O Ano do Galo Vermelho

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Sem querer imitar ninguém, da minha janela nesse sábado, dia 28, poderei ouvir os fogos de artifício comemorando o Ano Novo Chinês. O dia é marcado pela primeira lua cheia do ano, e os fogos explodem em profusão para afastar os maus espíritos, demônios e maus fantasmas, permitindo a pacífica chegada de um novo ano. Mas quem não ouvirá? A China produz 90% dos fogos de artifício usados no mundo todo.

 
No calendário chinês, 2017  é o Ano do Galo Vermelho, mais precisamente, da Galinha Vermelha. Como parte dos festejos, o Festival das Lanternas é um costume iniciado há dois mil anos, e simboliza a reunião das famílias. Por esse motivo, na próxima semana ocorrerá a maior migração humana do planeta: cerca de 3 bilhões de pessoas, ou 7.4% da população mundial, estarão viajando durante os festejos, para visitar os muitos familiares espalhados por toda parte.

 
Para Ly Ing, porém, a tradição traz um problema: Morando em Miami, todos os anos ele visita a família na China, como manda a tradição, mas em sendo solteiro, as cobranças familiares não lhe dão sossego – Quando se casa, quando nos dará um neto, essas coisas. Esse ano, pois, Ly tomou uma decisão – sabendo que uma colega de escritório passa por dificuldades financeiras, fez-lhe uma proposta – ir à China como sua noiva.

 
Manuela, uma peruana de olhos puxados, não iria chocar demais a família.   A jovem aceitou a oferta, tanto pelos 5 mil dólares que ele vai lhe pagar se tudo correr bem, mas também pela viagem com tudo pago. E se esmerou nos preparativos. O símbolo da galinha vermelha é fogo, e Manuela encheu a mala de roupas vermelhas e envelopes vermelhos com dinheiro dentro para presentear a família, como é o costume. Na Internet ela se inteirou dos costumes locais e até aprendeu a preparar uma receita não muito complicada.

 
A moda de alugar pessoas estranhas para apresentar à família no Ano Novo é comum na China. Existem várias agências prestando esse serviço o ano todo, mas no ano novo a demanda cresce e o preço sobe. Esse ano, uma agência divulgou que contrataram 3 vezes mais falsos amores que nos outros anos. E não devem faltar candidatos para viajar sem gastar um Yuan e ainda ser pago. O preço varia de 200 a 750 por hora, ou cerca de 3 a 5 mil por dia. Pelo menos três dias.

 
Mas há uma longa lista de obrigações a serem cumpridas rigorosamente, ou o contrato é cancelado. Saber tudo sobre a vida do pretendente e respectiva família; como se conheceram e há quanto tempo; quando pretendem se casar. E mais, agir como um cavalheiro ou uma dama, não fumar, beber muito mas não ficar bêbado, comer tudo que for servido e nunca usar palavreado impróprio. Nada de beijos, mas mãos dadas e abraços são  necessários. Idealmente, jogar mahjong.

 

De acordo com o horóscopo chinês, Ly Ing e Manuela – que mudou o nome para Ly Dian,  vão se apaixonar nessa viagem e viverão felizes para sempre… ou quase. Para também ter sorte nesse fim de semana, vista vermelho e muito brilho, e me mande um envelope vermelho com algum $$ dentro. Pouco, mas resolve – um bilhão e meio de chineses devem estar certos.

 

Com abraços e pipocas

Com abraços e pipocas

Black and white image of a little girl hugging her mother
Foi para abraçar que Deus nos deu dois braços

 

Todo mês tem seus dias de glória, e janeiro começa bem o ano com o feriado mais comemorado no mundo.  Mas o primeiro mês do ano tem mais coisas além de nossa vã imaginação. O dia 17, que passou e jaz esquecido no calendário de 2017, foi o dia internacional de esquecer as resoluções de fim de ano. Portanto, estamos todos perdoados, embora com atraso.

 

 

Alegrai-vos, que o dia 19 é o Dia Internacional da Pipoca. Outra notícia atrasada, reconheço, mas ainda pode e deve ser comemorada. Quem diria, esse milhozinho aparentemente insignificante, se virado pelo avesso se tornaria uma das mais apreciadas iguarias universais, ganhando até seu dia no calendário das nações amigas. E quem não gosta? Boa de qualquer jeito, saudável e ótima para regimes se resistirmos ao impulso de abusar da manteiga, do sal e de aditivos outros ricos em tudo que é bom mas devemos evitar. Pipoca combina com tudo e tem gosto de infância. Melhor  ainda se for saboreada quando se dá a sorte de achar um bom filme ainda não visto na TV.

 
Dia 20 é o Dia Internacional do Abraço. Existe comemoração mais agradável? O abraço é uma terapia fácil e eficiente, com amplos efeitos positivos nos dois lados da linha – para quem dá e para quem recebe. Existe alguém no mundo que não tenha alguém para abraçar? Mas se criaram um dia especial para esse ato de carinho e boa-vontade,  por que nos limitarmos a duas pessoas, se podemos envolver várias num mesmo e amplo abraço? Portanto, saia por aí distruindo abraços em grupo, ampliando assim as emanações positivas de seus poderosos fluidos. E você vai se sentir de bem com a vida.

 
Dia 28, além do Ano Novo chinês, é também o Dia Internacional da Privacidade e Proteção de Dados Pessoais. Quanto mais aderimos à comunicação virtual, mais vulneráveis ficamos. Os hackers estão soltos e não dormem no ponto – sempre à frente dos mecanismos criados para nos proteger deles. Portanto, não esqueça que privacidade e segurança na Internete são fundamentais:  cuidado com o que posta, mantenha senhas difíceis de advinhar, não passe informações importantes para sites e pessoas desconhecidas. Se é impossível eliminar os riscos de um ataque virtual, vamos pelos menos dificultá-los.

 
E voltamos no tempo ao dia 20 desse auspicioso mês de janeiro, para comemorar o dia da Elizabeth, mais conhecida por Bete. Que quase se chamou Sebastiana por causa do santo do dia. Mas no dia em que ela nasceu outra Elizabeth, a persistente rainha do Reino Unido, declarou à BBC de Londres que teve um sonho estranho: quatro insetos saídos de Liverpool trariam mais glórias à coroa britânica do que a revolução industrial e o rosbife. Isso selou o nome e o destino de Beth Madeira, a quem mando pipocas e muitos abraços. Feliz aniversário, querida!

A posição astral para 2017

 

Fachada da Skechers, o tênis preferido dos pássaros
Fachada da Skechers, o tênis preferido dos pássaros

 

Entra ano, sai ano, e se dezembro é o mês das boas intenções, janeiro é o mês da culpa. Passamos os 31 dias do novo ano com insônia e consciência pesada,  porque tudo que foi cuidadosamente decidido na passagem de ano se revela impossível ou impraticável, mal retiramos as luzinhas do ano velho. Mais 28 dias escorrem na ampulheta do tempo, como se dizia no tempo em que se contava as horas em ampulhetas, e como tudo continua na mesma, fevereiro é o mês das decepções.

 

Mas com a auspiciosa chegada da primavera tudo volta ao que era antes, e março é o mês da paz. Essas coisas Neide anota no caderninho, fazendo uma séria avaliação – suas boas resoluções não conseguem ultrapassar os obstáculos dos dois primeiros meses do ano. Quais sejam: fazer regime, se mexer mais e gastar menos. Simples, práticas e úteis, e no entanto, tão complicadas. Mas Neide não está sozinha – essas intenções de fim de ano são as mais populares e as menos alcançadas. Então o que está errado não são as metas, mas a forma de interpretá-las.

 

Esse ano Neide decide fazer tudo diferente, abordando a situação por um ângulo mais compatível com a realidade prática. A começar pelo sonho de 10 entre dez seres humanos: manter a boa forma sem regimes radicais. Com toda a evolução moderna, com tantas maravilhas da ciência e da tecnologia criadas todo dia, ainda não descobriram uma pilulazinha que nos faça perder peso sem perder o apetite, sem efeitos adversos e sem culpa. Em 2017, portanto, radical mudança de rumo.

 

Na primeira semana de janeiro Neide põe o Gugu pra fora de casa. Sumariamente. “Mas o que te deu na cabeça, mulher? Jogar no lixo dez anos de bom relacionamento sem aviso prévio?”  Bom relacionamento para quem? Pensa ela, mas nem se dá ao trabalho de responder. Durante dez anos o Gugu tem sido um peso em sua vida, portanto, a primeira resolução de fim de ano se cumpriu ainda em janeiro. E anota no caderninho uma nova intenção para 2018: não se deixar explorar nos próximos relacionamentos.

 

A segunda intenção, se mexer mais, também foi beneficiada com a retirada do Gugu do cenário familiar. Motivada pela solteirice repentina, Neide passou a frequentar a academia da esquina, pagando três meses adiantado. Assim não vai faltar. Na segunda semana de janeiro já perdeu meio quilinho.  É muito pouco, é quase nada, que nem naquela música do Gonzagão, mas é a primeira vez que a balança não se mantém teimosamente estancada no famigerado excesso de peso.

 

A terceira intenção, reduzir gastos,  também foi obtida, sem o Gugu se exercitando o dia todo no trajeto computador – geladeira.  Mas não foi suficiente, e as contribuições de começo de ano para o retorno às aulas dos sobrinhos sofreu um corte radical, sob protestos de Lina, a irmã pobre. “Sem aviso prévio, Neide? Sempre contei com sua ajuda nas despesas das crianças!”  Neide não se deixa demover, “Contenção de despesas, querida. De agora em diante, presente só no Natal e aniversários”.

 

O ano mal começou, e muita água ainda vai rolar até chegarmos a 2018. Com as bênçãos divinas,  escapando de balas perdidas, dengue, zica, planos econômicos mirabolantes, atentados terroristas, poluição ambiental e outros senões inesperados. Sem nem falar nos sempre esperados. Mas não se desespere – pela posição dos astros, já sabemos que 2017 será um ano muito bom para meus leitores e leitoras.

 

Deus foi ao cinema

Deus foi ao cinema

Gastando-se mais tempo no ir e vir do trabalho do que trabalhando, a distração é identificar e decifrar as placas personalizadas dos carros. Nova tela onde tudo é possível, desde que se pague um pouquinho mais. Ajudam a passar o tempo e para o usuário têm múltiplas funções: prestam homenagens, transmitem recados, ideias e conceitos e são fáceis de memorizar. Com tantos carros iguais no estacionamento do shopping,  como identificar o seu?

 

Os mais comuns são nomes de pessoas ou mix de nomes, como JOHNISA, de John e Isa; nomes de times esportivos e países –  tem BRASIL 1 e BRASIL 2, pois se o nome é repetido põem números.  Meu favorito, I FORGOT. O que foi esquecido de tão importante pra gravar numa placa que dura a  vida toda? E é bom lembrar disto antes de pôr o nome da pessoa amada, nesses tempos em que os amores acabam mais depressa que sorvete.  Quem não perdoou: MORON. Os pedidos de casamento aqui tentam surpreender, portanto, não foi surpresa deparar com essa joia: MARRYME.

 

Tem manifestações religiosas, como BUDA, e como não poderia faltar, GOD. Acho que Deus é o mais popular, porque já vi GOD 666. Portanto, alegrai-vos: a fé ainda resiste a tempos tão materialistas. Mesmo quem não reza lembra dele toda hora: Ai meu Deus, Deus nos acuda, Deus ajuda quem cedo madruga, Deus é testemunha, Juro por Deus, Só Deus sabe,  Fé em Deus e pé na tábua; o homem põe e Deus dispõe, Deus é grande, Deus é pai… Sem falar que ainda vemos muitos carros com terços pendurados no espelho retrovisor, mesmo se Deus nunca andou de carro.

 

E embora sem nunca ter ido ao cinema, Deus é um dos personagens favoritos da sétima arte, sempre muito lembrado e explorado, como O Todo Poderoso (2003), Êxodo (2004); A volta do Todo Poderoso (2007); Noé (2014), para citar apenas alguns mais recentes. Tem até Deus é brasileiro (2003), um segredo bem guardado pelos brasileiros. Em 2016 foram lançados vários filmes sobre Deus, com destaque para O Jovem Messias. Mas ter Deus como personagem não garante as bênçãos divinas: o filme Deus não morreu (2016), é um pecado mortal.

 

Mesmo confiando em Deus, sugiro trancar as portas e dirigir com cuidado. Não esqueça o cinto de segurança e se beber não dirija nem digite. “Melhor deixar sem resposta do que morto”, gritam os outodoors das  highways, lembrando que a dobradinha volante e celular está expressamente proibida pela lei de Deus. Mas quem é Deus? A Bíblia diz que é o criador do universo, o que Camões lindamente explica: “Quem fez esse rotundo globo / e sua superfície tão limada / é Deus, mas quem é Deus ninguém entende / que a tanto o engenho humano não alcança”.