Uma aspirina resolve?

Uma aspirina resolve?

Uma piada na Internet diz que não existem ateus em pane de avião. A experiência nos ensina que não existem ateus nos momentos de dor. Quando essa velha bruxa nos alcança, todos rezam, que se não cura, pelo menos alivia. Mas ao rezar pedimos que seja feita a Vossa vontade e não a minha. Pode parecer masoquismo, mas basta olhar em volta, e tem sempre alguém com uma dor maior. Devia haver um campeonato mundial de dor. Ou pôr a modalidade nas Olimpíadas.

Somos seres vulneráveis, vagando indefesos nesse planeta ora chamado vale de lágrimas, ora chamado paraíso, onde a única certeza é a incerteza.  A felicidade existe, que dela temos provas, portanto há que desfrutá-la quando nos alcança, que a dor, essa megera, espreita atrás das portas. O dicionário diz que a dor é uma experiência sensitiva e emocional desagradável… Ah, se fosse tão simples! Pois há tantas variações para a dor quantas são nossas impressões digitais.

Da dor de barriga à dor de cotovelo, da dor da vida à dor da morte. A dor inevitável e a dor adquirida. As decepções de amor e o vazio das ausências. A opressão e a solidão. Estamos no mundo para cumprir um ciclo comum aos seres vivos – nascer, morrer.  O que acontece entre esses dois extremos depende apenas de nós? Se tenho uma lesão na coluna é porque não fiz bastante exercício, se tenho um ataque cardíaco é porque não me alimentei direito.  Dói-me o dente e alma, porque não escovei direito.

E tem a dor social, que deve ser escondida para não nos expor ao ridículo. Segundo Fernando Pessoa, os poetas entendem bem do assunto. “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente. Para nós, pobres mortais, funciona ao contrário, devendo  fingir que não é dor a dor que deveras sente.  Concurso de miss, por exemplo. Uma é escolhida e ganha a coroa, enquanto as finalistas ficam lá no palco, morrendo de dor, mas com um largo sorriso no rosto.

O candidato derrotado dando entrevista após o resultado das eleições: O que acha de ter perdido a sua última chance de se candidatar a alguma coisa? pergunta o repórter. Outra vez o largo sorriso, Isso é democracia, portanto, que seja para o bem do povo. Também o atleta após a derrota, tendo que ir cumprimentar o vencedor, Venceu o melhor. O largo sorriso é fundamental, mesmo se o derrotado quer quebrar a cara do opositor. Noblesse oblige, dizem os franceses.

Lord Byron disse, A recordação da felicidade já não é felicidade; A recordação da dor ainda é dor. Esquecemos os bons momentos mais depressa que os maus momentos. Esticamos a dor desnecessariamente, amargando derrotas, ressentimentos, frustrações, perdas ad infinitum. Ficamos felizes quando uma pessoa nos faz um favor, e ao agradecer dizemos, Fico lhe devendo a vida toda. Um mês depois a mesma pessoa nos nega um segundo favor, e a odiamos pelo resto da vida.

O homem chegou à lua e inventou o caixa eletrônico, mas não conseguiu ainda superar esse incidente físico ou emocional, imposto ou adquirido, que chamamos dor. Talvez a gente esteja  pagando nossos pecados com as nossas dores, portanto, sofrer é inevitável, deduz o pessimista. Ao que o otimista replica, Entre uma dor e outra, que tal tomar uma aspirina e ser feliz?

Mais um blog?

Mais um blog?

A Internet é o imenso mar oceano onde sites, blogs, emails, links e afins flutuam à deriva, esperando que algum desavisado internauta os acesse… Como a mensagem que o náufrago põe na garrafa e joga nas águas revoltas, esperando que alguém, em algum porto solitário, a encontre…
Mas não é assim também o amor?

Naufragada em Miami, dividida entre dois mundos e duas culturas diametralmente opostas, sentindo falta do nosso insubstituível calor humano, da polenta com couve e da língua pátria amada, meus pequenos retalhos de vida cotidiana são as mensagem que ponho na garrafa e jogo no ignoto mar cibernético, esperando que você, meu inconstante internauta, a pesque entre milhões de outras que vagam no espaço virtual e dela tire algum proveito.

Quando você acessa alguns desses mais de dois mil esboços dessa tragicômica saga humana – yin e yang – que venho rabiscando há 16 anos, estarei sendo resgatada, que náufragos virtuais somos todos nós.

Vão-se os anéis e os dedos

A notícia nos jornais abalou, não apenas suas economias, mas também as pretenções de Donald Trump à presidência dos States.

No dia do noivado, em vez do esperado anel de brilhantes, Vico oferece à futura esposa um anel da Pandora; caro mas inadequado –  diamantes são para sempre. O quase-noivo explica que pretendia comprar o anel exigido na ocasião, mesmo com parcos quilates, mas uma notícia nos jornais abalou, não apenas suas economias, mas também as pretenções de Donald Trump à presidência dos States.

Pois não é que justamente no auge da campanha presidencial, quando o único programa de governo do candidato republicano é ressuscitar o muro de Berlim no sul dos Estados Unidos, a Ford anuncia que está transferindo sua produção de carros populares para … (suspense) … Advinhou? O México! Trump quase arranca o famoso topete – Tanto país pobre no mundo, por que o México? Ficou chato, né?

Mas pode até ser que a mais tradicional fabricante do mais americano dos carros esteja ajudando o candidato em sua política separatista, justamente por semear empregos à mão cheia no terreno inimigo. Se, seguindo o exemplo da Ford, toda a indústria americana também se transferir para o México, teremos dois benefícios a curto prazo: carros mais baratos (mão de obra a preço de garrafinha de água mineral), e inversão da corrente migratória.

A Ford anunciou que vai investir 4.5 bilhões na produção de carros pequenos, mais econômicos porém massacrados pela concorrência de Hondas e Toyotas. Com essa transfusão de dólares na combalida economia mexicana, até los astecas vão deixar suas pirâmides e trabalhar na linha de montagem. Tudo porque a Ford quer se dedicar a seus produtos mais lucrativos –pickups e SUVs, que com a gasolina mais barata, são as preferidas de quem pode pagar.

O problema da imigração ilegal será transferido para o governo mexicano, e todos sairão lucrando. Enrique Peña finalmente vai aceitar pagar os custos do muro, como Trump promete e jura que vai acontecer. Para Vico, porém, a notícia é desastrosa. Trabalhando há anos na fábrica da Ford em Detroit, seus dias estão contados. Claro, a Ford já se espalha por vários países, inclusive o México, mas essa mudança é radical. Empregos andam difíceis, e vamos ter que mudar pro México? Triste ironia.

A quase-noiva recusa o pedido, Prefiro ficar sem anel do que mudar para o México e viver com 10% do seu salário. Vico vai à loja devolver o anel, e a vendedora o consola, Vão-se os anéis, ficam os dedos. Vico rebate, Foram-se os anéis, o emprego, a noiva, de que me adiantam os dedos?  A jovem insiste, Sem anel e sem emprego, mas talvez com outra namorada. Vico não pensa duas vezes, Mesmo se tiver que mudar pro México? pergunta, pegando o anel de volta.

Em casa de marimbondos

Em toda minha longa vida, não consegui usar todas as funções da palavra que…

Nunca soube que marimbondos, esses horríveis insetos mordedores  possam ser tema de qualquer trabalho de ficção. A não ser, claro, que façam um filme onde os desmandos ecológicos da humanidade provoquem uma super-população de vespas geneticamente modificadas, que atacariam alguma  cidade praieira da moda, bem no pico do verão. Enfim, são comedores de insetos, portanto, temos que respeitá-los.

Mas ganharam até um ditado, Não mexa em casa de marimbondos… Se não quiser se meter em encrencas. Vendo uma, passe longe, pois onde se instalam são os senhores da área. Já vi belas mangueiras carregadas de mangas que ninguém ousava tirar. Por que não? Porque os marimbondos moravam num dos galhos. Mas nem todos os odeiam – no México os comem com casa e tudo, e garantem os apreciadores, são deliciosos. Tradicional cozinha exótica. Pior que marimbondo, porém, são as famigeradas funções do que – De quê? Do que está falando? pergunta um; O que são funções? quer outro saber; Que tragédia! replica a outra. Pois que existem, existem, que as gramáticas não me deixam mentir. Nos países de língua portuguesa existem estranhos seres que não apenas conhecem todas, mas que as aplicam no linguajar diário. Houve até um sábio monge que a elas dedicou toda sua vida. O monge de que vos falo estava no leito em que ia morrer, e seus discípulos, que muito choravam,  perguntaram que última lição lhes daria antes que partisse para o além. O que disse ele?  “Vivi mais que os outros homens, de pobre fiquei rico e de rico fiquei pobre porque doei tudo que possuía aos necessitados. Em toda minha vida, porém, não consegui usar todas as 270 funções da palavra que. Por mais que tentasse…” Suspirou e morreu. Que ideia interessante! diz um dos seguidores; Tem um quê de sinistro… diz outro. O que vamos fazer? pergunta mais outro; Vamos prosseguir na missão do mestre e procurar um sentido para as funções quesianas, diz o que mais chora; Nem sabia que existiam tantas, replica ainda outro; Um quê a mais ou a menos… ironiza outro. Melhor não mexer em casa de marimbondos, diz o que ficou por último.

Mesmo que tristes, melhor irmos cuidar do pão de cada dia, sugere o mais prático dos seguidores, que com a morte do mestre perderam eles a Bolsa Família. O que não vai ser fácil, replica um; O quê? indaga outro; Achar trabalho, responde  um terceiro; Quê que é isso? perguntam os outros em uníssono espanto. Trabalho? Que palavra feia essa! exclama o que nada tinha dito até aqui; Será que precisamos? indaga o mais preguiçoso; Melhor não mexer em casa de marimbondos, garante o mais cauteloso; Que tolos somos! dizem todos. P.S. Alguns erros de informação ou gramáticais não são propositais: a gramática tem prazer em me confundir. Quando os mestres do passado se reuniram para criar a língua portuguesa, exageraram no vinho e multiplicaram as  funções do que. Que quê? pergunta um leitor distraído; O que sabe você sobre os que vieram primeiro? pergunta um leitor mais antenado; Quantos quês que essa história tem? pergunta a mais curiosa; Teremos que contar… sugere a mais exigente.

As bruxas estão soltas

Quando ausente, ninguém se refere a ela como a diretora de marketing, ou a colega Mara.

Mara batalhou para chegar onde chegou. E para se manter no topo, tem que se esforçar mais que os 6 homens que participam com ela das reuniões da diretoria. E só dois são filhos do dono. Tivesse ele 7 filhos, a empresa já teria falido. Mara faz as contas: tem mais diplomas, mais tempo de empresa, e sempre apresentou melhores resultados que os 6 juntos. Chamam a isso de igualdade dos sexos.

Quando, há dois anos, seu nome foi anunciado como o novo membro da diretoria, foi imediatamente cognominada de Bruxa. Não abertamente, claro. Mas sabe que em sua  ausência, ninguém se refere a ela como a diretora de marketing, ou a colega Mara. Até as mulheres, que deviam se orgulhar quando uma delas consegue superar os obstáculos e chegar na frente. Minha pista sempre teve mais obstáculos que a dos outros, lamenta Mara.

Na vida real, homem mandando nos outros é chamado de doutor, mulher é chamada de bruxa, megera, caninana. Não é de hoje e não vai mudar amanhã.  Remonta às histórias infantis transmitidas oralmente desde tempos antigos. A donzela devia ser dócil e frágil, precisando de  um homem – príncipe ou mocinho – para se livrar das situações complicadas. As independentes eram bruxas.

Se conseguiam se virar sozinhas era porque tinham parte com o demo. Cleópatra, Maria Antonieta, Ana Bolena, Marquesa de Santos e outras mais foram odiadas e injustiçadas, e entraram para a História como bruxas. Erraram, pecaram, usaram influências para subir ou sobreviver na vida, tal e qual os homens com quem conviveram. No entanto, esses levaram as coroas de louros, enquanto elas – as bruxas – acabaram mal. Ou talvez por isso mesmo.

A Marquesa de Santos foi desprezada, humilhada e condenada ao  ostracismo. E ainda deu sorte. Das outras três, duas foram decapitadas, uma se suicidou. Cleópatra lutou pelo trono que lhe cabia, e se os romanos dominavam, juntou-se a eles com as armas que tinha. Se o grande César, um dos quatro maiores guerreiros da história, foi “induzido’ a se posicionar contra os interesses romanos, é porque Cleópatra era bruxa. Ele, o herói indefeso.

O mesmo para Ana Bolena, que a história registra como a malvada que levou Henrique VIII a praticar atos nefandos, mesmo se ele casou oito vezes, mandou decapitar duas e talvez envenenado duas mais. Mesmo odiada, o povo entendeu que a morte de Ana, o irmão e dois amigos, não teve bases concretas. Também odiada pelos franceses, Maria Antonieta foi mais vítima que algoz, e nunca mandou o povo comer brioches. Embora os tempos sejam outros, e já não existam monarcas absolutos (sic), Mara vive sempre no temor de ser também decapitada. Não literalmente, claro. Vive na berlinda, e mesmo se esforçando mais que os outros seis, qualquer deslize será, Vupt – Cortem-lhe a cabeça! Se tal acontecer, mesmo nesses tempos de igual-para-todos, a chance de outra mulher tomar seu lugar é de apenas 30%.

Ana e o pássaro azul

Ana e o pássaro azul

Diz a lenda que ela traz sorte, e quando conseguir fazer mil você terá um desejo realizado.

Feitas com papel de seda, pequenas e delicadas garças azuis, dobradas com o cuidado exigido pelo origami. Depois de bem dobradas, Ana decora as asas com elaborados desenhos –  flores, folhas ou ramos, anjos ou guirlandas, pássaros, peixes, nuvens. Ou apenas traços sinuosos, enroscando-se sensualmente uns nos outros, como um par romântico.   Ana cria suas aves com o mesmo cuidado com que os artesãos da Idade Média criavam os rococós que engalanavam suntuosas catedrais – para que os fiéis entendessem a beleza do paraíso. Condenamos a Igreja Católica pelos abusos e crueldades da Inquisição, ironicamente chamada de santa, mas devemos reconhecer que ela incentivou e patrocinou muitas das melhores obras de arte já criadas pelo homem. As mulheres nunca tiveram vez.   Isso pensa Ana, por nada mais ter que pensar enquanto cria as pequenas garças de papel de seda. A adição dos adornos é para realçar as excessões que até a natureza aceita. Quando prontas, Ana acrescenta sobre elas uma leve gota de perfume, para criar o toque de mistério.  Completando  a cota do dia – embora não haja uma quantidade específica para cada dia – Ana arranja os pequenos pássaros numa caixa, e está pronta para mais um dia em sua vida.

A garça azul é a mais clássica e popular figura do origami japonês – a arte de dobrar papéis. Diz a lenda que ela traz sorte, e quando conseguir fazer mil você terá um desejo realizado. Por que não tentar? Missão cumprida, Ana almoça um sanduíche vegetariano, integral e orgânico,  assiste ao Vale a Pena rever na TV, veste a túnica azul e sai para a tarde ensolarada ou chuvosa, com brisa amena ou vento forte – qualquer que seja a previsão metereológica, mesmo que ilógica.

E lá vai Ana distribuindo sorrisos rua a fora, vida a fora.  Às vezes pega um ônibus, mais das vezes caminha a esmo, vira em qualquer rua ou segue qualquer rota, mas sempre nos locais mais feios, mais pobres, mais tristes. Pode ser uma escola cheia de goteiras ou um hospital precisando de anestésicos, ou um desses prédios escuros e mal-cuidados, com pequenos consultórios cheirando a desinfetante e lágrimas.

Ana distribui garças azuis como se fossem bênçãos ou biscoitos da sorte. A quem ou para quem? As aves de papel não têm destinatário e não transmitem recados ou mensagens, sejam explícitas ou cifradas. Mas tem seus critérios, e distribui seus pequenos trabalhos de arte a quem deles mais precise. Como discernir quem são essas pessoas precisadas de uma mensagem de paz, no entanto, é um dom que nem ela pode explicar – puro instinto.

Tá vendendo, moça? Não; pegue uma, traz sorte. É, ando mesmo muito precisada. Ana sabe disto, mas sorri apenas e nada diz.  Quando a tarde se dilui no abraço da noite e as ruas começam a se esvaziar da pressa e dos barulhos do dia, Ana volta pra casa com a caixa vazia e o coração cheio de paz. Está perto de completar as mil garças de origami que precisa fazer  para que seu desejo seja realizado. Mas quando acontecer, vai mesmo parar?