Sopa de Letrinhas

Entre o A e o Z se concentram todos os mistėrios da mente humana, no que chamam de síndrome do arroz: nossa mente comprimida entre esses dois extremos, como uma caixinha de comida chinesa. Esse complexo emaranhado de hieroglifos tem a capacidade de se esticar indefinidamente, criando – pasmem, com apenas 26 figuras, uma ode ao gênio humano ou um festival de burrice. Humana, claro, que o burro não sabe escrever. Na pegadinha, Qual a maior palavra do idioma português? a resposta correta é arroz, porque inicia no A e termina no Z.

Alinhadas como formigas a caminho do formigueiro, elas parecem uma despretensiosa sopa de letrinhas. No entanto, unindo-se e atando-se umas às outras, carregam a mastodôntica responsabilidade de preservar a cultura, a história, o conhecimento, as artes, a ciência e, obviamente, as letras. Têm ainda o dom de se embaralhar e trocar de posição e estilo, como ginastas em corrida de revezamentos, adaptando-se a todas à maioria das línguas escritas ou traduzidas no planeta.

Nós, mortais ditos letrados, temos uma relação de amor e dio com as letras, que hora posam de amigas fiéis e companheiras imprescindÌveis, hora são algozes que nos torturam. Pois as mesmas letras, trocando de posição trocam também de sentido, e tanto podem enunciar um prêmio da loteria como a cobrança de uma dívida; o auspicioso nascimento da primeira filha ou a morte de um ente querido.

Um ‘Seja benvindo ‘ ou um ‘Some da minha vista’. Graças a elas nos tornamos civilizados, ilustrados, eruditos. Mas quanto mais evoluÌmos, mais tentamos nos libertar desse jugo. Uma emocionada mensagem amorosa, por exemplo, em tempos remotos era transmitida em uma carta cheia de floreios e subentendidos. E havia as mensagens cifradas, sem letras mas cheias de encanto, com o abano de um leque ou na cor da flor oferecida.

Aí criaram o cartão postal e a mensagem escrita foi encolheu, não apenasa redução do espaço disponivel mas também na essência, pois um cartão não viaja sob a proteção de um envelope. Nesses tempos de alta tecnologia, reduzimos ainda mais o uso das letras na interação social. Uma foto vale mais que mil palavras, disse o fotógrafo. A velha carta hoje se comprime em 14 palavras; ou em uma cifrada mensagem de texto, reduzida em tempos de pressa. Entendemos, comprovando o milagre que, tal como a transformação da água em vinho, transforma 26 letrinhas no incalculável manancial do saber humano.

Com elas escrevo essa coluna, e se o conteúdo difere de tantas outras escritas por tantos outros colunistas, cada uma e cada um tem seu estilo e seus motivos, que serão expressos por essas mesmas figurinhas mágicas, que se tornaram a base de toda interação necessária para nossa sobrevivência na terra e no espaço. Esse poder de transmutação e adaptação afeta os nomes aos quais estamos atados e se tornaram nosso crachá social – Ana ou Zé, Bernardo ou Yara. Para facilitar ou complicar, criaram a famigerada ordem alfabética, causando transtornos emocionais e injustiças culturais. Na fase escolar, nomes começados com as primeiras letras são desastrosos para quem não estudou a lição ou não fez o dever de casa. Pior ainda, são os primeiros nas provas e apresentações orais.

Na vida real a situação se inverte, e nomes começados com as últimas letras deixam seus usuários em desvantagem qualitativa, pois nem sempre é pos[‘0,osível informar, como nos filmes, que os nomes estão em ordem alfabética. Quem se identifica com a inicial W fica por último. Parece que o alfabeto estancou nessa letra – ninguėm mais se chama Xidila ou Zukira. Os nomes das novas gerações no Facebook são estrangeirismos, começam com as primeiras letras. Quando assino Wanda estou informando não apenas meu nome, mas minha idade provável.

A árvore da via

A árvore da via

Retorno aos States depois de merecidas e revitalizantes férias no Brasil, mais precisamente, Vitória, cheia de glória, por falta de rima melhor, com muita chuva e as constantes preocupações com balas perdidas e febre amarela. Tudo correu sem transtornos, ou quase, que se escapamos dessas, somos atacados pela cachumba, ou assim pensamos. Foi alarme falso, felizmente, mas corremos o risco de disseminar a doença no país. Imagina se o Trump descobre.

Outra doença que já deveria estar erradicada, tal como dengue e febre amarela, uma vez que tem vacina. Só falta mesmo criarem vacinas contra balas perdidas. Mas de balas também não nos livramos, pois as malas voltam cheias delas, para alegria dos netos. Uma festa para os olhos, apenas – a gente traz, deixa saborear umas poucas, e logo desaparecem na calada da noite. Alta traição, eu sei, mas criança esquece depressa.

Miramar, de beleza sem par, voltei! No retorno também nos aguardam surpresas desagradáveis. Nem no primeiro mundo nos livramos delas. Pois ao retornar ao local onde labuto diariamente por um punhado de dólares, deparo com um vazio inexplicável, ou melhor intolerável. Pior, abominável – a bela e frondosa árvore que hoje ilustra essas fúnebres lucubrações filosóficas, desapareceu do cenário da minha varanda
.

E da minha vida. Bela e frondosa, a preciosidade foi sumariamente abatida na calada da noite, para evitar protestos e atos agressivos. Ficava ao lado do prédio de dois andares onde uma pequena varanda dá acesso à escada dos fundos. Ali tem um banco de madeira para quem quiser desfrutar dos 15 minutos de descanso que a lei permite no horário de trabalho. Como poucos usam essa entrada, o lugar é sossegado, e ali eu me sentava para apreciar a imensa matrona impoluta. Tinha o efeito repousante de uma meditação.

Na farta galharia apontando o céu aos apressados bípedes que sob ela transitavam morou uma pequena raposa, até que o serviço de desproteção aos animais a removeu, também sem explicações plausíveis, pois não havia atritos entre ela e os humanos. Pelo contrário, paravam todos para tirar fotos e até traziam os filhos para vê-la. Em todo caso, acho que a carnivora animalia estava acabando com a população de esquilos do campus, mas isso é parte da lei da natureza, na qual não devemos nos intrometer.

As raposas das áreas urbanas são chamadas de residentes urbanos carnívoros, e vivem mais que as raposas do mato. São muito comuns na Europa, onde demonstram hábitos modificados, com bandos maiores sobrevivendo em áreas menores. Nossa raposa vivia sozinha, e era meio exibida, acho mesmo que posava para nossas fotos. Foi-se, que a natureza humana tem estranhas vilanias, como derrubar minha velha amiga. Mas não morreu em vão – foi sacrificada para nos dar mais vagas no estacionamento. Viva o homem, gente.

Isso não foi postado no Facebook

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Uma Harley Davidson rodando pelo interior de Alegre, lá pelos idos da década de 50, já devia ser centenária, mas cumpria sua nobre missão de transportar o feliz proprietário, embora a marca não tivesse a fama que tem hoje… pelo menos naquelas ermas paragens. O uso da moto para transporte não foi uma preferência, era apenas falta de recursos para comprar um carro, mesmo velho. E chegou à aprazível cidade de Alegre vinda sabe-se lá de onde.

Criada em 1906, em Wisconsin, a Harley Davidson está em terceiro lugar na preferência dos motoqueiros, mas tem um charme que as outras não têm, como frequentes reuniões dos adeptos pelo mundo todo, sempre em couro preto e mais das vezes aos pares, e tem até museu. Em 1998 ela chega oficialmente ao Brasil, em Manaus. A primeira fábrica fora dos Estados Unidos, criada para atender o mercado do hemisfério sul.

Mas a moto que marcou minha vida chegou muito antes, e como já revelado acima, era bem velha, com os parafusos se soltando nas estradas cheias de costeletas, como pipoca pulando com o calor do fogo. Além de consumir pouco combustível, a poderosa enfrentava sem problemas qualquer estrada ou a falta de estradas, sendo muito apropriada para a incipiente carreira de caixeiro-viajante do proprietário, que superava qualquer obstáculo para vender seus produtos.

Hoje a profissão é chamada Representante Comercial, e seus adeptos não mais desbravam o interior do estado correndo atrás de possíveis fregueses. As viagens são na Internete. Na peça ‘A morte do caixeiro-viajante’, Tennessee Williams valorizou o ofício; antes tais abnegados eram chamados de mascates num sentido pejorativo, embora fossem uma evolução dessa forma de comerciar. Em mundos opostos, o caixeiro-viajante da peça sucumbe à depressão americana e percebe que vale mais morto do que vivo para a família.

O caixeiro-viajante em terras capixabas tinha dois objetivos: vender seus grampos de cabelo, Brilhantina Royal Briar, Leite de Rosas, Linha Clark, Lâminas de Barbear Gillete, mas também impressionar a namorada alegrense, então professora primária nos confins do município. Mas a moto não andava muito bem das rodas e na cidade havia um exímio mecânico, capaz de consertar qualquer tipo de veículo, de caminhão a carroça.

Sem problema, disse o mecânico, Deixa a moto aí e vem buscar amanhã. Dia seguinte lá vai o viajante, e encontra sua moto na calçada, como se atingida pela ameaça bíblica de Jerusalém – não ficará pedra sobre pedra. Ou seja, totalmente desmontada – peça por peça, parafuso por parafuso, tudo alinhadinho em perfeita ordem de espécie, tipo e tamanho. O moço põe a mão na cabeça, desesperado, Tem certeza que vai conseguir juntar tudo isso outra vez? Claro, volte amanhã.

O ‘Volte amanhã’ se esticou por semanas, depois meses, com as peças arrumadinhas na calçada sob o sol e sob a chuva, vento brando e ventania. O moço explicava que precisava da moto para garantir suas comissões mensais; já havia vendido para todos os comerciantes da cidade e precisava ir em frente. E o mecânico impassível, Pode confiar, volte amanhã. O moço teve que continuar sua romaria profissional da forma mais humilhante, chegando nas cidades e lugarejos de ônibus.

Mas voltava sempre para ver se sua moto, e constatava que as peças na calçada iam sumindo aos poucos – hoje um parafuso ou dois, amanhã um guidão, um pedal de freio… até restar apenas algumas manchas de óleo na calçada. A única a se beneficiar com o triste fim da primeira Harley Davidson a rodar nas ruas de Alegre foi a professorinha – com tantas idas e vindas do infeliz caixeiro-viajante para tentar recuperar sua moto, acabou fisgado para sempre – estamos juntos até hoje.

O tempo entre as vírgulas

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Revendo as duas mil colunas que já publiquei nesse valente século diário, concluo que nesse auspicioso dia 25, final de julho, estou autorizada a abrir uma garrafa de champanhe e comemorar o dia do escritor. Na fila dos anônimos, mas persistente. Comigo, virtualmente, comemoram milhões de outros operários da palavra, que como eu se orgulham de espremer os miolos e tirar leite de pedra para produzir alguma coisa que vá além dos relatórios mensais nas empresas em que nos disfarçamos de operário-padrão.

Nos intervalos, ou enquanto o chefe confere emails, brota um poeminha singelo para comemorar o primeiro beijo, para chorar o primeiro fora, ou a sementinha de uma obra que vai mudar os rumos da literatura ou do mundo. Que sem sonhar nenhum escritor consegue ir além do primeiro parágrafo, com a vírgula plantada no lugar errado. As variações entre os profissionais da palavra são tão vastas quanto o número de livros já impressos.

Enquanto rabisco essa página, a televisão me informa que Harry Potter é o campeão dos fabricantes de sonhos – o livro mais vendido de todos os tempos, e com mais dois rebentos em breve nas bancas. Os fãs se ufanam. A maior mágica do pequeno mágico foi fazer o mundo voltar a ler. Correndo na raia oposta, um novo aplicativo inventado em 2013 está criando o milagre oposto: fazer as pessoas lerem menos, e não estou falando do Twitter.

Após intensas pesquisas, uma editora de livros digitais descobriu que o cidadão comum tem apenas 15 minutos por dia para ler. Portanto, criou um aplicativo para baixar leituras compactadas – resumos e comentários de 2.000 livros, por enquanto apenas não-ficção, para serem lidos em 15 minutos. E já alcançaram 2 milhões de leitores por dia. As chamadas do brinquedinho dizem, “Você já leu quatro livros em um só dia?” Ótimo para nossos vestibulares e concursos públicos, e que eu chamaria de literatura anã.

Se a moda pega e a editora invadir as demais áreas da criatividade literária, por que vamos perder anos suando e perdendo o sono escrevendo um romance épico de 590 páginas sobre a guerra dos banquinhos, se posso resumir minha obra antes mesmo de criá-la? Andy Warhol disse que no futuro, cada um terá seus 15 minutos de fama. Agora que o futuro chegou, nada mais lógico que investir nos 15 minutos de leitura.

Quando perguntados sobre a fonte de sua inspiração, os escritores enumeram tantos modos de criar uma obra de ficção quanto há palavras impressas no mundo. Bram Stoker, criador do Drácula, o personagem mais explorado no cinema e na literatura, comeu uma carne estragada no jantar e teve pesadelos horríveis com seu futuro personagem. Muitas obras famosas nasceram de uma frase ouvida ao acaso, ou como aconteceu com Saramago, da manchete de jornal que ele leu errrado. E como hoje em dia tudo é massificado, as editoras mudam tanto o livro que o autor, ao final, nem o reconhecem.

Grandes obras famosas foram baseadas ou inspiradas em frases e obras alheias, tipo Hollywood, que atualmente investe mais nos remakes do que já deu certo. Mais um livro do Drácula? J. K. Rowling havia decidido parar com as aventuras do Potter, mas lá vem mais um… e dois. E por que não? Se continua faturando horrores, parar por quê? Muitos críticos insistem que a maioria das grandes obras nasceram de grandes tragédias pessoais, mas há grandes livros cujos autores são almas pacatas, que nada viveram de interessante ou trágico na vida.

Para comemorar a data, algumas frases que eles disseram entre as vírgulas de suas grandes criações: “Quando eu digo trabalho, estou me referindo a escrever. Tudo mais é mera ocupação” —Margaret Laurence; “A diferença entre uma palavra quase-certa da palavra certa é como a diferença entre o vagalume e um raio”—Mark Twain; Não é da conta de ninguém se você precisou aprender a escrever; deixe que pensem que você já nasceu escritor” —Ernest Hemingway. E Augusto dos Anjos disse tudo, ‘Eu’.

(Imagem: leitura.com)

O presente

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Após recebermos o primeiro e mais valioso presente – o dom da vida, muitos outros se sucedem, alguns poderosos como um bom genes, alguns corriqueiros, como um bom-dia de um estranho no elevador; alguns preciosos, como o sorriso de um filho, alguns singelos, como uma sabiá cantando na janela do vizinho. E os que mudam o rumo da vida, como deparar numa esquina com a outra-metade que nem estava procurando. Um presente pode vir com papel colorido e laço de fita, ou disfarçado num embrulho despretencioso.

Um dos melhores presentes que recebi na vida chegou assim, numa sacola amassada do Kmart, na época a maior cadeia de lojas da América, depois massacrada pelo Walmart. Para entender o valor desse presente, retrocedo no tempo como num flash back de filme. Ano da graça de 1975, minha primeira viagem internacional com grandes espantos, como o tamanho do Boeing, e grandes problemas, como não falar inglês, com três filhos doentes em terra estranha, recusando-se a comer tudo que a culinária americana oferecia.

Descobrir o McDonalds foi também um presente, e se hoje filhos e netos desprezam o rei dos fast-foods, informo que sem ele teriam todos ido parar num hospital, desidratados. Na época, foi uma festa e um luxo. Indo passar dois anos em Columbia, na Carolina do Sul, na sacola dos remédios imediatos levei pílulas anticoncepcionais na quantidade que os prazos de validade permitiam, mas que não cobriam o tempo da estada. Portanto, quando o estoque estava para acabar, marquei consulta médica para obter uma receita. Por algum motivo a consulta foi adiada.

A própria viagem foi um presente da sorte – Michel terminou o curso de direito na Ufes e conquistou uma bolsa para fazer mestrado numa faculdade internacional com estudantes de todas as raças, cores e credos – o que na época foi também um grande espanto. Morávamos nos apartamentos da faculdade, e a vizinha mais próxima era uma bela francesa liberada, mãe solteira, e a única pessoa do sexo feminino com quem se relacionava era eu – todas as outras a evitavam, temendo a estabilidade de seus lares.

Um dia ela me aparece com o primeiro presente: uma velha máquina de costura para reajustar as roupas dos filhos se esticando a olho nu. E me avisou, É sua, mas com uma condição, não empreste a nenhuma delas. ‘Elas’ eram as amigas brasileiras, que a odiavam. Algum tempo depois, não sei como, descobriu que fiz um remendo na roupa de uma delas, e mesmo com minhas desculpas de que não emprestei o instrumento, usei-o eu num breve cerzido, a preciosa máquina foi retirada para sempre.

No entanto, antes de voltar para a França, ela me deu um dos melhores presentes que recebi na vida – uma sacola de supermercado com alguns vidros de pílulas anticoncepcionais. Com um sorriso irônico, ela diz, Como vê, suas amigas não precisavam ter se preocupado tanto. O presente foi uma boa economia – cancelei a consulta médica e não precisei comprar o remédio, caro e em dólares. Verifiquei as datas de validade dos vidros, mas não todos. Foram doados por uma pessoa esclarecida, e se dois ou três estavam com bastante prazo, todos os demais estariam.

Graças a esse descuido, voltei ao Brasil com Jennifer nos braços, com um mês de idade, passaporte tirado às pressas e sem visto de entrada no Brasil. Quase se chamou Carolina, numa homenagem ao estado em que nasceu. As autoridades americanas tentaram barrar minha retirada, alegando que não permitiriam a entrada da menina no país sem o visto e eles não me aceitariam de volta, pois meu passaporte já estava vencido. Teimei, arrisquei e venci – deu trabalho, horas retida nos portões do paraíso, e por fim autorizaram uma entrada temporária, devendo regularizar a situação da criança imediatamente.

Levou anos para a situação de Jennifer ser legalizada no Brasil, mesmo tendo frequentado escolas e voltado várias vezes aos Estados Unidos, simplesmente porque ninguém sabia como proceder. Somente 20 anos depois, querendo atravessar a fronteira Foz do Iguaçu e Paraguai, encontramos um competente agente da alfândega local que soube resolver o problema. E serei sempre grata pelo presente enviado por Deus numa sacola do Kmart – um vidro com a validade vencida entre os dez que ela me deu.

Era meia-noite e chovia…

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Era meia-noite e chovia

Bate o relógio as 12 horas, mas não há sol nem céu azul. A claridade que me ofusca vem de lâmpadas VR-Ióden equilibradas no topo de altos postes de alumínio, eretos feito soldados prestando continência ao chefão do quartel. Dia da revista. Mas não há soldados nem policiais me acompanhando nessa jornada noite a dentro, e as 12 horas batendo no relógio indicam a meia-noite, que por algum erro de adaptação coletiva não consideramos o meio da noite.

Se estivesse em Londres, o perigo se esconderia sob o denso nevoeiro que cobre a cidade mal iluminada – tal como acontece nos romances policiais, onde figuras encolhidas, imprecisas, com nomes impronunciáveis pela escassez de vogais varam a noite na esperança de se tornarem personagens de um filme noir. Mas o noir, do francês noite, se aplica melhor a filmes americanos com tramas nunca bem explicadas. Só sabemos que tudo deu certo porque o filme acabou.

Mas não estou na Inglaterra nem falo francês, e apenas o tamborilar da chuva acompanha meus passos apressados, e o perigo se esconde nos becos de portas fechadas se sucedendo sob marquizes arruinadas, cada uma abrigando uma sombra – que pode ser um mendigo tremendo de frio ou um assassino à espreita. Mas não faz frio, apenas a chuva dá o toque de mistério na noite sombria. Carros não passam, vozes não soam, e o medo é mais tangível do que meus passos ressoando nas calçadas quebradas. Ou meu coração acelerado. Ou estou imaginando coisas.

Mas de repente uma figura escura emerge das sombras, os braços agitados no ar como a manusear cimitarras, emitindo sons guturais. A tremedeira não me deixa distinguir se é um fantasma ou um assassino, e o terror me assalta. O vulto corre em minha direção e preciso reunir todas as minhas forças para fugir, embora ninguém entenda como se pode reunir todas as forças ou definir que forças ocultas são essas. Fujo desesperada para algum lugar onde os postes clareiem a noite e a chuva incessante não me congele a alma.

Onde o perigo antes pressentido e agora se materializando ao meu redor seja apenas uma projeção insana da minha mente idem. Mas a voz gutural me acompanha, me persegue, e fujo em desespero. De repente o chão desaparece de sob meus pés – é um terremoto ou virei passarinho. Antes de ser devorada pelo negro abismo ouço um grito avassalador saindo da minha própria boca. Não lembrei de pedir a Deus perdão pelos meus crimes, mas pude ver perfeitamente meu nome na sessão policial dos jornais da manhã. Morte deprimente.

Ana Ruga já passou dos oitenta, mas ainda é temida pelos outros mendigos e respeitada pela polícia que ronda o centro – ninguém mexe com ela. Mas de vez em quando faz o bem sem ver a quem – as obras do viaduto ali do lado estão paralizadas, as verbas desviadas sabe-se bem por quem, as placas de trânsito-interrompido roubadas pra fazer barracos, e vez ou outra um bêbado despenca no vazio. Ela bem que tentou avisar, mas o defunto da vez não lhe deu ouvidos.

Manual de classificação

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Lando trabalha como classificador de café. Parece simples, afinal não são muitos tipos, mas não é fácil passar o dia todo bebericando café, ou mesmo classificar grãos que a natureza criou tão diversos. O consolo é a vista que se descortina da janela do 30º andar do escritório. Como classificá-la? Exuberante? Magnífica? Perfeita? Mais complicado, porém, é classificar relacionamentos.

Fulano é meu vizinho e nos falamos de vez em quando; Beltrano é meu conhecido, mas não diria que é meu amigo; Ciclano foi amigo na faculdade; hoje apenas nos cumprimentamos; Aqueloutro trabalha na sala ao lado e sempre trocamos notícias sobre café e futebol, mas não passa disso. Assim como tais expressões de há muito caíram em desuso, as amizades vão também se desgastando, perdendo as características, se enfraquecendo na pressa das atribuições diárias.

Com 30 andares, o edifício é quase uma cidade vertical. É, pois, inevitável encontrar vez por outra no mesmo elevador as mesmas pessoas. Por uma estranha coincidência de horários, visto que ninguém ali é muito pontual, Lando encontra a lourinha do 22º andar todos os dias subindo e descendo, na chegada e na saída. Em dois anos que ali trabalha, sempre deparando com ela no ascensor de números pares, não decidiu ainda como classificá-la… Exuberante? Magnífica? Perfeita?

Outra expressão que não resistiu ao dicionário digital, ascensor caiu em desuso porque o veículo não apenas ascende, mas também descende. Mudou para elevador, mas outra vez erraram na classificação, visto que ele não apenas eleva, mas também baixa, ou traz de
volta. Ainda bem. O ascensorista continua sendo ascensorista, deveriam ter mudado para elevadorista. Mas o salário continua no andar mínimo.

Nesse encontro de todos os dias, na subida e na descida, manda a boa educação que Nando e a lourinha se cumprimentem, “Oi, como vai?”/ “Que chuva, hem?” / “O trânsito hoje estava um horror!” Dois anos seguindo essa rotina, enclausurados numa caixa
2X2 sem janelas, como classificar esse relacionamento? Amigos? Conhecidos? Nem um nem outro, muito pelo contrário.

Um dia por acaso eles se encontram num restaurante, Nando com a namorada, ela com uma amiga. Oi, como vai? falam ao mesmo tempo. E riem. Quem é? pergunta a amiga, Ah, um conhecido do elevador… A amiga estranha, Como assim? Vocês moram no mesmo elevador? Como explicar? Não somos amigos nem trabalhamos juntos, mas nos cumprimentamos e trocamos educadas expressões corriqueiras. Nem sei o nome dele. Por que não pergunta?

E nada mudaria nessa rotina, se por acaso não se encontrassem uma segunda vez, em outro restaurante. Quem é? pergunta a mesma namorada. Uma amiga de condução, ele diz. Que condução? Você não anda de ônibus. Pouca gente sabe, mas o elevador é o veículo mais usado no mundo. Ah, é? Mas nunca ouvi falar em amizade de elevador. Embora especialista em classificação, Lando não sabe classificar esse relacionamento de dois anos.

Mas repara que ela agora está com outra amiga… Solteira? Sozinha? Nota que o cabelo é castanho dourado, a luz do elevador faz parecer mais claro. Que os olhos dela são cor de avelã… E se dá conta de que o melhor momento de seu dia é encontrar com ela no elevador. E que apesar da namorada, vive solitário e infeliz. No dia seguinte, depois do Oi, como vai? de sempre, Lando decide fazer a classificação correta. Não é estranho? Nos conhecemos há tanto tempo e não sei seu nome. Ela sorri, Já ia perguntar o seu.

Meu dia, seu dia

writer

Dia dos colunistas

Fechando com chave de ouro o mês de junho e a metade de mais um ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, dia 26 comemoramos o dia do colunista de jornal. Portanto, eu, portanto nós, todos esse incansáveis fabricantes de palavras e semeadores de ideias, que com ambas o mundo segue em frente. O que seria de tantas culturas diversas e distintas se palavras e obras não fossem amplamente divulgadas e cultivadas?

 
Quantas injustiças se consumaram quando palavras e ideias foram ( e em muitos lugares ainda são) de alguma forma controladas ou censuradas. Pássaros que exigem espaço amplo e asas soltas para livremente se expressarem, uns com mais sucesso ou mais sorte que os outros, uns muito aplaudidos outros ignorados, uns bem pagos outros nem tanto, se tanto. Tem mais wandas que Paulos e Antures, mas se fôssemos todos a uma convenção de divulgadores de pensamentos, teríamos no crachá a mesma ocupação: colunista de jornal.
 

Hmm, pensando assim, me sinto quase uma Lya Luft, com o direito de sentar no mesmo recinto e usar da palavra. Engraçada essa expresão, usar da palavra. Pois não a usamos todos nós, diariamente, para tudo e com todos? A não ser os mudos e eremitas, todos usam a palavra para expressar pensamentos palavras e obras, tanto na forma oral como escrita e até mesmo com expressões corporais.

 
Hoje saio mais cedo do trabalho e rabisco uma breve nota para o carteiro: Favor deixar a correspondência na sala ao lado. Mesmo se não nos vemos, houve aí uma comunicação e transmissão de ideias. Pego o telefone para avisar que me ausento mais cedo, e no número digitado me vem a mensagem: Favor deixar seu recado. O que faço a seguir, portanto, houve também uma comunicção virtual, embora as duas pessoas envolvidas não se encontrassem.

 
Saio de fininho mas a colega que se mete em tudo me olha enviezado, como a dizer, Saindo cedo outra vez? Envio-lhe de volta um olhar bumerangue, que significa, Não é da sua conta. Portanto, embora não tenha havido uma comunicação verbal entre nós, ambas transmitimos opiniões e ideias com uma simples piscadela. Ou duas. As mensagens foram transmitidas e entendidas, pois como diz o vulgo, um olhar vale mais que mil palavras.

 
Usar da palavra, portanto, é um dom de todos, embora uns tenham mais dons que os outros. Se usar da palavra para transmitir um simples bom-dia não faça ninguém ter tremedeira e suar frio, usar da mesma palavra numa assembleia que comemora o dia do colunista, mesmo para uns poucos gatos-pingados no auditório, para muitos essa tarefa é mais difícil que completar as doze tarefas do Hércules, depois ampliadas para 14. Sem aviso prévio, alteração de contrato ou reajuste salarial.

 
Os estatísticos garantem que tem mais gente com medo de usar da palavra do que de morrer. Fácil de entender, porque ninguém gagueja e dá vexame na hora de morrer. Até os infelizes mandados para o cadafalso, mor das vezes inocentes, eram drogados antes, para não dar vexame ou criar problemas para o carrasco. E tinha um monte de gente que ia assistir, mas pudera, nesse tempo não existia, televisão, cinema, circo, teatro, facebook, joguinho no celular… ver alguém perder a cabeça era a coisa mais interessante que acontecia.

 
Nada disto, porém, diminui ou deprecia o valor do colunista de jornal, esse semeador de ilusões e realidades em doses homeopáticas, uma pitada de sal e uma pitada de açúcar, para o bem de uns e desgosto de outros. Ou nem tanto, pois o que realmente importa é a liberdade de expressarem o que acham importante e necessário, triste ou engraçado, benéfico ou prejudicial. Que nos julgue o leitor.

O caso da pequena felicidade

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O caso da pequena felicidade

Quando iniciei no emprego atual, há 11 anos, encontrei na lixeira um vaso com uma planta meio murcha, descartado pela antecessora ao desocupar o recinto e voltar para a Venezuela. No depósito de descartáveis encontrei uma simpática mesinha de canto, e tive a feliz ideia de unir as duas desprezadas – a mesa e o vaso foram enfeitar o corredor. Não tenho o chamado dedo-verde e minhas plantas sofrem de morte súbita, mas essa planta aceitou meus desvelos e continua verde e viva.

Fim da primavera no hemisfério rico, verão quase chegando, e de repente minha planta adotada, após 11 anos de estéril convivência, elabora uma flor. Tem planta que floresce o ano todo, tem planta que floresce uma vez no ano, e tem planta que só floresce uma vez na vida. Não estarei outros 11 anos nesse emprego para saber se minha planta vai florescer em 2028 ou se essa foi sua única manifestação de felicidade.

A foto que hoje ilustra minhas tolices filosóficas comprova o fato narrado acima: minha bela flor existe, não é uma quimera. E não brotou de um dia para o outro, desde o final de maio a plantinha veio elaborando esse parto complicado, e agora conto os dias que ela vai durar. Já tem mais de uma semana. Por estranho que possa parecer, embora esteja instalada no corredor onde muita gente transita, os colegas nas outras salas do corredor até agora não perceberam o fenômeno.

Tal como as flores, a felicidade também tem muitos jeitos de se manifestar. Algumas são poderosas e só acontecem uma vez na vida; grandes felicidades podem acontecer uma vez no ano; as pequenas felicidades florescem em qualquer tempo e lugar. Mas são discretas, e para percebê-las temos que estar atentos. Essas pequenas manifestações diárias de contentamento são altamente contagiosas, e podemos espalhá-las ao nosso redor sem diminuir seus efeitos benéficos. Sim, estar feliz traz benefícios para a saúde.

Buda nos ensinou, “Milhares de velas podem ser acesas com uma única vela, sem diminuir seu tempo de vida. A felicidade também não diminui quando compartilhada”. Os grandes momentos felizes em nossas vidas são catalogados e armazenados nos escaninhos do coração, mas se não for resgatada, a pequena felicidade se dilui nas frivolidades do dia-a-dia. Tal como essa primeira vela, que se não for acesa, sua luz e a de outras mil velas se perderão.

O Google me informa que minha planta é uma variedade do lírio-da-paz, chamada Spathiphyllum Sensation, que raramente dá flores. Raramente pode indicar que floresce quando bem entende, ou nunca. Talvez precise de um pouco mais de luz. Essa planta é muito apreciada nos escritórios por sua bela folhagem verde escuro e porque exige poucos cuidados. Ah, entendi… Também é muito usada nas residências porque funciona como purificador do ar, removendo as toxinas do ambiente.

E para acender a primeira vela de hoje trago um provérbio esquimó: “Talvez não existam estrelas, mas pequenos buracos no céu por onde o amor das pessoas que perdemos transpasse e brilhe sobre nós, para sabermos que elas são felizes”. Uma explicação mais feliz que a dos astrônomos, sobre imensos globos-suicidas incandescentes correndo no firmamento para se atirarem em um buraco negro.

Helena e Elena

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Preparando as malas para a próxima temporada de férias, a família se assusta – Mas já? O tempo voa, mas não nos deixa esquecer que em junho, no século passado (1945), aconteceu o Dia D, assim chamada a Invasão da Normandia pelas forças aliadas, pondo fim à Segunda Grande Guerra. No entanto, o fato que encerrou um dos piores conflitos da história ganha pouco destaque na mídia, sempre ocupada com mazelas mais recentes.

 

Essa foi a maior operação de guerra já realizada até hoje , com 185 mil soldados americanos, ingleses e canadenses desembarcando em três praias da França. Mas guerras temos desde que o primeiro homídio cobiçou a mulher do vizinho, ou seja, a do segundo homídio. Ou vice-versa. Em 1184 AC, a cidade de Troia foi saqueada e queimada, de acordo com os cálculos de Eratóstenes, geógrafo e astrônomo grego, o primeiro a calcular com precisão a circunferência da Terra. Portanto, se ele disse…

Mas Troia teria mesmo existido ou é uma das maiores obras da ficção literária, que venceu o tempo e supera os best-sellers modernos? Talvez tenha existido uma cidade chamada Troia, que foi arrasada por uma guerra, uma vez que as guerras eram comuns entre as cidades-estados gregas. Mas a lenda superou a história. Esse foi o único conflito armado causado por uma rivalidade entre mulheres. Mesmo deusas, mas nessa guerra as mulheres tiveram papeis relevantes, como Helena.

Outra Elena, essa bem moderna, também provocou uma guerra, desta vez na área de marketing. Ou mais precisamente dos cosméticos, que vicejam no farto jardim da vaidade feminina. Modo de dizer, que os homens também. Parece distração de dondocas ociosas, mas a indústria dos cuidados da pele fatura por ano algo em torno de 121 bilhões no mundo todo. Só os americanos gastam 11 bilhões. Serão mais bonitos que nós? A Elena de hoje, bela como sua antecessora, foi ‘descoberta’ num shopping center, e não estava fazendo compras. Era faxineira.

Uma câmera distraída captou-lhe o rosto, e mais uma Cinderela faz história. O fotógrafo ocasional era um caça-talentos, gente que ganha a vida procurando gente para manter girando as engrenagrens do consumo desenfreado. Hoje isso se chama marketing, mas já se chamou reclame, anúncio, propaganda, publicidade. Rubem, fotógrafo mau caráter passando por uma crise de falta de sorte, percebe que seus dias de miséria chegaram ao fim. Não é a toda hora que se depara com uma Giselle pronta para a fama.

Convencendo a jovem a nomeá-lo seu agente exclusivo, Rubem vendeu o belo rosto não apenas para uma, mas duas empresas de cosméticos, obviamente rivais. Recebeu sua comissão adiantada e sumiu no mundo, deixando a bela com os nervos à flor da pele. A disputa foi parar nos tribunais, que como se sabe, são como o labirinto de Creta – depois que ali entram não saem mais. Após gastar horrores com propinas e advogados, a empresa mais esperta finalmente derrotou a rival, tirando-a sumariamente do mercado. Ou seja, queimando-a completamente.

Mas já era tarde demais para Elena – a eterna juventude existe, mas só para quem pode comprar bons cosméticos. Para compensar o prejuízo, a empresa vencedora lançou uma nova linha de creme rejuvenescedor, Helena de Troia, que está vendendo horrores. Enquanto isso, guerras piores nos afligem, como a invasão dos mosquitos. Procuro desesperadamente a vacina contra febre amarela nas farmácias, postos de saúde e clínicas médicas que nem Hermógenes – outro filósofo grego? – procurava um homem honesto: de lanterna na mão. As pessoas consultadas se espantam, “Febre amarela, o que é isso?” Pois é, em pleno século da tecnologia, tem muita gente que trabalha nas áreas de saúde e nunca ouviu falar em febre amarela. Se até Monteiro Lobato conhecia.