Olha no mapa

 

escola

Uma amiga tenta me explicar os estragos que o furacão Ilma fez no jardim da sua casa, e como não deu para entender, sugiro que me mostre no Google Maps. Como assim? foi a pergunta espantada. Meu espanto foi ainda maior: como uma pessoa que trabalha em um ambiente cercado de tecnologia só usa os mapas virtuais para localizar um especifico endereço ou baixar instruções alternativas de chegar lá desviando-se dos engarrafamentos?

 

Pois já não há onde se esconder – nosso humble adobe está exposto a um ou dois toques no teclado,  para todo mundo ver. E não exagero, qualquer um, em qualquer lugar beneficiado com a parafernália tecnológica pode ver e localizar qualquer lugar no mapa mundi, como o consultório do médico antes de ir para a consulta, a casa do amigo que ficou rico,  o prédio onde mora o novo namorado da filha – pelo menos no instante em que as câmeras bisbilhoteiras passaram por lá. A renovação ocorre a cada dois anos.

 

Quando bate aquela saudade de um lugar que ficou na memória, a vontade de estar onde já estivemos, seja a casa da infância ou o sítio do tio, o mapa virtual praticamente nos põe lá. E quem não sofre um ataque de saudosismo de vez em quando? Bem, talvez não as pessoas normais, mas o imigrante é, por natureza, um ser dividido, querendo sempre estar em pelo menos dois lugares ao mesmo tempo.

 

Indo muito além de simples curiosidade ou saudosismo, com muita sorte dá até para ver uma pessoa conhecida que por acaso estava na varanda ou na janela na hora que a van passou tirando a foto, e que talvez nem saiba que ficou lá, registrada e sacramentada como documento em cartório, parte integrante da história da cidade e daquele endereco, até que a foto seja atualizada. Mais uma vez não exagero, já soube de muitos casos.

 

Minha mãe falava sempre em um lugar onde morou na infância e não sabia se era Minas Gerais ou Espírito Santo, onde nunca mais voltou e nem sequer conheceu alguém que conhecesse, ou que estradas levavam e traziam de lá. Muitos anos depois, num dia de chuva e papo furado, lembra disso, lembra daquilo, os filhos reunidos em torno de uma canjiquinha com linguiça, alguém lembrou do fato e corremos para o mapa milagroso, Vamos ver se existe ou era um truque da memória.

 

E de repente aparece na tela de um moderno computador, como obra de feitiçaria ou milagre da tecnologia, uma cidadezinha mineira com jardim florido, coreto e chafariz. Bateu uma tristeza imaginar a felicidade que ela teria ao ver surgir diante de seus olhos o lugar que guardou no coração por toda a vida. Ou talvez não, porque com tanto tempo passado, obviamente a cidade que ficou registrada em sua memória seria muito diferente da cidade registrada pelo Google.

 

Para mostrar aos netos a escola onde estudei em Alegre, apelei para o Google. O Grupo Escolar Professor Lellis foi construído em 1931 no estilo neocolonial, com o frontispício em azulejos portugueses. E faz parte da nossa história: na Revolução de 30 que pôs Getúlio Vargas no poder, a cidade foi invadida pelo chefe da força revolucionária, Comandante Barata, que usou o prédio como quartel das tropas rebeldes. A rua onde o prédio se instala se chamava Comandante Barata quando lá morei, depois mudado para Rodrigues Alves e atualmente Dr. Olívio Pedrosa.

Algo de novo no ar

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Um voo entre a cidade do sol e a cidade dos ventos, ou seja, Miami-Chicago não é muito longo, mas sugiro levar um livro ou o kindle, pois nada acontece de interessante. A não ser que algo inusitado aconteça. Atenção Senhorita Anise Brooklin, por favor apresente-se na cabine de comando; tivemos um pequeno problema com sua bagagem. A garota chamada Anise, de 21 anos, se levanta da poltrona 57, quer dizer, no final da aeronave, e caminha apressada e preocupada até a cabine na entrada.

 

 

Em lá chegando é recebida pelas assistentes de bordo, outrora chamadas aeromoças. Acho que mudaram o nome porque, com a entrada dos homens no páreo, ficava chato falar aeromoços. Ditas assistentes, com seus melhores sorrisos, põem na cabeça da garota uma coroa feita com  legumes (alfaces, brócolis, espinafres), desfraldam a tradicional faixa Happy Birthday Anise, e cantam o infalível Parabéns pra você, acompanhadas entusiasticamente por passageiros  e passageiras.

 

 

Com certeza uma brincadeira de amigos, amor, família. O problema é que a aniversariante não recebeu bem a inusitada homenagem, e ficou lá na frente emburrada, sem sorrir e sem agradecer a gentileza do gesto. Devia ser tímida, acho.  Para piorar seu estado de ânimo, voltou para a poltrona sob aplausos e vivas dos outros passageiros. Parece que ninguém percebeu que a garota não gostou do mico, mesmo se lhe foi servida uma refeição especial.

 

Nessa época em que as empresas aéreas cada vez mais diminuem o que chamam de privilégios do usuário, esse evento foi uma exceção, provavelmente paga. Ou estão adicionando o Parabéns nas regalias de bordo? Na verdade não, porque uma senhora sentada nas primeiras filas se levantou, Eu também faço anos hoje. Perguntaram quantos e ela disse estar completando 88 anos, e todos cantaram outra vez a musiquinha. E a reação dela foi oposta: cantou junto, dançou e saiu pelo corredor recebendo cumprimentos.

 

 

Eu não estava no voo mas repasso o que me contaram, a fonte é fidedigna. A empresa em questão é a Southwest, que inova com serviços melhores e preços mais baratos. Consequentemente,  voos sempre lotados e + lucros. Não estão me pagando para fazer propaganda da empresa, na qual nunca voei, mas o Google informa que ela tem sido inspiração para outras linhas aéreas de pequeno porte, e seu modelo de negócios é copiado no mundo todo.

 

 

O melhor exemplo é não cobrar as alterações de voo, como as outras fazem. Outra novidade que atrai os viajantes é  o inovador sistema de embarque, como define o site da empresa: Temos um processo de embarque rápido, fácil e eficiente. Procure em seu cartão de embarque qual é seu grupo (A, B, C) e sua posição (1-60). Quando seu grupo for chamado, vá para a coluna que tem seu número e espere sua vez de entrar.   

 

 

Há muitos motivos para se viajar, e a maioria deles é ao mesmo tempo estimulante e relaxante. Não preciso listar as vantagens e benefícios de uma viagem, seja para Guarapari ou Guadalupe, Paris ou Parati, uma vez que todo mundo já viajou e sabe bem. Mas as empresas aéreas, as maiores beneficiadas com nossos deslocamentos, fazem tudo para complicar o trajeto. Eu não gostaria que a atendente anunciasse meu aniversário em um avião lotado, mas uma vez que a passagem está paga, por que não posso repassá-la para outra pessoa se não posso viajar?

 

P.S. Nenhum animal foi sacrificado para escrever e publicar essa coluna, a não ser o frango do almoço.

Halloween diet

fca4ce85-0b3b-4b59-b288-0ab3d781338a-1024x789Quando desconfiam que alguma mercadoria vai faltar, todos correm para armazenar para o futuro imediato. Basta um boato de um banco quebrar e todos correm para retirar seu dinheiro; quando avisam que o preço da gasolina ou do álcool vai subir, correm todos para encher o tanque, embora nem dê tanta diferença assim. E isso vale para tudo, como nas ameaças de furacão. Mesmo assim, causou espanto a notícia de que houve um grande aumento nas vendas de armas de fogo depois dos trágicos eventos em Las Vegas. Querem estocar antes que proibibam as vendas, a) para vendê-las depois com o preço triplicado; b) para usá-las num próximo ataque?

 

 

A mania americana de comprar armas combina bem com a principal atração de outubro – o Halloween, que é festa de horrores e pesadelos. O mês mal começou e os apressadinhos já nos divertem decorando as portas com caveiras e esqueletos, bruxas, fantasmas e tumbas com o tradicional R.I.P., que quer dizer descanse em paz. A televisão nos bombardeia com filmes apropriados para a data, ou seja, de terror.

 

 

Mas ao invés de assustar, o Halloween faz a alegria das crianças e dos fabricantes de balas, mesmo nesses tempos de excesso de peso, guerra ao açúcar e refrigerantes diet, que como dizem os entendidos, só os gordos tomam. Minha filha reclama da quantidade de balas que vai ter que comprar antes que os estoques se esgotem, e pergunto por que não dar algo mais saudável e diminuir a epidemia de obesidade que aflige a nação, Que tal lançar a moda do Halloween-diet?

 

 

Ela me olha como se eu tivesse acabado de desembarcar de um foguete espacial, Porque fica muito mais caro. Então é isso, balas em profusão porque com tantas crianças – e adultos – batendo na porta, as balas deixaram de ser uma tradição e se tornaram a opção mais barata. Agora imagina se o governo, preocupado com a saúde da população, proibisse a distribuição de balas no Halloween. Compraríamos nossos estoques com meses de antecedência ou cairíamos nas mãos dos contrabandistas de balas, que as venderiam a preços exorbitantes?

 

 

A recente correria para a compra de armas e munições é por temerem a proibição, que tal como aconteceu com a lei seca no passado, desencadearia a ação dos contrabandistas. Como a chamariam, lei da bala? Tudo porque, quando chacinas como essa acontecem – e com que frequência estão acontecendo – a pressão dos grupos pró-desarmamento ganha força. Mas dificilmente conseguiriam vencer com Mr. Trump no governo. Pró-violência.

 

 

Falando em balas não podemos esquecer da nossa especialidade, as balas perdidas, que como diziam no tempo em que um fio de barba valia como documento, quando vejo a barba do vizinho arder ponho a minha de molho. Justamente agora, quando as barbas voltaram à moda. Quem diria. Resta torcer para que retorne também a seriedade daqueles idos, quando a palavra empenhada era lei – Não fechou a transação ainda? Cancela e pago o dobro. Não posso, já empenhei minha palavra e sacramentei com um fio da barba.

 

 

Nem terminei a coluna lembrando à humanidade que o Halloween está no ar, abro a porta e vejo que a vizinha em frente já esparramou as luzinhas de natal no jardim. Aposto que é a primeira do país. E olha que nem retiramos ainda os protetores de furacão, e para sondar o que vai pela vizinhança tenho que abrir a porta: as janelas estão lacradas. O que é estranho – lá fora brilha o sol mas em casa reina a penunbra da noite.

 

 

E tudo parece combinar bem – Halloween e furacões ainda no ar, balas e balas em noites de terror. No entanto, a origem do Halloween era exatamente espalhar figuras de monstros e caveiras para afastar as bruxas. O que era amedrontador virou festa, e as festas estão virando pesadelos. Ao invés de evoluírmos estamos involuindo, e as bruxas, por mais que a gente reze, continuam soltas.