viva para contar essa história. Deixou sequelas psicológicas, emocionais e, sobretudo, físicas. Algo que eu jamais poderia esperar que ocorreria na minha vida. É um convite ao leitor para participar da minha narrativa".

Explicitar e falar sobre o tema, trazer a público o que não teve que denunciar à época, para Letícia isso hoje é importante não só para dar vazão aos sentimentos reprimidos, mas também para indicar que a prática de tortura persiste mesmo depois da ditadura. E pior, como todos sabemos: um apologista da tortura governa o país.


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