Lua azul e som de guitarras

As coisas do amor que ninguém sabe explicar. Sentimentos que podem alterar vidas – e quase sempre alteram – são no entanto influenciados por pequenos nadas, as coisas corriqueiras do dia a dia. O som de uma guitarra, por exemplo. Elvis foi mesmo o maior cantor de todos os tempos? Teve um irmão gêmeo idêntico que morreu ao nascer. Se tivesse vivido, o que seria do mundo com dois Elvis? Elvis odiava os Beatles e amava as armas – Tinha um arsenal. Até revólver de ouro.

 

Março tem Páscoa, e nas escolas americanas tem o Spring Break – uma semana sem aulas em todos os estabelecimentos de ensino do país comemorando a primavera. Tempo de ipês dourando o mundo com sua  beleza breve. Felizmente cada escola determina sua semana, assim o feriado fica bem dividido. Juntando a Semana Santa com o Spring Break, a quantidade de turistas em Orlando vira calamidade pública.


Arrumamos as malas para um final de semana, Disney, Universal, as atrações de sempre e  mais as novas. Alguns amigos que lá estavam voltaram correndo – gente demais, provocando uma divisão desigual de tempo: 80% nas filas, 20%  nos brinquedos. Não vale a pena, embora Orlando hoje tenha tantas atrações que até os hotéis viraram atrações. Valem a viagem. Mesmo assim, desfazemos as malas. Talvez no meio da semana.  Difícil foi consolar a criançada.

 

Março encerra seu ciclo com brilho extra, nos encantando com a famosa lua azul – duas luas cheias no mês. Ocorrerá no dia 31, homenageando a Páscoa da Ressurreição. Apesar do nome, essa lua não é azul, mas existe ainda uma rara cor azul em algumas luas, motivadas por efeitos especiais em Hollywood. No entanto, sabemos: qualquer uma das cinco luas tem fluidos românticos que influenciam os mares e os relacionamentos afetivos  na terra.

 

 

A lua cheia, porém, abusa do charme, e seu brilho indiscreto tem o mesmo efeito de uma flechada de Cupido. Que dizer então de uma lua especial, por acaso azul? O amor dança no ar como o pólen das flores, contaminando os incautos, os descuidados, os distraídos, os solitáriose afins. Juntando as influências holísticas, com a primavera bordando flores por toda parte e uma lua cheia, inda mais azul, não tem emoção nem dor de dente que resista. Haja coração!

São coisas do amor que ninguém sabe explicar, que o amor não foi feito para dar explicações. Bom mesmo é sentir. Um sentimento abstrato e indefinido, às vezes eterno, às vezes volúvel, com o poder de alterar vidas, provocar guerras, derrubar impérios e mudar a história da humanidade.  No entanto, influenciado por pequenos nadas – como o som de uma guitarra ou uma lua rindo de nós lá em cima.

Até o rio é verde

downloadSe a festa não é nossa, devemos traduzir? Os imigrantes riem, zombam, mas aos poucos vamos adotando os costumes alheios. O Halloween já é bem comemorado no Brasil, embora seja um evento tipicamente americano. Fico sabendo que também tem festa de Saint Patrick na boa terra brasilis, que já é verde de natureza. Nesse fim de semana estou desengavetando algo verde para ir ao brunch na casa da filha (almoço e lanche). Quem diria, pela primeira vez nosso pequeno núcleo familiar comemora a data, graças à adesão de festivos descendentes irlandeses.

 

Resta saber se vem para ficar, como aconteceu no Thanksgiving, que acabou se instalando definitivamente e sem cerimônia no nosso calendário. Na vida do imigrante os hábitos aos poucos vão mudando, como a panqueca e o cereal no café da manhã, embora no almoço não se dispense o feijão com arroz.  Creme cheese em vez de requeijão cremoso, purê de batata com a casca. Os mais velhos fazem festa quando tem polenta, os mais novos torcem o nariz.

 

A data que homenageia o santo padroeiro da Irlanda é comemorada em todos os países de língua inglesa. Os temas dessa data são o trevo, por ser também símbolo da Santíssima Trindade, e um duende gorducho vestido de verde, escondendo seu pote de ouro. Quem não esconderia? O trevo de quatro folhas  indica sorte, mas na verdade qualquer coisa verde está valendo. Uma bonita tradição é  as águas do Rio Chicago, que corta a cidade do mesmo nome, mudar de cor: tingem de verde. Outra tradição é a parada, sendo que a de Nova York, desfilando em frente da catedral de Saint Patrick, é considerada a maior do mundo.

 

Como tem acontecido frequentemente nos anais da história, um feriado religioso acaba virando mundano. O Natal virou festival de compras, a Páscoa ganhou coelhos e ovos de chocolate. Olha o que deu no carnaval. No dia de Saint Patrick, haja cerveja. Mesmo se Miami não tem uma forte colônia de descendentes irlandeses, os pubs da cidade estarão lotados neste final de semana. Afinal, o santo era irlandês e cerveja não vai faltar.

 

O que tem cerveja a ver com um santo a história explica: propaganda intensiva para incrementar o turismo. Transformar as águas de um grande rio, que nem fez Moisés no Mar Vermelho, partiu da necessidade de combater a poluição –  o produto químico usado tornou o rio verde por uma semana. Aí alguém teve a brilhante ideia de unir o útil ao lucrativo: usar o antipoluente no dia do santo verde. Felizmente, hoje em dia o produto usado é orgânico, e dura apenas cinco horas. Bom fim de semana e um trevo de quatro folhas pra você. Se achar um pote de ouro, melhor ainda.

A dívida

 

cartoes de credito

Diva tinha uma dívida. Parece lição de escola primária, mas infelizmente para Diva a dívida é real, constando dos anais dos guardiães do dinheiro alheio, insensíveis controladores da moeda corrente, como se diz no mercado paralelo. Nem tão corrente assim, pensa Diva, quando consegue não pensar em como se livrar da nefasta obrigação financeira, lembrando o velho lema dos cartões de crédito: Penso que devo, estou pagando, penso que pago, estou devendo. Disse Camões.

 

Ora direis, quem não pode pagar não deve gastar. Mas Diva teve seus motivos e tem suas filosofias. Os motivos remontam ao casamento da filha única, razão da dívida. Ora, apenas uma filha, e se casando com um rapaz acomodado em emprego bem pago, e de  tradicional  família americana, embora democratas convictos. Diva não ia deixar por menos, a festa teria que acompanhar o nível social e político da futura família da filha.

 

No quesito filosofia de mãe, Diva entendeu que uma dívida a gente rola como pode, mas um vexame não se salda nunca. E a culpa não é de quem assume o compromisso, mas de quem empresta sem perguntar a quem. Ou seja, os donos dos cartões de crédito, que embora denominados crédito, na verdade são criados para não serem pagos, que o lucro está de tocaia nos juros. O devedor ideal paga o mínimo a vida toda.

 

Diva trabalha de 9 às 5, descontando a hora do almoço. De 6 às 10 arranjou uma faxina na empresa no final do corredor, assim não precisa deixar o prédio e pegar condução. Não está dando nem pra pagar o juro do cartão. Portanto, pegou outra faxina na loja de móveis perto de casa, onde também não precisa pegar condução. Mesmo assim não está dando, e Diva arranjou outro bico para os sábados e domingos, fazendo mani-pedi, como chamam aqui manicure e pedicure, e por incrível que pareça, com isso está conseguindo pagar o mínimo.

 

Em troca adquiriu um esgotamento nervoso, porque não sobra tempo para lazer, diversão, distração, tempo útil, descanso remunerado ou não-compensado, ou que nome mais lhe dão. Nem sequer consegue curtir o neto, menos ainda a vida familiar e o convívio social. O prazer de comer em um restaurante? Há séculos não entra nem no Taco Bell, e não compra roupa nova nem no Goodwill (chamar de nova é vício de linguagem).

 

Pois é nesse estado de calamidade financeira que a filha bate na porta, com filho, mamadeiras e bolsa de fraldas a tiracolo, informando que se separou do gringo.  Sem direito a pensão alimentícia porque o ex descobriu que o filho não é dele. E agora, filha? Bota água no feijão que eu tô voltando, avisou o Chico. Diva deixou a dívida rolar ladeira abaixo, largou os empregos, horas extras e bicos, e foi ser babysitter do neto. Cortou o telefone porque não aguentava mais cobrador ligando o dia todo.

 

Essa história baseada em fatos reais pretende ilustrar que não importa o hemisfério (norte), a posição geográfica (extremo sul dos Estados Unidos), a ideologia política (adora o Trump) ou o status migratório (green card, sem dinheiro para a cidadania), dívida todo mundo tem, mas só paga quem pode.  

Rainha de copas

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A rainha se cansou de tudo e partiu sem levar bagagem. A única mensagem – Só quero que me esqueçam, nada tem de novo, outros já a disseram, embora nem todos fossem sinceros. Para onde vai? perguntaram, Do alto da Torre Eiffel quero ver o mar, ela responde. Mas é possível ver o mar do alto da torre? Alguém se espanta. Não sei, tenho medo de altura e nunca fui lá. Mas sou rainha e ponho o mar onde quiser. Do alto da torre vê-se o mundo todo –  real, imaginário ou debruçado nas nuvens, que nem anjinhos. Tudo que se quiser ver a torre alcança. Paris não é o centro do mundo, cogita outro, provocando um olhar de viés. O centro do mundo está  no coração de cada um, ela diz.

 

Coração é assunto complicado, disse Shakespeare, que dele entendia bem. O termo, porém, é dúbio, podendo indicar um órgão feito especificamente para bombear um líquido  viscoso, fazendo-o  circular continuamente pelo corpo: sai limpo volta sujo, passa pela lavanderia automática, sai limpo e volta sujo… Quando parar, paramos. Ou não, que as mágicas da medicina alteraram os circuitos, e já não se morre do coração como antigamente, com transplantes e cateterismos, marca-passo e pílulas milagrosas, dietas e vitaminas, e aspirina 81 gramas, nem mais nem menos.

 

Quanto ao líquido viscoso nem sempre é vermelho, podendo ser branco ou azul, esse o mais nobre, embora imperceptível aos olhos plebeus. Se a Rainha Elizabeth cortar o dedo, o sangue vai sair tão vermelho quanto o meu. A diferença é que, nas paredes dos corredores de sua residência – sua não, da rainha – velhos quadros de reis e rainhas com o mesmo DNA (supunham), e o mesmíssimo sangue azul a espreitam com ar de censura, Foi por essa aí que perdi a cabeça? lamenta um, Matei tanta gente e foi o que sobrou? se arrepende outro. Pois os reis nascem com essa missão assaz difícil de manter o trono que herdaram de parentes que não conheceram para futuros herdeiros que não conhecerão. Se algum falhar e interromper o ciclo, estará amaldiçoado por todo o sempre.

 
Propaganda enganosa. O coração que carregamos e nos carrega, irrigando continuamente todos os caminhos e cantinhos, vias, desvios, ruelas e atalhos é marrom, e não vermelho, feio, sisudo, e não tem nada de charmoso. Com dupla personalidade, há um outro coração,  vermelho flamante, bombeando sentimentos e emoções, afetos e desafetos, prazeres e ilusões, controlando as decisões mais importantes: do que gostamos, a quem  amamos, onde queremos ir e estar, as aptdidões e qualificações que podem determinar uma vida, e com  milhares de desdobramentos a partir daí.

 

Pois foi esse lado sentimental do coração da rainha que a levou a cruzar o Canal da Mancha e chegar à cidade luz. A soberana da Europa, dizem os franceses. Mas não a nado como foi amplamente divulgado pela mídia, e sim pelo Eurotúnel. Fato é que sempre existirá uma rivalidade entre francos e britânicos. E quem foi Europa senão uma bela princesa raptada por Júpiter fantasiado de touro, e dele teve um filho chamado Minos?  Haja coração!

(Imagem Google)