Rainha de copas

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A rainha se cansou de tudo e partiu sem levar bagagem. A única mensagem – Só quero que me esqueçam, nada tem de novo, outros já a disseram, embora nem todos fossem sinceros. Para onde vai? perguntaram, Do alto da Torre Eiffel quero ver o mar, ela responde. Mas é possível ver o mar do alto da torre? Alguém se espanta. Não sei, tenho medo de altura e nunca fui lá. Mas sou rainha e ponho o mar onde quiser. Do alto da torre vê-se o mundo todo –  real, imaginário ou debruçado nas nuvens, que nem anjinhos. Tudo que se quiser ver a torre alcança. Paris não é o centro do mundo, cogita outro, provocando um olhar de viés. O centro do mundo está  no coração de cada um, ela diz.

 

Coração é assunto complicado, disse Shakespeare, que dele entendia bem. O termo, porém, é dúbio, podendo indicar um órgão feito especificamente para bombear um líquido  viscoso, fazendo-o  circular continuamente pelo corpo: sai limpo volta sujo, passa pela lavanderia automática, sai limpo e volta sujo… Quando parar, paramos. Ou não, que as mágicas da medicina alteraram os circuitos, e já não se morre do coração como antigamente, com transplantes e cateterismos, marca-passo e pílulas milagrosas, dietas e vitaminas, e aspirina 81 gramas, nem mais nem menos.

 

Quanto ao líquido viscoso nem sempre é vermelho, podendo ser branco ou azul, esse o mais nobre, embora imperceptível aos olhos plebeus. Se a Rainha Elizabeth cortar o dedo, o sangue vai sair tão vermelho quanto o meu. A diferença é que, nas paredes dos corredores de sua residência – sua não, da rainha – velhos quadros de reis e rainhas com o mesmo DNA (supunham), e o mesmíssimo sangue azul a espreitam com ar de censura, Foi por essa aí que perdi a cabeça? lamenta um, Matei tanta gente e foi o que sobrou? se arrepende outro. Pois os reis nascem com essa missão assaz difícil de manter o trono que herdaram de parentes que não conheceram para futuros herdeiros que não conhecerão. Se algum falhar e interromper o ciclo, estará amaldiçoado por todo o sempre.

 
Propaganda enganosa. O coração que carregamos e nos carrega, irrigando continuamente todos os caminhos e cantinhos, vias, desvios, ruelas e atalhos é marrom, e não vermelho, feio, sisudo, e não tem nada de charmoso. Com dupla personalidade, há um outro coração,  vermelho flamante, bombeando sentimentos e emoções, afetos e desafetos, prazeres e ilusões, controlando as decisões mais importantes: do que gostamos, a quem  amamos, onde queremos ir e estar, as aptdidões e qualificações que podem determinar uma vida, e com  milhares de desdobramentos a partir daí.

 

Pois foi esse lado sentimental do coração da rainha que a levou a cruzar o Canal da Mancha e chegar à cidade luz. A soberana da Europa, dizem os franceses. Mas não a nado como foi amplamente divulgado pela mídia, e sim pelo Eurotúnel. Fato é que sempre existirá uma rivalidade entre francos e britânicos. E quem foi Europa senão uma bela princesa raptada por Júpiter fantasiado de touro, e dele teve um filho chamado Minos?  Haja coração!

(Imagem Google)

Couve e caipirinha

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Estando a Flórida rodeada de mares e lagos por todos os lados menos um, é da natureza geográfica deste globo conceder-lhe belas praias nesses três lados. Quem disse que só os humanos concedem privilégios? E seria injustiça não dedicar pelo menos uma delas aos brasucas que a elegeram como segunda pátria – Pompano Beach, também conhecida como Little Brazil.  Passando por perto, resolvi matar as saudades almoçando em um dos muitos a-quilo da área. Simples, mas tudo fresquinho e gostoso, com o churrasco incluído no preço: $8,00 a libra. O que daria o preço dos mais sofisticados no Brasil, não?

 

Alegria maior: couve no prato e suco de maracujá no copo. Sobremesa de papa de milho verde. Por mais que tentem incrementar, a couve não consegue chegar à mesa dos  americanos. Amiga almoçando na minha casa: ‘Isso é couve? Comi pensando que era kale.’ Comeu, mas não repetiu na segunda rodada. A-seguir, passagem obrigatória por um dos supermercados brasileiros, que por acaso é de portugueses. Em sendo longe de onde habito, ligo para os filhos perguntando o que querem. Os mais solicitados: bom-bom Garoto, ‘Mas confere a validade’, guaraná litrão, Panettone Bauduco na metade do preço do Publix, requeijão cremoso, suco de maracujá, farinha de mandioca.

 

Informo que tem ainda uma montanha de ovos de páscoa, o que indica que não venderam bem. Ninguém pediu. Captado em um filme no canal da Amazon: ‘Li a Bíblia todinha duas vezes e não achei nenhuma indicação de que coelhos e ovos de chocolate são símbolos da Páscoa’. Embora Pompano Beach seja considerada território brasileiro, toda a região litorânea entre Pompano e Deerfield Beach tem grande concentração de brasucas. Dos 3 milhões de brasileiros vivendo fora do Brasil, ⅓ estão nos US e Miami é a região preferida, com cerca de 300 mil. Entre esses, meu pequeno núcleo familiar, que se compunha de 9 deslocados, agora são 13. E prometendo crescer: mais 2 esse ano.  

 

Nos anos 80 e 90, a maioria dos imigrantes brasileiros era de classe média baixa tentando melhorar de vida. Atualmente, os ricos formam a maioria dos que estão chegando. Se antes vinham em busca de uma vida melhor, hoje a segurança é o fator mais importante. Quanto a preferirem o sul da Flórida, a razão é o clima, muito parecido com o nosso. Mas um novo atrativo cresce com essa mudança de status no perfil do novo imigrante: o setor imobiliário. Os super-brasucas estão no terceiro lugar entre os estrangeiros que compram propriedades de alto nível na florida Flórida. As de mais de um milhão de dólares.

 

Embora ainda não esteja aparecendo nas estatísticas, acredito que um outro motivo esteja atraindo os muito ricos para as benesses do primeiro mundo: a cidadania americana pode livrar muita gente boa da cadeia. Pense nisso se você está perdendo o sono com tantas delações e investigações e CPIs abundando por toda parte. Mas se você está na base da pirâmide e quer vir sem documentos, em busca de segurança e um empreguinho na economia informal, cuidado. Mr. Trump aboliu o espanhol do site oficial da Casabranca. O que isso tem a ver conosco? Ah, tem.

Yes, nós também!

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Com o  aguaceiro que desabou sobre o Rio na quinta-feira, precisamos admitir que o Brasil já tem até furacão. Yes, nós também! Afinal, sempre gostamos de imitar todo mundo. Imagina se fosse na terça-feira gorda, plena euforia carnavalesca, cidade lotada de turistas. Cadê o prefeito? Parece até que foi encomenda da oposição. Cidade alagada, falta de energia elétrica, trânsito interrompido, caos generalizado. Vamos em frente que domingo tem futebol.

 

Dia seguinte, pelo menos metade da cidade restabelecida em seus direitos inalienáveis de brilhar com luz artificial, mano JC resolve cortar o cabelo. Morador da velha Tijuca e carioca por adoção e coração, por favor não falem mal do Rio perto dele. A barbearia de sua total fidelidade fica na Praça Cruz Vermelha, onde ele vai a pé há exatamente 40 anos para essa obrigação estética mensal. Por sorte, com todo esse tempo corrido, JC ainda tem o que cortar na cabeça. Mais sorte ainda, em lá chegando ele percebe que apesar de todo o bairro ainda estar sem luz, a barbearia é o único estabelecimento comercial aberto na área.

 

São sete da noite e embora na rua ainda esteja claro, dentro já está um pouco escuro. JC resolve desistir do corte e voltar para casa, mas o barbeiro, um senhor de 90 anos completados no último carnaval, vê o cliente e não vai deixar escapar, Vamos entre, dá pra cortar, não vá embora. Sem água e luz, quase nenhum cliente hoje. Mesmo nessa vetusta idade, o simpático senhor abre a barbearia de 7 da matina às 9 da noite, de segunda a sábado. JC fica meio preocupado, mas como recusar? Entra e o barbeiro começa a afiar a navalha, devagar se tem o melhor corte. Depois escolhe e arruma as tesouras por ordem de tamanho…

 

O salão vai ficando cada vez mais escuro e o barbeiro sem pressa nenhuma. Quando o corte começa JC só vê um avental branco se movendo em volta dele. Espelho? Tudo preto. O que o barbeiro está vendo ele não sabe nem pergunta, mas com 70 anos de ofício e cortando seu cabelo há 40, não precisava de muita luz – conhece de cor o cabelo e o cliente. Quando finalmente ele chega no arremate o salão já está completamente escuro e JC sente calafrios com a navalha afiadíssima desfilando tranquila em sua  nuca. Na maior escuridão, nem vela o homem tinha.

 

O resultado final? Já se passaram vários dias e ele ainda não olhou no espelho para verificar. E como gosta de usar boné, não sai mais de casa sem ele. Mas cortar cabelo é como podar uma planta, por pior que fique, vai crescer de novo. Demora mas volta ao que era antes, principalmente para quem não está antenado nos modismos que se vê nas ruas. Fui com a filha cortar o cabelo do neto num vasto salão masculino com 20 cadeiras na ativa, e mais gente esperando a vez,  e o neto era o único cabelo loiro – tudo cabelo preto e no mesmo corte: máquina zero em volta deixando no alto um farto topete, que alguns pintam de cores berrantes.

 

Acho que chama crista de galo, sei não. Pelo menos parece. E me pergunto, estamos na América ou Miami se mudou pra Cuba?  De acordo com o último senso, 70% da população de Miami é latina, e destes 54% são cubanos. E continuamos crescendo. Quanto ao Rio, sugiro que os próximos candidatos a cargos políticos sejam mais específicos em suas qualificações: “Votem no Amaral, que gosta de carnaval”.

Estranho mundo velho

HardRock

Antigamente dizer que alguém andava nas nuvens era ofensa. Hoje, quem vive nas nuvens está antenado, na moda, atualizado. Tela grande indicava cinema, telinha é a da TV da sua casa. Não mais. A empresa especializada em eletrônicos de luxo, C SEED , criou a maior TV residencial do mundo, medindo 61 metros de comprimento por 25 de largura. Preço? $500 mil dólares. Conforto é na poltrona da sala, cinema é pra ver filme sentado, mas os cinemas de hoje não cochilam em serviço. Com poltronas estofadas para maior conforto, e cada vez mais reclinadas, se o filme não for de muita ação, muita pancadaria, todo mundo dorme.

 

Filho de 10 anos reclamando com o pai: O iPad do Pedrinho é muito melhor que o meu, e ele só tem dois anos. A necessidade de impressionar os outros começa cedo. Esposa briga com o marido por comprar o novo iPhone, que está custando mais de mil dólares, Qual o problema com o outro celular? Todos os meus amigos já compraram o novo. E assim vamos vivendo a era do desperdício, adquirindo o modelo mais novo, o carro do ano, a roupa da moda. Ter o que há de melhor. Mas se todos decidissem não comprar porque está caro, será que os preços cairiam?

 

E os índios, como ficam? Se no Brasil índio depende da boa vontade dos governos para sobreviver, a tribo dos Seminoles na Flórida está na lista das empresas mais ricas do mundo. As rígidas leis do estado contra o jogo ironicamente ajudaram a criar um dos maiores complexos de hotéis e jogos de azar do mundo – o Hard Rock Hotel e Cassino da tribo Seminoles, que está investindo 1.5 bilhões de dólares em um ousado projeto de expansão. O ponto alto – nos dois sentidos  –  é o novo prédio de 140 metros de altura em formato de guitarra, que promete se tornar ponto de referência do estado.

 

Também teremos em breve mais um gigantesco shopping center para superar o Dolphin Mall e o Sawgrass Mill, os gigantes da Flórida. Mas não andam apregoando que os shoppings estão agonizando, superados pelas vendas online? Uma novidade superando a anterior é disputa antiga, desde que Gutemberg inventou a imprensa e os datilógrafos acharam que perderiam seus empregos. Essa função existe ainda hoje, o que mudou foram as máquinas de datilografar. O primeiro livro publicado por Gutemberg, a Bíblia, tinha apenas 42 linhas em cada página, sem pontuação e parágrafos.

 

Conversa de avó no celular  – Siri, liga pro Lulu, meu netinho. Desculpe, não consigo entender sua solicitação. O Lulu, menina, tá fazendo faculdade em Miami. Desculpe, nome não encontrado. Favor fornecer detalhes mais específicos. Vovó fala bem devagar, Lu – lu – meu – ne – to – de – Mi – a – mi. Desculpe, registro não encontrado. Essa tal Siri é burra mesmo!

Otimista, eu?

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O telefone  tocou cedo, acordou assustada. Voz impessoal e bem treinada, altamente profissional, “Sua aplicação para o cargo em aberto foi aceita, parabéns. Favor se apresentar na segunda-feira, Setor de Recursos Humanos, com documentação atualizada e foto 3×4 recente.” Segunda-feira? É sábado, serão dois dias de ansiedade e expectativa, mas tudo bem, que tudo vai se acabar na segunda-feira. Liga pra Carminha, melhor amiga, pra contar a novidade. Praia cancelada, amiga.

 

A amiga se entusiasma, regozija, bate palmas, que boas amigas são pra essas horas. Vamos pro shopping, então. Uma roupinha nova levanta a moral e dá boa impressão. Mostra que você valoriza o cargo e a empresa. Fazer unha e cabelo, também ajuda. Ah, mas tô tão nervosa… Ora, você já venceu a parte pior, entrevista de emprego é barra, né? Teve entrevista não. Então vai ter, ninguém emprega sem entrevistar antes. Isso já foi superado, a gente manda o currículo, o que conta são as boas qualificações, a experiência para a posição.

 

A amiga quer saber qual posição, curiosa demais. Como saber, apliquei para tantas, qualquer uma será bem-vinda, tô muito precisada. Quem num tá? Combinam o encontro no shopping, Beijim, Beijim. Desligo. Gina dança escovando os dentes, canta no chuveiro, põe uma flor na bandeja do café da manhã e vai tomar na varanda. E então lhe ocorre uma dúvida atroz, Qual empresa? O telefonema não informou, e se aplicou para muitas posições, idem, idem para muitas empresas. Qual ligou? Em qual delas deve estar na manhã da segunda-feira, devidamente documentada para começar uma nova e maravilhosa vida?

 

Gina volta ao telefone para localizar chamada e chamador – Caller ID, que o telefone foi comprado no Paraguai. E para seu espanto lá está: 555-7555. Não acredita, checa a mensagem,  checa o número. Trote às seis da manhã no sábado? Gina veste o biquini e vai pra praia sozinha, e não atende as 20 chamadas da futura ex-amiga no celular. Na número 21, seis da tarde, ela aperta a  bolinha verde, Cadê você, amiga, q’qui aconteceu? Passei o dia no shopping te esperando, tô aqui no desespero. Aconteceu nada não, resolvi vir pra praia. Não ia perder o dia de sol por causa de um empreguinho, né? A falsa amiga entende, Desligo.

 

Amizade de longa data supera crises e desafios, e no domingo Carminha bate na casa da amiga, biquini na bolsa, pedindo desculpas pela brincadeira de mal gosto. Não fiz por mal, ia te contar no shopping. Não vamos estragar uma amizade que remonta ao jardim de infância, né? Gina diz tudo bem, pega um copo na pia e põe água pela metade, O que você vê nesse copo?  Um copo vazio pela metade. Carlinha a corrige, Não, um copo cheio pela metade. Ontem passei a metade do dia feliz, portanto valeu. Com quem mais vai à praia?

Komo chegaram aki?

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Houve um tempo em que as  letras  K, Y e W oficialmente não existiam no vocabulário brasileiro, até que um dia o óbvio se impôs e as letrinhas esnobes vieram alegrar nossa linguagem escrita. Claro que o W e eu já nos entendíamos bem, mas não houve grandes mudanças sociais e morais no país com a referida inclusão. Sugiro, portanto, expandir o repertório e torná-los mais efetivos. Por exemplo, para diferenciar casa e kasa – o substantivo concreto com C designando o imóvel que habitamos, e o verbo kasar para indicar kasamento, relacionamentos sacramentados na igreja e/ou no cartório. Ficaria mais elegante nas colunas sociais: Kasam-se nesse final de semana na Ygreja de Wiana, Karlos, funcionário da Korte de Justiça e Yrene, proprietária da Corte e Costura. Ficou mais claro, não?

 

Quem recebe a cidadania americana pode mudar o nome, e o personagem mais famoso a aceitar o privilégio foi Kal-El, que migrou do planeta Krypton.  Até hoje o nome Clark é o mais adotado pelos novos cidadãos estadunidenses, principalmente os oriundos dos países de linguagem hieroglífica, como Japão, Coréia, etc. Meu nome aqui é pronunciado Uanda, que lembra Uganda,  um país triste. Quando recebi minha cidadania o funcionário me aconselhou a mudar de nome. Pensei em trocar para Vanda, mas ele se referia ao Sily, que soa mal aqui. Poderia trocar para Wanda King ou Vanda Rowling, nomes que me dariam grande vantagem com o público leitor. ‘Parente do Stephen King?’ Mas pensando na dor de cabeça que seria trocar toda a papelada oficial recusei o conselho. Ele ficou decepcionado.

 

Os nomes com K, Y, W eram mal-vistos entre nós – por que Yara se temos o I com o mesmo som, e o Y não consta do alfabeto? Devia ser proibido. Meu segundo nome, Eduvirges,  homenageia minha avó materna, mas os oficiais dos cartórios de registro civil frequentemente alteram os nomes, por maldade ou ignorância, sei lá. Minha avó se chamava Edwiges, e o sujeito ignorou o nome que meu pai lhe deu por escrito em uma folha de papel, em letras garrafais. Depois de registrado no livro sagrado de todos os nomes, é quase impossível corrigir ou alterar. Talvez o sujeito fosse nacionalista ferrenho e abominava estrangeirismos.

 

Yris Kardoso também era contra a intromissão dos alienígenas no vocabulário, e odiava o nome que os pais lhe impuseram – ofensa dupla, num tempo em que essas letras eram ainda invasoras inúteis. Quando se apaixonou por Nesio Walparaiso, o promissor romance foi frustrado quando Yris viu como o nome do namorado era escrito. A jovem já sofria com o Y e o K, e adicionar um W seria demais para ela. Tentando salvar o relacionamento, Nesio sugeriu que ela não adotasse o Walparayso, mas Yris recusou, pensando nos futuros filhos chamando-se Kardoso Walparayso. Mesmo sofrendo desesperadamente, Yris preferiu continuar solteira.

 

Quando as três letras desprezadas foram oficialmente incorporadas ao abecedário tupynikim, Yris se arrependeu de seus exageros linguísticos e foi procurar o Nesio, que infelizmente já estava casado com uma Keyla Kouto. Sabendo bem como andam os casamentos hoje em dia, Yris não se desesperou, e quando soube do divórcio, voltou a apostar no antigo romance. Deu certo – eles se kasaram na Ygreja de Wiana e o filho se chamou Yldo Kardoso Walparaiso.  Não tiveram outros, pois infelizmente logo se divorcyaram.

A moça no quadro

 

grito“O Grito”, Edvard Munch

 
No saguão de entrada do Edifício Hertez, onde se instala o Departamento das Ciências Futuras, um quadro em tamanho natural de uma bela jovem enfeita a parede principal, limitado por uma sofisticada moldura dourada. Uma placa de bronze ao pé do quadro informa: Jane Hertez, 1930. Na parede em frente uma poltrona antiga combina com o estilo do quadro, embora tudo mais em volta contraste com a solenidade da pintura – o piso de granito, os móveis futuristas, um mural de avisos com a cortiça encoberta por papéis espetados com alfinetes.

 

Todas as tardes uma velha senhora vem se sentar na poltrona antiga, o brocado quase despido de sua cor original. A bolsa fora de moda esquecida no colo, a sombrinha pendurada no braço, não importa qual seja a previsão do tempo. Nenhum dos muitos funcionários daquele departamento sabe quem é ela, como vem ou como vai embora – velha demais para dirigir e ônibus nessa área são como Lamborghinis no Brasil, raríssimos. Ela fica ali olhando a moça do quadro, que parece olhar de volta agradecida pela honra das  visitas constantes.

 

As pessoas ocupadas  em  ir e vir, subordinadas a horários e tarefas inadiáveis  não reparam no quadro pintado por um pintor primoroso, nem na senhora distraída que com certeza também não repara nelas. A velha fica horas olhando o quadro como se olhasse o passado, os olhos voltando no tempo ou encarando o vazio de uma vida já vivida, esperando o que ainda resta dela. Quando o relógio em neon da recepção marca seis horas ela vai embora, e sua ausência, tal como sua presença diária, não é percebida.  

 

Mas no dia em que não veio a poltrona vazia chamou a atenção de todos como o grito de dor do quadro de Edvard Munch.  O que houve com a senhora que vem todas as tardes? Teria adoecido, morrido ou simplesmente cansou de sua visita inútil? As pessoas mais antigas no departamento se deram conta de ela já estava ali quando elas chegaram, outras perceberam que ela nunca faltou um só dia, outras ainda se comoveram com aquela adoração silenciosa pela pessoa retratada. Por fim alguém chega com a notícia publicada em um jornal local, anunciando o falecimento de Jane Hertez.

 

Aposto que todos apostam que a velha senhora recentemente falecida e a moça do quadro são a mesma pessoa. Mas sempre se pode encontrar um final surpreendente, seja para uma história real ou nem tanto. Jane Hertez, a jovem no retrato, foi uma  emérita filantropa que doou os fundos para a construção do edifício onde se instala o Departamento das Ciências Futuras, ora falecida e devidamente homenageada por um jornal local. A universidade beneficiada a esqueceu, e nenhuma cerimônia ou culto foi programado.

 

Com o mistério resolvido, todos esqueceram a persistente visitante, até que, passadas algumas semanas, lá vem ela de novo – a mesma roupa fora de moda, a mesma bolsa antiquada, a mesma sombrinha sem chuva, o mesmo olhar parado na adoração ao quadro na parede. Indagada quem era ou porque ali vinha, nada respondeu, mas alguém garantiu ter visto uma lágrima rolar de seus olhos cansados quando informada que a moça do quadro havia falecido.

Admirável mundo novo

 

 

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Há muitos e muitos anos um jatinho caiu na Amazônia e os cinco ocupantes supostamente morreram. Supostamente indica que não houve total comprovação do fato,  pois apenas quatro corpos foram encontrados. Maria Eneida desapareceu sem deixar vestígios, e após longas buscas, a polícia decretou oficialmente sua morte. Piranhas e anacondas abundam na área, bem se sabe, e o pouco que sobra de seus banquetes somem no fundo dos muitos afluentes e confluentes do grande rio. Fora igapós e igarapés e tantos mais.

 

O tempo passou e um belo dia Maria Eneida aparece, vivinha e vendendo saúde. Foi salva da morte por uma tribo inculta e nao registrada nos arquivos oficias – os patatis, e com eles viveu por muitos anos. Foi muito bem tratada, aprendeu coisas do mundo primitivo e ensinou outras do mundo moderno, sem porém poder voltar ao convívio das pessoas civilizadas. Um dia a tribo foi descoberta, devidamente educada e catequizada nos princípios da modernidade,  e a antes jovem e agora senhoril pessoa volta para casa. Imaginemos  o choque, pois nosso rotundo globo mudou mais nesses últimos 50 anos que em toda sua trajetória anterior. Ou  melhor dizer, rotatória anterior.

 

A casa não tem telefone? Preciso voltar ao meu antigo emprego. Decepcionada, Maria Eneida descobre que ninguém mais trabalha como telefonista. Como assim? Quem faz as ligações? Ninguém usa telefone, mãe. Objeto obsoleto e fora de moda. Onde tem lenha pro fogão? Quem encera o piso de madeira? Não tem tanque pra lavar a roupa? Os três filhos que deixou ainda jovens, tão unidos, não se falam mais, e só se comunicam por pequenos aparelhos que carregam para toda parte, até  mesmo no banheiro. O que houve, por que brigaram? Ninguém brigou, mãe, é assim que as pessoas se comunicam hoje em dia. O marido, por quem morria de ciúme por causa das colegas do escritório, considerando-se viúvo casou de novo. Com um colega do escritório.

 

Nos tempos que viveu como imigrante ilegal em Miami, Maria Eneida acompanhou  na imprensa o caso de um milionário que a esposa pegou em flagrante delito de traição explícita com uma certa atrizinha chamada Marla não sei das quantas. As consequências foram drásticas – divórcio, escândalo, execração pública. A carreira do executivo acabou, faliu. Esse nunca mais se refaz. Qual não é o espanto quando Maria Eneida vê o sujeito cheio de pompa e circunstância, a mesma pose e o mesmo topete, aos berros na televisão. Quem? O novo presidente da república?

 

Maria Eneida descobre um novo mundo dominado pelas ondas virtuais, todo mundo antenado na tal nuvem que envolve o planeta. Isso é espionagem, não existe privacidade, todo mundo sabe da vida de todo mundo! Grita, mas ninguém se importa. Dinheiro, que era bom, sumiu – todos pedem o cartão de crédito… ou não leva a mercadoria.  Os russos não são mais a grande ameaça do planeta e todo produto que compra vem da China. Os patatis viviam de forma primitiva e até praticavam o canibalismo, mas só comiam os inimigos. Maria Eneida já comprou a passagem de volta – vivia muito mais tranquila entre eles.

Amor no Reveillon

 

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Nada melhor para adentrar um novo ano que um novo amor. Ou nada melhor que achar um novo amor no Ano Novo. Dependendo dos parâmetros, naturalmente. Se Bia ama o Dino mas no reveillon de Copacabana esbarra no Tito e se  apaixonam, não será um bom início de ano para o que virou passado. Tudo porque o Dino perdeu o bonde  e não chegou na praia. Também insatisfeita ficou a Lurdinha, que amava o Tito e esperava uma declaração de reciprocidade no pipocar dos fogos dessa noite festiva.

 

O trânsito engarrafado fez Lurdinha perder os fogos e o namorado – quando chegou ambos já tinham desaparecido.  Tito passaria a noite triste e solitário, mas já sabemos que houve um esbarro, e a vida de quatro pessoas mudou de rumo. Os descuidos do acaso atrapalharam ou os astros favoreceram? Talvez os desprezados não representassem o amor puro e verdadeiro cantado pelos poetas e com o qual todos sonham. Ou quem sabe os caprichos do coração tenham regras próprias e não se curvam diante das manifestações do acaso… Por certo o esbarro foi programado nas estrelas.

 

Nada melhor para aquecer o inusitado frio que assola a terra de eterno verão do que ver o amor surgir de situações inesperadas.  Adriana e Marcos se encontraram no reveillon de Miami Beach apenas porque coincidentemente usavam camisas iguais – a mesma cor verde, a mesma marca e o mesmo Happy New Year em letras douradas. Quer dizer, se não existissem roupas unissex, eles passariam um pelo outro e seguiriam seus rumos na vida. Tal e qual linhas paralelas,  jamais se encontrariam. Marcos nem gostou da camisa, mas a namorada deu de presente e ficava chato passar adiante. Marcos e Adriana estão casados há 20 anos,  mas a ex-namorada continua sozinha, até hoje lamentando o presente dado, ‘Devia ter comprado a de cor azul’.

 

Melhor ainda quando o amor de reveillon derruba impedimentos e ressentimentos arraigados, mesmo que absurdos. Os donos do Supermercado Estrela eram inimigos figadais dos donos do Supermercado Romano, acintosamente  instalado na esquina oposta, embora os Romanos garantam que chegaram primeiro. Tal proximidade provocou um feudo entre as duas  famílias que perdurou por três gerações. Ferrenha rivalidade, porém, não impediu Romeu Estrela de se apaixonar por Julieta Romano no reveillon de Camburi. Iemanjá estava de bom humor e a paixão foi correspondida, mesmo que proibida.

 

As forças ocultas que manipulam os mesquinhos interesses humanos tudo fizeram para impedir o romance, condenado a um final infeliz e trágico. Mas a decisão é minha – morrem os dois de paixão no final dessa história e eu fico famosa, ou deixo o amor vencer e continuo na obscuridade? Melhor deixar os dois pombinhos serem felizes para sempre, envelhecendo cercados de filhos e netos. E como o amor é cego mas não é burro, os supermercados também se uniram, mudando o nome para Estrela Romana.

 

 

 

 

Entre Tonga e Samoa

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Mais um ano se esgota no calendário do tempo, chora o pessimista; mais um ano que chega, regozija-se o otimista. Com sorte, suor e um bom gene ganhamos mais 365 dias para vencer os obstáculos de  2018 e chegar a 2019 – 12 meses, 51 semanas, 8640 horas, que se esgotarão com a rapidez do piscar das luzinhas do extinto natal. O presente que ganhamos a cada novo ano é esquecer as pedras do caminho, renovando as mesmas esperanças para a próxima jornada.

A entrada de um novo ano é comemorada em quase todo o mundo há mais de 4 mil anos, mas se nosso esférico habitat tem horários tão diversos, onde 2018 vai chegar primeiro? A pequena ilha de Tonga, no Pacífico,  vai receber o Ano Novo quando o Big Ben em Londres bater as 10 da matina. Já os últimos suspiros de 2017 soarão nas pequenas ilhas americanas Baker e Howland ao meio dia de primeiro de janeiro. Mas não pegue um avião para terminar o ano por último, pois não vai ter festa: essas ilhas não são habitadas. Mas você pode comemorar em Samoa, o último lugar com gente para festejar o evento. A ironia dos nossos fusos horários é que  Samoa fica a uns mil quilômetros de Tonga, onde a festa já acabou há muito tempo.  

Procurando no Google os melhores lugares do mundo para comemorar a chegada de 2018, deparo com a Praia de Copacabana nos primeiros lugares das listas. “Embora o Rio seja mais conhecido por seu carnaval, a comemoração de Ano Novo chega perto no segundo lugar. A famosa Praia de Copacabana tem a maior e mais selvagem festa de Ano Novo do planeta, quando mais de 2 milhões de pessoas se apertam em seus 4 quilômetros de areia”. Devo esclarecer que minha pesquisa tem  razões informativas, apenas – não planejo viajar em busca da melhor festa de Ano Novo do planeta. Mas bem que gostaria.

A chegada de mais um ano provoca nos inquietos seres pensantes uma avalanche de boas intenções e interações, que Oscar Wilde definiu muito bem: “As boas resoluções de fim de ano são simplesmente cheques que passamos de um banco onde não temos conta”. Quem não tem pelo menos uma já morreu e não foi informado. Além do esforço para emagrecer e fazer exercícios, campeões de todos os anos, tem até quem prometa beijar os filhos, pelo menos na noite do próximo natal. Ou lavar o cabelo uma vez por mês em 2018.

Ouvidas ao acaso nos corredores dos shoppings ou nas caminhadas matinais: Economizar água reusando os pratos sem lavar;  Gastar tempo real com a esposa em vez de só se comunicar com ela no WhatsApp; Gastar menos do que ganha, se conseguir um bom aumento; Trocar a senha 00000000 por outra mais criativa. Mas até que não é má ideia – quem vai raquear meu computador tentando essa senha? Meus ardentes votos de boas entradas para meus pacientes leitores se inspiram em Joey Adams, “Que seus problemas em 2018 durem tanto quanto suas resoluções de Ano Novo”.