Imprescindivel sonhar

Imprescindível sonhar

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Grupo Balé Folclórico da Bahia, North America Tour 2017

(As mãos para o alto foi apenas coincidência)

 

A dramática situação vivida pelos capixabas, um quase estado de guerra, se parece muito com a situação vivida aqui na época dos furacões. No nosso caso, ficamos prisioneiros das intempéries, que não se sabe por quais caprichos, tornaram-se visitantes habituais, indesejados que nem os imigrantes mexicanos para Trump. Também por motivos não especificados pelas leis climáticas, sumiram sem deixar saudades.

 

Nos piores cenários, um furacão traz o mesmo transtorno que essa greve provoca: ficamos presos em casa por tempo indeterminado, com escassez de alimentos, sem eletricidade e com águas contaminadas, carros parados pelo perigo de sair de casa por causa de ruas alagadas ou cheias de entulhos, e por falta de combustível. Vivemos isso na tragédia Wilma e Katrina, dois dos maiores furacões que nos atingiram. E apareceram quase ao mesmo tempo, o que também foi inusitado.

 

Se não conseguimos ainda entender a humanidade, como entender o clima? Dirão os apavorados capixabas, Nossa situação é pior, porque estamos assolados por bandidos. Mas em Nova Orleans, com toda a tragédia pós catástrofe ecológica, abriu-se a caixa de Pandora, com saques, assaltos e assassinatos. Os ricos, as autoridades e a polícia se mandaram, deixando os pobres e desvalidos à mercê da má sorte.

 

Acompanho os fatos em Vitória, que parecem estar se alastrando feito epidemia por outros estados, e me envergonho dos humanos que, tendo uma chance,  tranforman-se em animais selvagens. Nem todos, nem todos. Temos ladrões aos borbotões, tanto diplomados como de pé no chão mas os honestos são maioria, e mesmo massacrados e explorados, vão em frente, suportando com admirável bom humor e criatividade o que de pior tem-lhes sucedido. Rir da própria desgraça é arte refinada.

 

E no entanto é imprescindível sonhar – que algum dia derrubaremos as grades das janelas e as trancas das portas, e andaremos tranquilos por ruas desertas a qualquer hora do dia ou da noite, porque todos terão segurança e boa qualidade de vida; que teremos governos sérios que não deem razões para situações como essa se repetirem. Enquanto isso não acontece, talvez criem leis que proibam a paralização total de atendimento público essencial nos hospitais e na polícia.

 

Mas assaltos acontecem em qualquer tempo e lugar, mesmo se a gente faz novena e sonha acordado. O show do Bon Jovi, essa semana em Miami, tem cadeiras vendidas a seis mil dólares! São 100 lugares privilegiados, e apenas um ainda está disponível. Portanto, quem puder e gostar muito do bom Jovi, ainda dá pra pegar um avião… se é que esses também não estão parados, com medo de assaltos e sequestros.

 

E furacão também pode ser coisa boa. No caso, o show do Balé Folclórico da Bahia, que fui ver e me encantou. A energia, o colorido e a alegria dos participantes atingiu a plateia como um furacão. Todos se levantaram e dançaram com eles, brasileiros e americanos, bem mais daqueles que desses, infelizmente. Terminado o show, a turma saiu dançando e fez o maior carnaval na entrada do teatro. Valeu Bahia.

 

 

Medo de avião

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Conheço muita gente que tem medo de avião, JC é o único que pode dizer que os aviões têm medo dele. E falo sério! JC já perdeu muitos negócios importantes, conecções difíceis de trocar, até amores, porque quando chega no aeroporto o avião que devia estar parado na pista, esperando por ele, já desliza  sbre trilhos de nuvens e as atendentes de bordo fazem as habituais instruções de segurança.

 

Nem sempre a culpa é do trânsito ou do mau tempo. JC consegue perder voos importantes porque demora a achar um banheiro ou porque vai para o portão errado, ou porque tem que comer alguma coisa antes. E não poucas vezes dormiu no setor de embarque. As atendentes da companhia aérea garantem que chamaram o nome do passageiro várias vezes e até esperaram alguns minutos, mas claro que JC refuta essa teoria, garantindo que o avião saiu antes da hora prevista. Já aconteceu várias vezes.

 
Essas eventualidades ocorrem com frequência, mas uma houve que ficou marcada para sempre no curriculum de JC. A empresa o enviou para fechar um grande negócio, envolvendo milhões de dólares e, por incrível que pareça, JC conseguiu pegar o avião antes que ele fugisse. Mas não chegou ao destino, e o concorrente no empreendimento abocanhou o negócio. Humilhante, mas pior foi ouvir o longo discurso recriminatório do patrão, que ignorou ou não aprovou as razões expostas.

 
Não que isso fosse abalar a estrutura da empresa, absolutamente, que é sólida e bem conceituada no mercado internacional. Perder algumas batalhas faz parte de qualquer guerra, e no mundo das  grandes transações guerras não faltam. Nem esse incidente pôs em risco sua posição ou seu salário; afinal, já estão acostumados, e se ainda o mandam fechar grandes negócios é, ou porque conhecem sua capacidade ou porque é o filho do patrão.

 
O chato foi perder um negócio que envolveu muita gente e muito dinheiro, mas na vida tudo tem duas faces- yin-yang – e se tudo deu errado comercialmente, na área emocional não poderiam ter sido mais compensadoras. Tudo porque, por obra do acaso ou do destino, senta-se a seu lado uma garota que tem medo de avião. Não dizem por aí que os opostos se atraem? A garota que tem medo de avião encontra o rapaz de quem os aviões andam fugindo!

 
Vendo a seu lado uma jovem nervosa, suando frio, JC tenta ser simpático – Não se preocupe, que se cair do chão não passa! Piadinha infeliz, que aí a garota desmontou de vez, tremendo e com falta de ar. “Eu queria vir de ônibus, mas todo mundo insistiu que eu precisava enfrentar minhas fobias. Primeira e última vez, se é que sobrevivo!” Que nem naquela estranha canção, foi por medo de avião que ele pegou na mão de Lizzy. E o resto é história…

 
Linda de encantar, e ele tenta acalmá-la, falando suavemente em seu ouvido. Se ele faria isso com uma garota feia, jamais saberemos.  “Feche os olhos e respire fundo, isso… esquece que está nas nuvens e pense em algo agradável… seu namorado, por exemplo”. Ela sussurra que não tem namorado, e ele sugere marido ou noivo ou ficante… qualquer um serviria nesse momento. E enquanto ela diz não a todas as opções, ele vai se sentindo nas nuvens, literalmente.

 
Na primeira escala ela se levanta, “Não dá, desembarco e pego um ônibus”. JC é um cavalheiro, e não ia deixar a garota sozinha, portanto, sai com ela. E como um alto executivo jamais chegaria a uma importante reunião de negócios cavalgando um ônibus, ele aluga um carro e vão juntos para o mesmo destino  –  tanto a cidade como a vida.  Como foi dito, as forças contrárias do yin yang atuaram –  JC perdeu um bom negócio e achou um grande amor. Mas se agiria assim se corresse o risco de de perder o emprego, jamais saberemos.

 

O Ano do Galo Vermelho

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Sem querer imitar ninguém, da minha janela nesse sábado, dia 28, poderei ouvir os fogos de artifício comemorando o Ano Novo Chinês. O dia é marcado pela primeira lua cheia do ano, e os fogos explodem em profusão para afastar os maus espíritos, demônios e maus fantasmas, permitindo a pacífica chegada de um novo ano. Mas quem não ouvirá? A China produz 90% dos fogos de artifício usados no mundo todo.

 
No calendário chinês, 2017  é o Ano do Galo Vermelho, mais precisamente, da Galinha Vermelha. Como parte dos festejos, o Festival das Lanternas é um costume iniciado há dois mil anos, e simboliza a reunião das famílias. Por esse motivo, na próxima semana ocorrerá a maior migração humana do planeta: cerca de 3 bilhões de pessoas, ou 7.4% da população mundial, estarão viajando durante os festejos, para visitar os muitos familiares espalhados por toda parte.

 
Para Ly Ing, porém, a tradição traz um problema: Morando em Miami, todos os anos ele visita a família na China, como manda a tradição, mas em sendo solteiro, as cobranças familiares não lhe dão sossego – Quando se casa, quando nos dará um neto, essas coisas. Esse ano, pois, Ly tomou uma decisão – sabendo que uma colega de escritório passa por dificuldades financeiras, fez-lhe uma proposta – ir à China como sua noiva.

 
Manuela, uma peruana de olhos puxados, não iria chocar demais a família.   A jovem aceitou a oferta, tanto pelos 5 mil dólares que ele vai lhe pagar se tudo correr bem, mas também pela viagem com tudo pago. E se esmerou nos preparativos. O símbolo da galinha vermelha é fogo, e Manuela encheu a mala de roupas vermelhas e envelopes vermelhos com dinheiro dentro para presentear a família, como é o costume. Na Internet ela se inteirou dos costumes locais e até aprendeu a preparar uma receita não muito complicada.

 
A moda de alugar pessoas estranhas para apresentar à família no Ano Novo é comum na China. Existem várias agências prestando esse serviço o ano todo, mas no ano novo a demanda cresce e o preço sobe. Esse ano, uma agência divulgou que contrataram 3 vezes mais falsos amores que nos outros anos. E não devem faltar candidatos para viajar sem gastar um Yuan e ainda ser pago. O preço varia de 200 a 750 por hora, ou cerca de 3 a 5 mil por dia. Pelo menos três dias.

 
Mas há uma longa lista de obrigações a serem cumpridas rigorosamente, ou o contrato é cancelado. Saber tudo sobre a vida do pretendente e respectiva família; como se conheceram e há quanto tempo; quando pretendem se casar. E mais, agir como um cavalheiro ou uma dama, não fumar, beber muito mas não ficar bêbado, comer tudo que for servido e nunca usar palavreado impróprio. Nada de beijos, mas mãos dadas e abraços são  necessários. Idealmente, jogar mahjong.

 

De acordo com o horóscopo chinês, Ly Ing e Manuela – que mudou o nome para Ly Dian,  vão se apaixonar nessa viagem e viverão felizes para sempre… ou quase. Para também ter sorte nesse fim de semana, vista vermelho e muito brilho, e me mande um envelope vermelho com algum $$ dentro. Pouco, mas resolve – um bilhão e meio de chineses devem estar certos.

 

Com abraços e pipocas

Com abraços e pipocas

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Foi para abraçar que Deus nos deu dois braços

 

Todo mês tem seus dias de glória, e janeiro começa bem o ano com o feriado mais comemorado no mundo.  Mas o primeiro mês do ano tem mais coisas além de nossa vã imaginação. O dia 17, que passou e jaz esquecido no calendário de 2017, foi o dia internacional de esquecer as resoluções de fim de ano. Portanto, estamos todos perdoados, embora com atraso.

 

 

Alegrai-vos, que o dia 19 é o Dia Internacional da Pipoca. Outra notícia atrasada, reconheço, mas ainda pode e deve ser comemorada. Quem diria, esse milhozinho aparentemente insignificante, se virado pelo avesso se tornaria uma das mais apreciadas iguarias universais, ganhando até seu dia no calendário das nações amigas. E quem não gosta? Boa de qualquer jeito, saudável e ótima para regimes se resistirmos ao impulso de abusar da manteiga, do sal e de aditivos outros ricos em tudo que é bom mas devemos evitar. Pipoca combina com tudo e tem gosto de infância. Melhor  ainda se for saboreada quando se dá a sorte de achar um bom filme ainda não visto na TV.

 
Dia 20 é o Dia Internacional do Abraço. Existe comemoração mais agradável? O abraço é uma terapia fácil e eficiente, com amplos efeitos positivos nos dois lados da linha – para quem dá e para quem recebe. Existe alguém no mundo que não tenha alguém para abraçar? Mas se criaram um dia especial para esse ato de carinho e boa-vontade,  por que nos limitarmos a duas pessoas, se podemos envolver várias num mesmo e amplo abraço? Portanto, saia por aí distruindo abraços em grupo, ampliando assim as emanações positivas de seus poderosos fluidos. E você vai se sentir de bem com a vida.

 
Dia 28, além do Ano Novo chinês, é também o Dia Internacional da Privacidade e Proteção de Dados Pessoais. Quanto mais aderimos à comunicação virtual, mais vulneráveis ficamos. Os hackers estão soltos e não dormem no ponto – sempre à frente dos mecanismos criados para nos proteger deles. Portanto, não esqueça que privacidade e segurança na Internete são fundamentais:  cuidado com o que posta, mantenha senhas difíceis de advinhar, não passe informações importantes para sites e pessoas desconhecidas. Se é impossível eliminar os riscos de um ataque virtual, vamos pelos menos dificultá-los.

 
E voltamos no tempo ao dia 20 desse auspicioso mês de janeiro, para comemorar o dia da Elizabeth, mais conhecida por Bete. Que quase se chamou Sebastiana por causa do santo do dia. Mas no dia em que ela nasceu outra Elizabeth, a persistente rainha do Reino Unido, declarou à BBC de Londres que teve um sonho estranho: quatro insetos saídos de Liverpool trariam mais glórias à coroa britânica do que a revolução industrial e o rosbife. Isso selou o nome e o destino de Beth Madeira, a quem mando pipocas e muitos abraços. Feliz aniversário, querida!

A posição astral para 2017

 

Fachada da Skechers, o tênis preferido dos pássaros
Fachada da Skechers, o tênis preferido dos pássaros

 

Entra ano, sai ano, e se dezembro é o mês das boas intenções, janeiro é o mês da culpa. Passamos os 31 dias do novo ano com insônia e consciência pesada,  porque tudo que foi cuidadosamente decidido na passagem de ano se revela impossível ou impraticável, mal retiramos as luzinhas do ano velho. Mais 28 dias escorrem na ampulheta do tempo, como se dizia no tempo em que se contava as horas em ampulhetas, e como tudo continua na mesma, fevereiro é o mês das decepções.

 

Mas com a auspiciosa chegada da primavera tudo volta ao que era antes, e março é o mês da paz. Essas coisas Neide anota no caderninho, fazendo uma séria avaliação – suas boas resoluções não conseguem ultrapassar os obstáculos dos dois primeiros meses do ano. Quais sejam: fazer regime, se mexer mais e gastar menos. Simples, práticas e úteis, e no entanto, tão complicadas. Mas Neide não está sozinha – essas intenções de fim de ano são as mais populares e as menos alcançadas. Então o que está errado não são as metas, mas a forma de interpretá-las.

 

Esse ano Neide decide fazer tudo diferente, abordando a situação por um ângulo mais compatível com a realidade prática. A começar pelo sonho de 10 entre dez seres humanos: manter a boa forma sem regimes radicais. Com toda a evolução moderna, com tantas maravilhas da ciência e da tecnologia criadas todo dia, ainda não descobriram uma pilulazinha que nos faça perder peso sem perder o apetite, sem efeitos adversos e sem culpa. Em 2017, portanto, radical mudança de rumo.

 

Na primeira semana de janeiro Neide põe o Gugu pra fora de casa. Sumariamente. “Mas o que te deu na cabeça, mulher? Jogar no lixo dez anos de bom relacionamento sem aviso prévio?”  Bom relacionamento para quem? Pensa ela, mas nem se dá ao trabalho de responder. Durante dez anos o Gugu tem sido um peso em sua vida, portanto, a primeira resolução de fim de ano se cumpriu ainda em janeiro. E anota no caderninho uma nova intenção para 2018: não se deixar explorar nos próximos relacionamentos.

 

A segunda intenção, se mexer mais, também foi beneficiada com a retirada do Gugu do cenário familiar. Motivada pela solteirice repentina, Neide passou a frequentar a academia da esquina, pagando três meses adiantado. Assim não vai faltar. Na segunda semana de janeiro já perdeu meio quilinho.  É muito pouco, é quase nada, que nem naquela música do Gonzagão, mas é a primeira vez que a balança não se mantém teimosamente estancada no famigerado excesso de peso.

 

A terceira intenção, reduzir gastos,  também foi obtida, sem o Gugu se exercitando o dia todo no trajeto computador – geladeira.  Mas não foi suficiente, e as contribuições de começo de ano para o retorno às aulas dos sobrinhos sofreu um corte radical, sob protestos de Lina, a irmã pobre. “Sem aviso prévio, Neide? Sempre contei com sua ajuda nas despesas das crianças!”  Neide não se deixa demover, “Contenção de despesas, querida. De agora em diante, presente só no Natal e aniversários”.

 

O ano mal começou, e muita água ainda vai rolar até chegarmos a 2018. Com as bênçãos divinas,  escapando de balas perdidas, dengue, zica, planos econômicos mirabolantes, atentados terroristas, poluição ambiental e outros senões inesperados. Sem nem falar nos sempre esperados. Mas não se desespere – pela posição dos astros, já sabemos que 2017 será um ano muito bom para meus leitores e leitoras.

 

Deus foi ao cinema

Deus foi ao cinema

Gastando-se mais tempo no ir e vir do trabalho do que trabalhando, a distração é identificar e decifrar as placas personalizadas dos carros. Nova tela onde tudo é possível, desde que se pague um pouquinho mais. Ajudam a passar o tempo e para o usuário têm múltiplas funções: prestam homenagens, transmitem recados, ideias e conceitos e são fáceis de memorizar. Com tantos carros iguais no estacionamento do shopping,  como identificar o seu?

 

Os mais comuns são nomes de pessoas ou mix de nomes, como JOHNISA, de John e Isa; nomes de times esportivos e países –  tem BRASIL 1 e BRASIL 2, pois se o nome é repetido põem números.  Meu favorito, I FORGOT. O que foi esquecido de tão importante pra gravar numa placa que dura a  vida toda? E é bom lembrar disto antes de pôr o nome da pessoa amada, nesses tempos em que os amores acabam mais depressa que sorvete.  Quem não perdoou: MORON. Os pedidos de casamento aqui tentam surpreender, portanto, não foi surpresa deparar com essa joia: MARRYME.

 

Tem manifestações religiosas, como BUDA, e como não poderia faltar, GOD. Acho que Deus é o mais popular, porque já vi GOD 666. Portanto, alegrai-vos: a fé ainda resiste a tempos tão materialistas. Mesmo quem não reza lembra dele toda hora: Ai meu Deus, Deus nos acuda, Deus ajuda quem cedo madruga, Deus é testemunha, Juro por Deus, Só Deus sabe,  Fé em Deus e pé na tábua; o homem põe e Deus dispõe, Deus é grande, Deus é pai… Sem falar que ainda vemos muitos carros com terços pendurados no espelho retrovisor, mesmo se Deus nunca andou de carro.

 

E embora sem nunca ter ido ao cinema, Deus é um dos personagens favoritos da sétima arte, sempre muito lembrado e explorado, como O Todo Poderoso (2003), Êxodo (2004); A volta do Todo Poderoso (2007); Noé (2014), para citar apenas alguns mais recentes. Tem até Deus é brasileiro (2003), um segredo bem guardado pelos brasileiros. Em 2016 foram lançados vários filmes sobre Deus, com destaque para O Jovem Messias. Mas ter Deus como personagem não garante as bênçãos divinas: o filme Deus não morreu (2016), é um pecado mortal.

 

Mesmo confiando em Deus, sugiro trancar as portas e dirigir com cuidado. Não esqueça o cinto de segurança e se beber não dirija nem digite. “Melhor deixar sem resposta do que morto”, gritam os outodoors das  highways, lembrando que a dobradinha volante e celular está expressamente proibida pela lei de Deus. Mas quem é Deus? A Bíblia diz que é o criador do universo, o que Camões lindamente explica: “Quem fez esse rotundo globo / e sua superfície tão limada / é Deus, mas quem é Deus ninguém entende / que a tanto o engenho humano não alcança”.

O Rei morreu; viva o Rei!

O rei morreu, viva o rei

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Assistindo à auspiciosa chegada do 15º ano do século da tecnologia e do milênio da devastação ambiental, o que temos para comemorar? A penicilina, o rádio, a televisão, o carro, o avião, o computador, o celular, a aspirina, Madona, o microondas, o restaurante a quilo, as academias, a comida congelada, a água encanada, a rede esgotos, a eletricidade, as novelas da Globo, a Gisele Bundchen. A lista é longa, felizmente, e ficamos imaginando o que virá de novo nos próximos 365 dias que aguardamos esperançosos. Cruzem os dedos!

 

Sem contar as obras em pedra, mármore e bronze que ainda resistem ao passar do tempo, o que veio do século passado e continua na crista da onda – como se dizia no tempo em que o rádio navegava nas ondas curtas? O que veio do primeiro milênio da era cristã, ou dos muitos milênios AC  em que andamos sobre a terra e não foi ainda sumariamente descartado pela modernidade? O que temos dentro de casa, nos armários e nas prateleiras que vieram de antanhos tempos?

 

O fogão a gás,  elétrico e  microondas superaram a lenha, o carvão, o fogareiro e o caldeirão pendurado no tripé, velharias que não combinam nas casas modernas, decoradas com aço temperado e vidro fumê. Mas em muitos lugares no mundo a cozinha continua rudimentar como na Idade Média.  Temos ar condicionado e geladeira, mas em muitos lugares e a eletricidade não chegou. Retrocedendo demais no tempo chegaremos nas cavernas, o primeiro abrigo humano depois do ventre materno ainda não destruídas pela pandemia do progresso. Hoje nelas vivem apenas os morcegos e hibernam os ursos. Ou talvez não, que vasto é o mundo e cheio de surpresas.

 

Das sete maravilhas do mundo antigo, apenas a mais velha continua de pé: a Grande Pirâmide de Giza. O Colosso de Rodes foi destruído por um terremoto, e quatro pela ação do homem. Quanto aos fabulosos jardins suspensos da Babilônia, ninguém sabe ninguém viu – supõe-se mesmo que nunca tenham exisitido, embora apareçam em várias listas da antiguidade clássica.

 

E o Homo Sapiens continua sobrevivendo – os milênios rastejam em câmera lenta, os séculos se arrastam sobre tartarugas, as décadas cavalgam lombos de burros, os anos giram em torno do sol, os meses correm na velocidade do som e os dias voam na velocidade da luz. E nóis aí, teimosos que somos, vencendo obstáculos feito atletas olímpicos, disputando medalhas diárias contra tudo e todos – a meta é chegar ao dia seguinte.

 

Na disputa contra o tempo usamos as armas recebidas na herança genética ou conquistadas ao longo da vida, jogando xadrês com a morte, como no filme Os Sete Selos, de Bergman. Tem gente que não sabe quem foram seus pais, tem gente, como a Rainha Elizabeth que cita de cor toda sua longa ancestralidade perdida nas brumas de Avalon. Cabeças coroadas cuja preocupação não era esticar o salário até o fim do mês, mas monitorar a saúde do rei e dos herdeiros na sua frente na linha sucessória. Minha vez chegará? E vigiar os herdeiros posteriores na corrida pelo trono –  Qual terá coragem de me eliminar da jogada?

 

 

Mesmo os reis, com todo o poder e mordomias, viviam com a espada de Dâmocles sobre suas cabeças, nunca sabendo ao se deitarem que acordariam no dia seguinte. Morrendo, recebiam ainda a última afronta, quando saudavam os sucessores – O rei morreu, viva o rei! Que nem os anos passando por nós:  mais um ano que morre, viva o ano que chega! Os que sobreviveram te saúdam.

Perto da Noite Feliz

Perto da Noite Feliz

Perto da Noite Feliz

O Natal é apenas um feriado, como tantos outros que ajudam o ano a passar mais depressa, pensa Laura, se desviando dos pacotes de presentes empilhados em volta do pinheiro enfeiando a entrada do edifício onde mora. Tanto a árvore quando os pacotes embrulhados em papel brilhante são falsos. Mais tarde o condomínio se reúne para uma festa onde pratos calóricos e sem sabor vão ser servidos. Laura é a unica do prédio que não contribuiu com $50 para uma falsa noite de paz e amor. Laura também não participa das festas da repartição nem se reúne com familiares ou amigos.

Quanto ao troca-troca obrigatório de presentes comuns nessa data, prefere comprar ela mesma algo de que goste, em vez de receber alguma quinquilharia sem utilidade que vai entulhar os armários e sempre custa menos que o preço estipulado. Em troca, daria algo que a pessoa aleatoriamente imposta também não vai gostar. Cinismo? Não, experiência. O Natal é um dia comum, onde tudo que acontece nos outros 364 dias do ano pode acontecer também. Nascimentos e mortes; crime e assaltos; falcatruas e corrupção… E mais, traição, gente se unindo e se separando. Doenças, balas perdidas, mais uma guerra, um desastre, uma tragédia…

Para não parecer antipática, Laura explica que vai viajar, e se manda para uma pousada em Santa Leopoldina. Assim ganha dois presentes: descansa e fica livre do barulho e da sujeira que a festa de natal provoca.

Confirmando sua própria teoria, o carro enguiça na subida da serra, indiferente ao fato de ser um feriado quase universal ou outro dia qualquer. Na estrada não passa ninguém, todo mundo está festejando em algum lugar. O celular chama e ninguém atende – por certo tem muito barulho nas festas de natal. Nem a polícia, nem os bombeiros, nem seu mecânico. O jeito é dormir no carro, mas tem medo de passar a noite sozinha na estrada. Seja qual for o dia do ano, havendo chances os assaltantes não deixam de assaltar.

Laura faz uma busca nas imediações, talvez esteja perto de algum lugarejo com posto de gasolina e mecânico, ou um hotel, mesmo de péssima categoria. Por sorte vê luzes ao longe e enfrenta a subida íngreme, chão de pedregulhos dinvadido pelo mato. Chegando mais perto vê que é apenas a casa modesta de algum lavrador, meio escondida entre as árvores, com roupas de criança no varal e latas de plantas na entrada. Resolve arriscar, pior que passar a noite ao relento impossível.

O jovem que a atende explica que não entende nada de carro nem tem como levá-la a lugar nenhum. A essa hora não se acha ninguém, nem mesmo se fosse um dia comum. A esposa não lhe dá atenção – está pondo a mesa para a ceia de natal: uma travessa de sopa fumegante, odor convidativo, e pão casesiro. Um menino brinca com seu presente de Papai Noel: um carrinho feito de lata de óleo. “A senhora pode se acomodar aqui com a gente, sim senhora. Já vamos mesmo comer umas coisinha. Casa de pobre, tá percebendo, mas tem um colchão a mais. Amanhã o ônibus passa cedo”. Sem esperar resposta, a moça põe mais um prato na mesa. Laura agradece, feliz – essa noite terá um natal de verdade.

Deu a louca nos feriados

Deu a louca nos feriados

Deu a louca nos feriados

Esse ano, não sei por qual acordo nacional não sacramentado, o natal chegou mais cedo. Embora as lojas já comecem a vender os produtos habituais desde setembro, tradicionalmente a decoração natalina só era feita após o fim de semana da dupla Thanksgiving / Black Friday. Sobrava o sábado e domingo livres para desenterrar caixas e pacotes do fundo dos armários ou download do alto das estantes da garagem, onde hibernavam desde o ano anterior. Não mais que de repente, todo mundo pulou a decoração do final de novembro, investindo mais cedo nos vermelhos e dourados do natal.

Talvez efeito do El Niño, ou da eleição de um presidente contra o voto popular – Vamos começar o natal antes que o Trump invente um muro para banir a entrada do Papai Noel… Que, não sendo americano, trabalha ilegal no país. Como essa nova tendência começou ninguém sabe, mas todos aderiram. E por que não? O natal é mais bonito e dá mais trabalho de arrumar e desmontar, portanto, que fique mais tempo em cartaz. Parece até competição – quem começa a arrumar ou terminar de arrumar primeiro; quem põe mais brilho ou bonecos maiores nas portas.

Outra mania incutida na mente coletiva é tirar tudo no dia 31 de dezembo, dando lugar à decoração branca e prata da passagem de ano. Nos natais da minha infância, árvore e presépio eram retirados no dia 6 de janeiro, o dia dos Reis Magos. Outra festa, com os participantes das folias de reis batendo nas portas, e ninguém pensava que eram vendedores de enciclopédias. Tinha também boi pintadinho e mulinha, que era um sujeito ‘montado’ numa mula de madeira coberta com chitão. Essas práticas foram se perdendo com a debandada do povo das cidades pequenas para as metrópoles, mas em muitos lugares as crianças ganham presentes no dia de reis, e não no natal.

Quanto aos Reis Magos, sabemos que vieram do leste guiados por uma estrela, que pode ter sido o Cometa Haley. Seriam mesmo reis de reinos distantes? As referências a eles na Bíblia são vagas, sem lhes dar nomes ou especificar quantos eram – o número três se refere aos presentes que trouxeram para o menino: ouro, incense e mirra. E são os presentes que todos nós gostaríamos de ganhar – o ouro significa realeza; o incenso representa a fé, pela oração que sobe aos céus; e a mirra, usada pelos egípcios para embalsamar, simboliza a vida eterna. Foram esses misteriosos magos, talvez astrólogos, que nos legaram a tradição de dar presentes no natal.

Deviam, portanto, ser nomeados patronos do comércio e da indústria, que esses vendedores de ilusões estão esfregando as mãos, com os olhos brilhantes, faturando alto. E sabem nos induzir ao gasto desenfreado. Pesquisas indicam que a música ambiente é um poderoso agente de vendas – se o freguês gosta da música, entra; se for música lenta, demora mais tempo na loja. Pesquisas também indicam que o ato de comprar tem efeito direto nas áreas de prazer do cérebro, levando dopamina para o cérebro, tal como as drogas. Portanto, estamos perdoados por gastar demais numa loja – estamos drogados.

Por pior que andem as coisas, não há crise no Natal – todo mundo compra, uns mais outros mais ainda, tem ano melhor que o outro, mas a mágica da dopamina não falha. Apesar das compras online já estarem em 42%, a ida às lojas e shoppings ao invés de cair, cresce junto. O americano gasta, em média, 786 dólares nas compras de natal, portanto, tem alguém gastando minha cota. Atento às vantagens tecnológicas, o comércio usa imagens de satélite dos estacionamentos dos shoppings para avaliar como serão as vendas nos feriados.

Embora muitos pensem que a campeã das compras no país seja a Black Friday, na verdade o dia 23 de dezembro leva o ouro – é o dia que mais vende, com lojas lotadas abertas até meia noite, filas imensas nos caixas, corredores dos shoppings entupidos de gente carregando sacolas recheadas. E todos já compraram muita coisa com antecedência, quer dizer, dia 23 é o dia das ‘faltinhas’, ou para retribuir presentes inesperados. Outro mito é que os preços estão mais baratos na Black Friday – dia 23 também ganha. Quer dizer, quanto mais gente comprando, mais os preço baixam. Esssa é uma equação de causa e efeito que os comerciantes brasileiros usam ao contrário – sobem os preços já inflacionados quando tem mais gente comprando.

Um cartão de natal nunca enviado

Um cartão de natal nunca enviado

Um cartão de natal nunca enviado

Em tempos perdidos nas trevas de um mundo sem celulares e Internet, mal entrava dezembro e os correios faziam hora extra para dar conta dos cartões de natal enviados pela tradicional via bicho-preguiça. Com a evolução tecnológica, basta saber um dos muitos emails de cada um: 500 milhões de cartões desejando boas festas e um novo ano melhor que o velho voaram nas redes virtuais em 2015. E assim os velhos cartões coloridos viraram passado, certo?

Absolutamente. Com todas as facilidades das mensagens eletrônicas, a opção correio continua imbatível: dois bilhões de cartões são vendidos anualmente, apenas nos States. E as mulheres lideram, comprando 85% desse total. A Casa Branca iniciou a tradição de enviar cartões comemorativos a funcionários, correligionários e chefes de estado em 1927, mas os cartões de natal começaram a ser enviados pelo Presidente Eisenhower.

E não seria diferente no ano de 1953, mas o cartão escolhido foi mandado para a gráfica mais cedo: os Kennedys iriam para o Texas em novembro, numa viagem de 2 dias visitando 5 cidades. Feito especialmente para eles pela Hallmark, o cartão tinha a foto de um presépio napolitano do século 18 que ficava exposto na Casa Branca nos dois anos que eles viveram ali.

A mensagem era simples e elegante, como tudo que se referia à então primeira-dama: “ Nossos votos de um Natal Abençoado e Um Feliz Ano Novo”. O casal chegou a assinar 75 cartões, deixando os demais para assinar quando voltassem a Washington. E o resto é história: os cartões nunca foram assinados nem enviados, e um deles repousa hoje no Museu Nacional Smithsonian da História Americana.

Esse ano, o último cartão da família Obama na Casa Branca estampa a foto do casal com as duas filhas, e a mensagem: “Boas Festas. Quando nossa família reflete sobre os muitos anos felizes que passamos na Casa Branca, estamos gratos pelos amigos que fizemos”. A bela foto levantou controvérsias: Vestidos para um jantar de gala, o vestido de cada uma das filhas custou 20 mil dólares. O preço do vestido de Michelle, feito por Jason Wu, não foi revelado.

Talvez o polêmico próximo presidente comece a mandar seus cartões online, interrompendo a velha tradição e iniciando a próxima. Segundo as estatísticas, até 2020, o número de cartões de natal cairá para 21 milhões.

Um certo Werner Erhard, de São Francisco, é o campeão das remessas natalinas – em 1975 enviou 62.824 cartões pelo correio. O primeiro e mais caro cartão de natal da era moderna, desenhado por John Calcott Horsley em 1843, foi vendido em leilão, em 2001, por 35 mil dólares. Horsley, um artista plástico britânico, fez o cartão por encomenda de Sir Henry Cole – mil cartões impressos em preto e branco e coloridos à mão. O desenho mostrava um alegre grupo de pessoas segurando taças de vinho, mas ao invés de agradar, provocou polêmica – naqueles idos, misturar alcohol com as festas natalinas era um sacrilégio.