Entre sustos e suspresas

Entre sustos e suspresas

Causou espanto a notícia de que a próxima espécie em extinção no linguajar escrito é a exclamação. Coitada, tão empenadinha. Essa não, exclamam os puristas, enquanto os que com nada mais se espantam resmungam, Finalmente. Segundo o famoso tio que virou dicionário, “(!) um sinal de pontuação que se utiliza para assinalar uma interjeição, ou uma frase exclamativa, notadamente na expressão de sentimento ou emoção, admiração, surpresa, susto.

A língua falada, como sabemos por uso próprio, foi criada pelo povo e para o povo, que a mantém viva e mutante. Já a linguagem escrita foi elaborada em tubos de ensaio por monges eruditos fazendo penitência nos claustros, entendiados de ouvir sempre os mesmos pecados nas confissões – Êta povo sem imaginação. Tinham tempo de sobra e foram elaborando acentos, regras, um ponto, três pontos, com o fim específico de castigar os pecadores. Já o ponto-e-vírgula, o defunto trema e a crase foram inventados como diversão. Para eles, claro.

Mal falando e piormente escrevendo chegamos à era tecnológica, onde digitar é preciso e quanto mais rápido melhor. Portanto eliminando o incoveniente e o supérfluo. No banco dos réus está o famigerado ponto-de-exclamação, em vias de ser levado à forca, mesmo já vivendo de cabeça pra baixo. A defesa alega que fica bonitinho no final da frase, e quando o texto é fraco, acrescenta emoção. A acusação alega que seu uso é desnecessário – se alguém grita Ai meu Deus, sabe-se que está exclamando e não rezando.

Em efeito cascata, o ponto-de-interrogação está perdendo o sono, que nem figurão no Brasil – “Serei o próximo? Delaterei o ponto e vírgula”. Pois se digo, Quem é voce, desnecessário incluir o ponto contorcionista, a indagada pessoa sabe que faço uma pergunta. Tá sabendo que o ponto de exclamação será eliminado do vernáculo. Não. Impossível. Como vamos exclamar ou reclamar daqui pra frente. A acusação diz que por excesso de pontos e acentos muita gente abandona a escola e ingressa no sistema penintenciário. Ou larga bons livros no primeiro capítulo.

No caso das vírgulas, a acusação alega que cansam a leitura, mesmo sendo pausas para respirar. Mas quem lê alto hoje em dia? A defesa alega que, mesmo se algumas podem ser eliminadas sem prejuízo do texto, ou sem impedir que se advinhe quem é o assassino, casos há em que sem ela recebemos a notícia errada, a informação truncada ou o diagnóstico trocado. Morreu não, está vivo; Morreu, não está vivo. As mesmas palavras, escritas na mesma ordem, mas uma simples vírgula vai impedir que enterrem quem ainda não virou defunto.

Alegando clareza no texto e elegância de estilo, vamos distribuindo remanescentes dos hieroglifos aqui e ali, rezando para que se encaixem no espaço que lhes foi destinado, pelo menos a maioria deles. A premissa é, se você não sabe, quem vai ler sabe menos ainda, portanto, confie no seu instinto. Algumas vezes, porém, o bolo queima no forno. Na coluna Carta Enigmática (10 de março), parece que ninguém entendeu que estava me referindo ao filme Casablanca: Ilsa, Rick, Victor… Um bar, a estação de trem em Paris… Acho que faltou ponto de exclamação.

Sob o céu de Miami

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(Foto: Michel Sily, sem Photoshop)

Quando Fidel Castro tomou o governo de Cuba deu início à migração cubana para os Estados Unidos, mais precisamente, Miami aqui vou eu. Opção óbvia, pela proximidade geográfica e pelo clima. Entre os primeiros a chegar estava Juan Morales, com esposa e filha. Juan alugou um pequeno quarto e sala, comprou uns móveis usados, pôs a menina na escola pública e foi lavar pratos num restaurante, esperando o dia da volta – que nem nordestino em São Paulo, sempre sonhando em voltar pro Norte. Juan não estava sozinho; as primeiras levas de imigrantes cubanos tinham a mesma mentalidade – se adaptar como possível a uma vida temporária.

Um antigo costume americano, nas vésperas do Dia de Ação de Graças os patrões presenteiam os empregados com o peru para a tradicional ceia do Thanksgiving. Juan adorou, mas o presente lhe trouxe um problema – não havia na casa uma travessa suficientemente grande para servir o peru. Não ficaria bem esquartejá-lo, uma vez que o irmão viria de Nova York com a família para os feriados. Portanto, Juan Morales foi às compras, e encontrou uma travessa compatível com o tamanho do galináceo de honra de seu jantar. Tudo correu melhor que o esperado, mas terminados os festejos, Juan depara com outro problema – onde guardar a grandiosa travessa no exíguo apartamento?

Tal como o Sr. Morales da nossa história, todos os cubanos na América esperavam a situação em Cuba se normalizar para fazerem a viagem de volta, se não queriam deixar nada para trás. Mas a história escreveu diferente, e a vida do Juan foi mudando – arranjou um emprego melhor, a esposa começou também a trabalhar, a filha estava se adaptando bem na escola, e o armário da cozinha não tinha espaço para a imensa travessa que deveria sustentar o peru do próximo ano. Juan Morales ficou uma noite sem dormir, e no dia seguinte tomou uma decisão que mudou sua vida – tirou do banco as economias acumuladas para recomeçar a vida na pátria amada e comprou um terreno. Com a ajuda de amigos conterrâneos contruiu uma casa com três quartos e uma cozinha grande o suficiente para abrigar um bom armário, onde guardou a travessa do peru e mais um belo jogo de mesa completo – 130 peças, doze de cada tipo – que comprou por 12 dólares numa liquidação.

No segundo Thanksgiving que a família passou na Flórida, a casa estava pronta, com dois andares, murada e com piscina. Tal como o Sr. Morales, os outros cubanos foram entendendo que mesmo se a situação política e econômica na ilha mudasse, lá nunca teriam a vida que tinham aqui. As razões de cada um variaram – uma simples travessa que precisa de um armário maior, um filho que nasce, uma filha que se casa com um gringo, um negócio que começou do nada e de repente vai de vento em popa – aos poucos os cubanos aceitaram que nunca fariam a viagem de volta. Portanto, bateram estacas e criaram raízes, e nesse processo dominaram e mudaram o sul do país.

O próximo jogo de pratos comprado tinha 90 peças – 8 de cada – que para Juan simbolizava sua adaptação a uma vida imposta. Um furacão destruiu a casa e outra maior foi erguida, a cozinha também crescendo para mostrar o sucesso dos Morales, agora com a filha já trabalhando. Mas o jogo de pratos comprado desta vez tinha 50 peças – 4 de cada – indicando também como as famílias estavam encolhendo. A primeira travessa comprada pelo Morales, no entanto, continuou ocupando o lugar de honra do armário, e Juan agora repetia para os netos, “Nunca se esqueçam que tudo começou com essa travessa”. Que hoje está pendurada, ou melhor, entronizada, na parede da sala da filha, que tal como seus pais, nunca mais voltou a Cuba.

Carta enigmática

A carta enigmática
casablanca

Quando foi retirar contas e junkmails da caixa do correio, Ilsa leva o primeiro susto – uma carta! A não ser cobrança, ninguém mais recebe cartas hoje em dia; amigos e conhecidos se comunicam de forma mais civilizada, por emails, mensagens de texto, Facebook, Messenger, WhatsApp, Instagram, as chamadas sete maravilhas da idade tecnológica. No entanto, não mais que de repente, uma carta se mistura ao excesso de propaganda enganosa na caixa que o agente dos correios insiste em superlotar diariamente. Essa gente não descansa?

Mas aí, no meio do caminho aparece uma carta. O nome e endereço estão corretos, não deixando dúvidas sobre quem é a destinatária. Mas não há indicação de remetente, falha que os correios deveriam proibir, evitando muitos transtornos. Podemos abrir uma conta bancária, mesmo apenas para depositar ou receber o mínimo, sem Identidade e CPF? Entramos no avião para Miami sem passaporte? O voto é obrigatório, mas votamos sem tirar o título de eleitor?

Resta apenas uma pista: o selo. Ilsa examina minuciosamente esse pedaço de papel impresso, que embora minúsculo tem dons milagrosos – sem ele a carta não viaja. Alguns deles hoje descansam em redomas de vidro dos museus, mas esse que permitiu a essa estranha carta chegar às mãos da destinatária é dos mais insignificantes. Ou seja, foi reduzido a um simples carimbo, onde consta apenas a cidade e o estado. Para encurtar o suspense, Ilsa rasga nervosamente o envelope…

“Querida Ilsa, o trem chegou na gare e você não estava lá, como combinamos. Dá pra entender? Você não mandou explicações, e sua frívola atitude trará sérias consequências para todos. Além de viajar sozinho, perdi também o valor da sua passagem, que não foi barata nem fácil de obter, como você bem sabe. Eu que sempre fui um sujeito bom-caráter e responsável, diria até patriota, com sua ausência me transformei num Hulk social, ou seja, um indivíduo moralmente feio, cínico, indiferente aos eventos que andam rolando por aí. Você sabe quais são.

Ou seja, me transformei num canalha. Talvez um dia nos encontremos, só o destino decide. Talvez você se case com outro mais digno de sua dedicação, ou até já fosse casada e não me contou (PS: Ouvi uns rumores sobre um certo Victor, mas não acreditei, ingênuo que fui). Talvez eu compre um bar com o dinheiro que economizei para investir no nosso casamento. De qualquer forma, e apesar do chute, pelo menos em sonhos continuarei de olho em você, garota! Eternamente seu, Ricardo (Rick para os íntimos).

Ilsa lê e relê a carta, sem entender patavina, se é que tal palavra já não está extinta e enterrada com os alfarrápios ilustrados. Sou Ilsa, isso é certo, mas quem é Ricardo, ou Rick, esse bom sujeito que mudou de personalidade só porque peguei o trem errado, sem saber que alguém, o remetente dessa estranha carta – tinha as melhores intenções de se casar comigo… ou de comprar um bar, não entendi bem essa parte. Em qual local e quais bebidas pretende vender, não poderia ser mais específico?

A carta vai pro lixo, junto com o manancial de papel impresso que Ilsa rcebe e não lê, mas perde muita coisa por esse desinteressse. Como o fato do Uber estar entregando refeições do McDonald na sua porta, por uma taxa módica, ou que um novo bar foi inaugurado perto de sua casa. O dono, um certo Rick, sujeito frio e cínico, vende uísque fabricado com cereais não orgânicos, indiferente aos danos que essas plantações causam ao meio ambiente.

Algo de novo no ar

planeta

Finalmente acharam algo de novo no ar além de jatinhos levando políticos para suas bases. Eu sei, todos já sabem que os exoplanetas estão girando por aí; talvez não estejamos sós nesse deserto estelar com alguns trilhões de astros e planetas em constante expansão, até voltarem a se contrair, feito um ioiô cujas proporções estão muito além do nosso medíocre entendimento. Até agora, são 41 planetas em 20 sistemas estelares, e a gente nem desconfiava.

Passada a euforia das primeiras notícias, porém, uma questão mais profunda se alevanta – e depois? Segundo aprendemos nos livros de história, houve um tempo em que o mundo terminava na costa leste do Oceano Atlântico, esse que nos abençoa com lindas praias, até que um dia um certo Cristóvão Colombo fez a grande descoberta: “Encontramos outro continente até então ignorado! E talvez haja outros…” Não foi bem assim, mas foi o resultado final. Houve grande regozijo nas cortes europeias, não exatamente por amor à humana raça, mas pelas possibilidades de riquezas.

Deu no que deu: dominamos essas terras a preço de sangue e lágrimas, e receio que isso venha a se repetir em cósmicas proporções. Ou a vida imita a arte: no filme Avatar, achado outro planeta, a invasão e exploração foram inevitáveis. Consequentemente, a destruição. Vivemos em círculos, visto que moramos numa bola giratória, repetindo as experiências do passado. George Bernard Shaw avisou, “Aprendemos com a história que nada aprendemos com a história”.

Pelos exemplos da história, caso haja vida inteligente em alguns desses planetas, e se conseguirmos viajar até eles, as guerras de conquista das Américas podem se repetir, mas qual vai invadir qual eis a questão – eles cá ou os terráqueos lá? Winston Churchill, que comandou o domínio e exploração dos ingleses na India, disse, “Quem não aprende com a história está condenado a repeti-la”.

Ao invadir a Rússia, Hitler não aprendeu com a derrota de Napoleão. O que é bem explicado por Albert Speer no livro Inside he Third Reich: “Hitler nada sabia sobre seus inimigos e até se recusava a usar as informações disponíveis para ele. Ao contrário, confiava em seus instintos, não importa o quanto fossem contraditórios”. Naturalmente, cada megalomaníaco se acha melhor e mais inteligente que os anteriores; ou cada novo ditador ignora os erros dos anteriores. Hitler tirou a Alemanha do caos e transformou-a numa potência. Ficasse quieto em seu canto, poderia ter tido uma longa vida e deixado o país inteiro.

Soube recentemente que a Alemanha de hoje é o único país que ensina nas escolas, desde os cursos primários, os erros políticos do passado. Algum país colonizador hoje reconhece ter cometido genocídio em nome do cristianismo e no interesse dos seus monarcas? S.M. Singerson disse, “Uma nação que não consegue lembrar adequadamente os pontos mais importantes de sua própria história é como uma pessoa com Alzheimer. E essa pode ser uma doença social muito mais destrutiva”.

Mas vamos esquecer os exemplos do passado e ser otimistas – que pelo menos um desses longínquos planetas seja mais pacífico e mais justo que o nosso, e já tenha descoberto remédios para todas as doenças porque não desperdiçou a maior parte de seu orçamento em armamentos. Um país que nos ensine a viver em paz. É sonhar demais? Talvez sim, mas enquanto não chegarmos a eles, não saberemos. E mais uma vez ignorando os exemplos do passado, esperemos que Platão estivesse errado quando disse, “Só os mortos viram o fim da guerra”.