Atrasada, como sempre

Atrasada, como sempre

Desde que o homem entendeu que o sol sumia do céu mas voltava com uma certa frequência, medir e contar esse período de tempo passou a ser uma necessidade básica das sociedades em formação. Os relógios apareceram há 3.500 anos AC – de sol, de água, de flor, de vento, a ampulheta, e singelezas outras. Era um tempo em que medir o tempo era uma necessidade apenas para sábios, religiosos e governantes. “Por que contar o tempo? perguntavam os práticos.

O primeiro relógio foi o de sol: sombra para um lado é de manhã; sombra muda de lado é de tarde; sem sombra é meio dia; não vê o relógio é noite. A ampulheta desbancou o relógio de sol e se tornou tão popular que ainda hoje representa o Senhor Tempo. Consiste de um vidro de cintura fina, ou um ralo estreito no meio, com areia em um dos lados. Vira de um lado e a areia escorre lentamente durante uma porção de tempo equivalente a uma hora… aí vira para o outro lado.

Se hoje com toda a tecnologia moderna esquecemos de carregar o celular, imagina virar a ampulheta a cada duas horas – ou doze, pois havia ampulhetas em vários tamanhos para atender a todas as necessidades: amamentar o bebê a cada 3 horas; tomar o remédio contra verme a cada 4 horas; dar milho às galinhas a cada 6 horas; tirar o pão do forno em uma hora. Sempre havia vagas para o cargo de virador de ampulheta.

Atração turística na Irlanda, a pedra do tempo consiste de uma pequena pedra pendurada por um fio e ao relento – se está seca, não chove; molhada, está chovendo; se faz sombra no chão, tem sol; se está branca no topo, tem neve; se não vê a pedra, tem neblina; se balançar, tem vento; se pular pra cima e pra baixo, tem terremoto; se desaparecer, tem furacão. Faria inveja aos incas.

Se essa pedra estivesse no Brasil e desaparecesse, seria porque foi vendida por algum político pelo dobro do preço; se desaparecesse nos Estados Unidos seria mais um complô pra derrubar o Trump. Os relógios modernos, ao contrário dos seus criadores, nasceram grandes e foram diminuindo até caberem no bolso. Dos homens, que nesse tempo não era de bom tom mulher usar relógio. Não precisavam, diziam, e os poucos relógios femininos eram apenas decorativos; não tinham que ser exatos.

Aí Santos Dumond inventou um jeito de prendê-los no pulso, e nos tornamos escravos do tempo. É como um filme de ficção científica em que um gigantesco olho onipresente controla tudo e todos: tictac, tictac. Ao invés de ajudar, essa pressão constante atrapalha, e estamos sempre atrasados. Culpamos o mau tempo, a highway engarrafada, o carro que não pegou ou precisou abastecer. Ou a vizinha que veio perguntar as horas – Faltou energia e os relógios caducaram.

A casa da minha infância tinha apenas um relógio, suficiente para controlar o tempo de uma família de seis pessoas. Na minha casa em Miramar nem sei quantos são, pois vêm embutidos em tudo, que nem gordura: no fogão, no microondas, na geladeira, na televisão, nos computadores e celulares, no carro. Mesmo assim usamos o relógio do sol, como na pré-história: se brilha no céu é dia, se desaparece é noite; se deu praia é tempo bom; se brinca de esconde-esconde é tempo chuvoso; quente até na sombra é verão; se não estou suando é inverno.

Alô, telefonista?

Alô, telefonista?

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Acordo com o suave piiiim do Whats’app familiar, e ao invés das habituais informações sobre as banalidades do dia, deparo com uma estranha mensagem: ‘Estejam todos informados que o telefone fixo de minha residência foi definitivamente desativado – a linha cancelada e o aparelho doado ao GoodWill, onde espero que outros dele façam bom uso. Desculpem o transtorno mas garanto que nenhum animal foi sacrificado no processo’.

Enquanto os demais recipientes dessa alarmante mensagem simplesmente apagaram o referido número de seus celulares, sem sequer derramar uma lágrima, essa que rabisca essas linhas ficou, e ainda está, em estado de choque, por razões fáceis de entender. O telefone ora inexistente estava em nossas agendas há 17 anos, colaborando ativamente na comunicação familiar. Atado a outros números constantemente usados, era quase um membro da família, extrapolando sua missão comunicante.

Quando enguiçava era um deus-nos-acuda; quando não atendido era uma ofensa. Muitas vezes um tira-teima, Mas te liguei mil vezes, diz um; Chequei a memória e não tem nehuma mensagem… diz o outro. Ou o contrário, Liguei, Não ligou… Checa seu telefone, tem 8 chamadas minhas não atendidas. E um frio aparelho eletrônico tem o poder de prova em juizo. Tinha, porque está morrendo, como o fogão a lenha e o aparelho de barbear com lâminas descartáveis gilete.

Com essa deserção fico sendo a última da família a manter um telefone fixo, hoje considerado obsoleto e acusado de ocupar muito espaço. Todos da minha descendência já aderiram ao celular como forma de interagir com o mundo, auxiliados pela parafernália de emails, mensagens de texto, redes sociais. Faço uma rápida pesquisa entre amigos e habituais suspeitos, e todos se espantam com meu espanto, “Qual o problema com seu celular?” Mudou o mundo ou não mudei eu?

O telefone fixo que hoje ocupa 15 cm da minha estante nada tem a ver com os telefones que ocuparam espaços bem maiores nos muitos locais onde me acomodei nesses anos que vou desfrutando, repletos de outros espantos. No Alegre da minha infância não havia telefone – para comunicações urgentes ia-se à estação ferroviária, cujo aparelho se comunicava com as estações
de trem mais próximas.

No outro lado da linha, o agente mandava um moleque de recados levar a mensagem e trazer a resposta. Ou a passava para a próxima estação. Pelo menos esse serviço era gratuito. Fora isso, as comunicações importantes eram feitas por telegramas cobrados por palavra, eficientes mas caros. Quando o mensageiro chegava com a entrega, havia sempre uma expectativa –boa ou má notícia? Por telegrama fui informada que meu romance, O longo amanhecer azul, ganhou o 1o. Prêmio São Paulo de Literatura.

De surpresa em surpresa os telefones foram invadindo nossas vidas, e nos tornamos cada vez mais dependentes desse truque de Mandrake. Por que ir pessoalmente se posso usar o telefone? Mas quando Alexander Grahan Bell foi ao banco pedir financiamento para seu ‘mecanismo para transmitir voz e outros sons telegraficamente’, o motivo da recusa foi, “Por que usar um aparelho se posso falar pessoalmente? Frase essa listada entre os grandes erros da história.

A sombra

Enquanto uns sonham com um lugar ao sol, outros querem apenas sombra e água fresca. Os que estão sempre tentando ficar em baixo de uma árvore são vistos como preguiçosos, mas nada mais injusto, considerando-se as ameaças de câncer de pele e envelhecimento precoce. Assim pensa Jandira, mais conhecida nas redes sociais como Jajá, não apenas para abreviar o nome, mas porque tudo que lhe pedem responde, Mas já? Jamais diz É pra já.

No trabalho ou no lar, Jajá está sempre protelando. Diz um ditado, quando quiser alguma coisa feita, peça a quem está mais ocupado. Portanto, ninguém pede nada a Jandira, que de tanto não fazer nada, ganhou outro apelido: a sombra. Em havendo sol há sombra, fiel seguidora de sua forma real e onde você vai sua sombra vai atrás. Também pode ir na frente, mudar de lado, de posição e até de formato, mas sempre grudada em você. No entanto, alguém já viu a sombra fazer alguma coisa, simples que seja, como te avisar que tem um buraco na calçada?

Posta no cargo de agente fiscal graças a bons relacionamentos – leia-se um bem votado tio deputado, Jajá não veio ao mundo para multar ninguém. Questão de princípios, uma vez que tem bom coração e decidiu, se os políticos roubam e nada fazem, por que prejudicar quem rouba mas está servindo à sociedade, seja no comércio ou na indústria? Como vou comprar meu perfume francês se o comerciante pagar todos os impostos exigidos para importá-lo?

Mesmo porque, tendo a chance, todo mundo sonega. O acusado de suborno sonega informação, a dona de casa que compra na barraquinha da economia informal é conivente no mesmo crime. Quem vai fazer compras em Miami porque está mais barato do que na loja do shopping também sonega. Todos compram mais do que a cota permitida e declaram um preço menor pago pelo celular. Pra onde vai o dinheiro do imposto? pergunta Jandira, quando a acusam de incompetente.

Jajá também comete crimes de lesa pátria nas frequentes viagens a Orlando. Só em vinhos da Califórnia gasta mais de 500 dólares. Fora os perfumes, que ninguém checa uns vidrinhos tão pequeninos… E passa tranquila pela alfândega, arrastando o excesso de bagagem pelo qual também nada pagou – o tio deputado tem regalias que ela utiliza em benefício próprio. Se ele pode, por que eu não posso?

Jajá se considera honesta, pois não multa mas também não aceita subornos. E jamais sofreu da chamada dor de consciência por defender seu lugar à sombra. Se usando sua influência política para colocá-la no cargo o tio prejudicou alguém mais habilitado mas sem pistolão, a culpa é do sistema. Se não fosse eu, algum outro afilhado pegaria meu cargo. E como iria aos States com o mísero salário de professora que ganhava antes? Não compraria os vinhos que o marido tanto aprecia.

Jandira vai e volta acompanhada por sua sombra, fiel escudeira; nada faz mas também não atrapalha. De sombra vem sombria/sombrio, que indica um lugar ou situação onde o sol não brilha. Mas também define lucubrações, sonegações, maracutaias, e desvios outros. A diretora adverte Jajá que ela está seis dias atrasada com o relatório mensal. Mas já? Cheguei de viagem e trouxe um Chandon pra você… A diretora aceita o suborno, porque se punir o tio mexe os pauzinhos e tudo fica na mesma.

Vitamina C e ingratidão

Vitamina C e ingratidão

Apesar de todos os avanços da tecnologia, a gripe continua desafiando a decantada sabedoria humana. Pisamos na lua, já descobriram até as causas do mal de Alzeihmer, quase tudo no corpo humano pode ser trocado por outro órgão em melhores condições, mas a gripe continua desmoralizando a ciência, inabalável e teimosa. A prateleiras das farmácias estão cheias de ofertas tentadoras, que aliviam mas não evitam, e todas as vacinas já inventadas previnem a doença, menos a da gripe.

Vitamina C e cama, diz o povo, e os antigos diziam que canja de galinha era um santo remédio. No tempo da famigerada gripe espanhola, que nem espanhola era, os médicos apelaram para o caldo de galinha, por falta do que receitar. Em pouco tempo já não havia galinácio disponível, até galo virava sopa. Hoje a medicina moderna confirma a sabedoria popular: sopa de galinha é, de fato, um santo remédio para encurtar e amenizar os efeitos da gripe. E mais zinco e probióticos, mas só no começo.

Se gripe é ruim em todos os dias do ano, imagina no dia do casamento do filho único, quer dizer, nunca mais outra chance de brilhar na passarela. Foi o que aconteceu com Gladys, e embora todos acorressem com fórmulas mágicas infalíveis, nada conseguiu desligar o chafariz do nariz e interromper a tosse constante, que seriam agravados pelo excesso de flores no altar. A sugestão de remover as flores quase acabou com o noivado pouco antes de virar vida-a-dois.

De jeito nenhum, onde já se viu casamento sem flores? grita a noiva. Onde já se viu casamento sem a mãe do noivo? Vamos ter que adiar, ameaça o noivo. Tô indo pra igreja, quem quiser que me siga, ela determina. E todos a seguiram, a mãe sob uma dose cavalar de alguma poção que a deixou meio grogue, levando o filho para o altar sem tossir e assoar o nariz. Melhor dizendo, sendo arrastada. Gladys esperou o padre declarar diante de 200 testemunhas que o filho estava definitivamente casado, e desmaiou.

O filho a levou para o hospital e a festa se realizou num clube elegante, afinal já estava tudo pago e sem direito a reembolso. Sem o noivo, mas a noiva se divertiu bastante. Por pouco, esse seria o primeiro casamento desfeito por causa de uma gripe. O filho quis cancelar a lua de mel, Não posso deixar minha mãe no hospital com pneumonia, sou filho único. Outra vez a noiva fica irredutível, O hotel tá pago e sem direito a cancelamento, portanto, vou sozinha. Foi, e se divertiu bastante.

Assim como a gripe tem resistido aos avanços da medicina, o amor também tem resistido a muitos desafios. O casamento do filho da Gladys vai indo bem, e embora ela tenha pago a lua de mel do casal, não guardou rancores. Talvez no futuro criem uma vacina que erradique a gripe definitivamente, ou que elimine a ingratidão no coração humano. Difícil decidir qual das duas é pior. Gladys nunca reclamou da nora, mas comenta lá com seus bordados, Se fosse a mãe dela, meu filho teria ido sozinho pra lua de mel?

Nossa Terra, nossa gente

Nossa Terra, nossa gente

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Dia 22 de abril é ou foi o dia da Terra, portanto semeio boas notícias, a ver se servem de exemplo e produzem bons frutos. Somente em janeiro desse ano 3.2 milhões de americanos deram adeus aos patrão e deixaram o emprego. Um sinal de que a economia está melhorando; se tem tanta gente pedindo demissão é porque foram trabalhar por conta própria ou arranjaram empregos melhores. Há outros bons motivos, claro, como ganhar na loteria ou arranjar um bom casamento, mas menos prováveis.

Parece que tem vaga sobrando para quem está bem preparado. O site Qz.com informa que existem atualmente 530 mil empregos disponíveis na área de informática no país, mas apenas 60 mil estudantes se formam em Ciência da Computação a cada ano. Um estudo do governo prevê que em 2020 haverá 1.4 milhões de vagas na área, enquanto a oferta de mão de obra será de 400 mil apenas. Os indianos estão preparando os passaportes.

FoxNews informa que o censo americano em 1950 listou 270 empregos que estariam extintos nos próximos anos. Errou: 32 empregos sumiram por falta de procura, e o único definitivamente extinto é o de ascensorista de elevador, embora o número de elevadores tenha aumentando consideravelmente. No Brasil essa ocupação continua escalando, mas por que manter uma pessoa sentada o dia inteiro num veículo que anda sozinho e todo passageiro sabe apertar o botão?

lembrando que todos os dias são dias de cuidar da casa, o globo que nos abriga, alimenta e protege. Portanto, continue dando sua ajuda. Uma boa dica do Google: reduza, reuse, recicle, exatamente nessa ordem. Reciclar gasta muita energia, portanto a melhor opção é reduzir o consumo e reusar o que for possível. Cuidar bem do planeta vai nos deixar tão felizes quanto os noruegueses? De acordo com Word Happiness Report de 2017, a Noruega é o país mais feliz do mundo. Por que não temos um planeta onde todos os países sejam igualmente felizes?

Um engenheiro da Apple criou um jeito diferente de ajudar os mendigos de sua cidade: montou uma lavanderia ambulante com máquinas de lavar e secar em uma camionete, e passa os fins de tarde e de semana rodando pela cidade, lavando e secando a roupa dos mendigos, no que ele chama de Loads of Love. Haja amor pra dar. Segundo ele, ‘A roupa limpa restitui a dignidade das pessoas’.

Pedro Viloria, que trabalha em um McDonald de Miami, teve seu dia de glória quando uma mulher desmaiou na fila do drive-thru com duas crianças no carro. O carro andou sozinho e Pedro pulou a janela do restaurante e correu atrás. Felizmente o carro parou numa curva antes que um acidente grave acontecesse. Viloria e outro funcionário socorreram a mulher, administrando-lhe CPR. Ele disse, “Se tivesse que morrer para salvar essa mulher, eu morreria.”

Numa sociedade assolada por corrupção e preconceitos, esses gestos simples nos mostram que ainda há esperança de uma vida melhor. Bom saber que um menino de 8 anos devolve o dinheiro que encontrou, que um modesto atendente de fast-food arrisca a vida para salvar outras, que um engenheiro gasta tempo e dinheiro ajudando o próximo. No dia da Terra, parabéns pra você que está fazendo o mundo melhor.

Promoção imperdível

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Promoção imperdível

Professsora de português em Miami, Dalvinha vai garantindo o hamburguer de todo dia dando aula pra gringo, ainda mais que estão numa promoção imperdível, por $5.00, pague um e leve dois. O hamburguer, não os alunos. Procurando a gente acha – tem sempre alguma coisa com algum desconto: um é 10,00 – leve dois por 14.00. Mas quem resiste à campanha pró-excessos e leva apenas um, vai pagar o mesmo 7,00 no caixa. Sem faltar o free-refill dos sucos e refrigerantes, com três tamanhos a escolher, e mesmo podendo repôr à vontade, há quem pague pelo copo maior.

Dalvinha se inspira nas promoções imperdíveis e cria uma própria: “Aulas de Português, uma semana 200,00; duas 150.00. Cafezinho brasileiro e pão de queijo”. O fluxo de estudantes dobrou, e nenhum aluno reparou que o preço anterior já era 150,00 e que o cafezinho não é brasileiro, mas colombiano, vendido em todos os supermercados. Pelo menos o pão de queijo é brasileiríssimo, mas também está sendo vendido em qualquer supermercado. Congelado, mas que outra opção têm os expatriados?

O Walmart tem uma ideia melhor: traga a revista, jornal, panfleto, flier, foto, com qualquer promoção de qualquer concorrente, e vendemos pelo mesmo preço. O que eles sabem: pouca gente se dá ao trabalho de recortar, pôr na bolsa e mostrar. O junk mail que vem pelo correio também está cheio de cupons com descontos, Save 1,00 na compra da pasta de dente, 0,50 no litro de suco de cramberry, 0,25 no pacote de pão integral… Tem cupons com descontos altos, mas claro, o produto deve custar cem pra ganhar desconto de dez. Mesmo o de graça sai caro.

Na leva de novos alunos chega o Jason, que não tem intenção de ir ao Brasil ou trabalhar em alguma empresa que exija o conhecimento da língua. Poucas, mas que existem, existem. Jason apenas não consegue resistir a uma promoção, mesmo se não precisa do produto. Imagine-se o excesso nos armários. Mas no melhor exemplo de pague um leve dois, Jason pagou a aula e levou o coração até então desapropriado da garota. “Sabia que tem descontos pela ocupação de áreas improdutivas?” ele pergunta, no capítulo Cultivos. Dalvinha demora a entender que ele se refere ao estéril coração da professora.

Entre olhares e sorrisos, elogios e discretos toques de mão, e outra rodada de pão de queijo e cafezinho, a escrivaninha de Dalvinha está sempre adornada com buquês de rosas que ele compra na esquina, “Quer levar dois, moço? Faço um desconto.” Dalvinha nota que algumas vezes as rosas fizeram estágio na geladeira, mas o amor é cego, a não ser que alguma ótica ofereça descontos na compra de bifocais. Até que, no capítulo da Conversa no Restaurante, ele a convida para saírem no sábado, um cinema e um jantar, “Para treinar conversação…”

Vão a um restaurante fino no point da moda, o que não deve surpreender. O rapaz não é sovina, ou um extremado pão-duro. Com bom emprego, boa educação, boa renda, ele apenas não resiste aos descontos e promoções que nos tentam por toda parte. Quando o garçon traz a carta de vinhos ele pergunta, “Degustamos um vinho?” Dalvinha diz que não bebe. Não por motivos religiosos ou morais, apenas não gosta. O rapaz se escandaliza, “Como assim? Nunca encontrei uma pessoa que não apreciasse um bom vinho.”

“Tudo tem sua primeira vez”, ela ri, sem entender a gravidade da situação. O rapaz examina com calma a lista de preços, e lá no finalzinho encontra a tentação, ‘Vinho da casa, pague um copo, beba dois’. E cria-se o impasse. Nada menos romântico que tomar vinho sozinho num jantar a dois, mas a oferta é imperdível. O garçom esperando. Dalvinha pede uma coca-cola, preço cheio, sem promoção e sem refil. Menos romântico impossível. Jason suando frio, olhos fixos na carta de vinho, entre o amor e a mania.

Olha pra garota, olha pro garçon, reexamina a lista.”E então senhor? Já escolheu? Temos uma promoção imperdível com o vinho da casa. Da melhor qualidade”. Dalvinha entende o dilema, “Olha, cancela a coca. Vamos experimentar o vinho, Jason?” O amor vence o primeiro round, no primeiro encontro, mas Dalvinha pensa lá com suas pulseiras, “Na próxima quem tem que ceder é ele”. E no final da noite teve que admitir, o vinho era mesmo bom.

A vida íntima das flores

A vida íntima das flores

A vida íntima das flores

No singelo jardim da casa de Jane – um metro por dois, se tanto, mais grama que planta – nada de interessante acontece. Pelo menos é o que ela pensa. No entanto, quebrando a mesmice que deve ser a vida das plantas, uma semente distraída navega o vento e ali decide se instalar. No princípio é apenas um ramo frágil, e precisa lutar desesperadamente para se impôr entre a folhagem que ali já demarcou seu espaço e não pretende dividir seus privilégios.

Outras vieram antes e não conseguiram sobreviver a essa primeira fase, massacradas por ventos fortes, chuvas intermitentes, muito frio ou muito calor, formigas destruidoras, o gato que tudo remexe. Muitas são estranguladas ainda no berço – a guerra no subsolo por espaço e alimento; a disputa no solo pela conquista por um raio de sol. Poucas conseguem vencer essa primeira etapa e seguir adiante, se esticando, se intrometendo e se impondo para sobreviver.

Também no grande jardim humano, onde os espaços estão cada vez mais escassos e a disputa por um lugar ao sol é ainda mais acirrada, a chance de uma jovem modesta vencer são mínimas. Onde há vida há competição, seja no quintal de uma casa suburbana ou na revista em que Jane trabalha, ‘A vida das flores’, especializada em jardinagem. Embora o ciclo natural se renove constantemente, o poder tende a permanecer onde está – o diretor passa a direção aos filhos como a árvore espalha em volta suas sementes.

Jane chegou de mansinho, como quem não quer nada, e ela mesma acreditava nisso. Não tinha curso superior em jornalismo ou jardinagem, como exigia a chamada de emprego, mas era boa em computação e rápida nas pesquisas, e foi ficando. Gentil, tímida, prestativa, a supervisora se irritava, Menina, fala mais alto, faça-se ouvir, e Jane balbuciava, Quieta no meu canto não incomodo ninguém. Entrou como temporária, foi ficando, sem ambições, sem reclamações.

Jane mora em um condomínio fechado onde todas as casas são iguais e pintadas da mesma cor, com um pequeno jardim na frente com as mesmas plantas podadas uma vez por mês no mesmo tamanho e formato. Um dia qualquer, ao sair de casa Jane se surpreende ao ver um galhinho magricela despontando acima da folhagem verde-amarela do jardim. Foi aos poucos se esticando e numa bela manhã de sol, Jane vê brotar uma esplendorosa flor amarela acima da mesmice do canteiro.

Uma flor apenas, mas puro ouro, como um raio de sol vencendo um dia chuvoso. O jardineiro do condomínio passa com a serra elétrica, nivelando a liberdade dos canteiros. Jane pela primeira vez chega atrasada na redação, esperando por ele. “Não corte minha flor,” avisa. A flor amarela é uma aberração fora do contexto e será eliminada, avisa a síndica quando informada da estranha determinação da residente. Uma jovem sempre tão pacata, vai agora criar caso por causa de uma flor?

Jane explica que mesmo uma flor deve ser protegida, justamente por sua fragilidade. A senhora nada entende, e com o estatuto do condomínio em punho cita regras e normas que devem ser seguidas por todos, Ou viramos terceiro mundo, onde todo mundo faz o que quer. Jane rebate que uma pequena flor que sobrevive aos concorrentes mais fortes merece o privilégio de cumprir sua finalidade na natureza e desfrutar um raio de sol, breve que seja. Portanto, a flor fica.

A síndica convoca uma reunião do condomínio, onde nada fica decidido, como em todas as reuniões de condomínio. Recorre portanto à instância superior. Informada do impasse, a Administração geral do condomínio convoca uma reunião de emergência da diretoria, mas antes que tal aconteça, a flor morre por conta própria. No dia seguinte, Jane entra na disputa para a vaga de diretor gráfico da revista.

Brasileira expulsa de Miami

Primeiro de abril
Primeiro de abril

Fechamos o mês de março com uma terrível apreensão: quem vai me pegar nesse auspicioso dia primeiro de abril de sol e ventos brandos? Caindo num sábado, mais tempo terão os engraçadinhos de fazer graça às minhas custas, o que não será nem um pouco engraçado para mim. Não foi por falta do que fazer que criaram o dia dos tolos – somos todos tolos, na verdade, e um dia a mais ou a menos não faz muita diferença.

Nos meus tempos de criança o dia era levado a sério, e a gente saía de casa em estado de alerta, sabendo que uma pegadinha poderia acontecer a qualquer momento. Mesmo porque, na véspera a gente ia pra cama tarde, bolando quem pegar, e como. Hoje, com tantos aparelhinhos nos distraindo, o evento está caindo em desuso. Ou estamos perdendo a criatividade. Há várias versões das origens do dia dos tolos, portanto pesco na Internet a que mais me agrada. Ou a que considerei mais plausível.

Depois de intensas pesquisas, um professor da Universidade de Boston, em Massachusetts – onde minha neta se prepara para ser médica – encontrou uma versão até então ignorada. O dia dos tolos começou no reinado de Constantino, quando um grupo de bobos da corte disse ao imperador que eles poderiam administrar Roma melhor que ele. Constantino achou a ideia tão engraçada que nomeou um dos palhaços, chamado Kugel, rei dos romanos por um dia.

Um parenteses aqui para lembrar que Constantino criou Constantinopla, que foi capital do Império Romano; do Império Bizantino, também chamado Império Romano do Oriente; do Império Latino; e quando tomada pelos turcos, do Império Otomano. Na Idade Média, Constantinopla foi a maior e mais rica cidade da Europa. Nesse primeiríssimo primeiro de abril, Kugel determinou que o povo fizesse coisas absurdas. A brincadeira agradou e se tornou um evento anual, que depressa se espalhou pelo resto do mundo.

Essa explicação foi publicada em vários jornais no dia primeiro de abril de 1983, e bem aceita nos meios acadêmicos. Levou uma semana para a Associated Press descobrir que a história foi inventada – eles haviam caído num primeiro de abril. Mas ninguém foi executado, porque essas pegadinhas nos jornais eram comuns em tempos antanhos. Uma das mais antigas e famosas ocorreu em Londres, em 1698, quando publicaram a notícia de que ocorreria na Torre de Londres a cerimônia anual da lavagem dos leões.

O povo acorreu para assistir, mas obviamente não havia leões sendo lavados. A brincadeira agradou tanto que o povo a adotou, e a cada primeiro de abril as pessoas avisavam outras sobre o evento, principalmente turistas e visitantes estrangeiros. E uma multidão se formava no local – os que iam para ver a lavagem dos leões, e os que iam para rir deles. Mas aí os espertinhos começaram a vender bilhetes para a cerimônia.

Mas abril, espremido entre o esplendor de maio e a suavidade de março, tem outros encantos
e foi eleito o mês da poesia! E ainda dizem que a vida está perdendo a poesia, ou que a lira poética esteja se extinguido. Digitando ‘poesia’ no Google.br, encontrei 71 milhões de resultados. digitando ‘Poetry’, surgiram 160 milhões. O que não significa que uns sejam mais poéticos que os outros. Para comemorar, encerro a coluna com um trecho do poema Motivo, de Cecília Meirelles: “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”.

Entre sustos e suspresas

Entre sustos e suspresas

Causou espanto a notícia de que a próxima espécie em extinção no linguajar escrito é a exclamação. Coitada, tão empenadinha. Essa não, exclamam os puristas, enquanto os que com nada mais se espantam resmungam, Finalmente. Segundo o famoso tio que virou dicionário, “(!) um sinal de pontuação que se utiliza para assinalar uma interjeição, ou uma frase exclamativa, notadamente na expressão de sentimento ou emoção, admiração, surpresa, susto.

A língua falada, como sabemos por uso próprio, foi criada pelo povo e para o povo, que a mantém viva e mutante. Já a linguagem escrita foi elaborada em tubos de ensaio por monges eruditos fazendo penitência nos claustros, entendiados de ouvir sempre os mesmos pecados nas confissões – Êta povo sem imaginação. Tinham tempo de sobra e foram elaborando acentos, regras, um ponto, três pontos, com o fim específico de castigar os pecadores. Já o ponto-e-vírgula, o defunto trema e a crase foram inventados como diversão. Para eles, claro.

Mal falando e piormente escrevendo chegamos à era tecnológica, onde digitar é preciso e quanto mais rápido melhor. Portanto eliminando o incoveniente e o supérfluo. No banco dos réus está o famigerado ponto-de-exclamação, em vias de ser levado à forca, mesmo já vivendo de cabeça pra baixo. A defesa alega que fica bonitinho no final da frase, e quando o texto é fraco, acrescenta emoção. A acusação alega que seu uso é desnecessário – se alguém grita Ai meu Deus, sabe-se que está exclamando e não rezando.

Em efeito cascata, o ponto-de-interrogação está perdendo o sono, que nem figurão no Brasil – “Serei o próximo? Delaterei o ponto e vírgula”. Pois se digo, Quem é voce, desnecessário incluir o ponto contorcionista, a indagada pessoa sabe que faço uma pergunta. Tá sabendo que o ponto de exclamação será eliminado do vernáculo. Não. Impossível. Como vamos exclamar ou reclamar daqui pra frente. A acusação diz que por excesso de pontos e acentos muita gente abandona a escola e ingressa no sistema penintenciário. Ou larga bons livros no primeiro capítulo.

No caso das vírgulas, a acusação alega que cansam a leitura, mesmo sendo pausas para respirar. Mas quem lê alto hoje em dia? A defesa alega que, mesmo se algumas podem ser eliminadas sem prejuízo do texto, ou sem impedir que se advinhe quem é o assassino, casos há em que sem ela recebemos a notícia errada, a informação truncada ou o diagnóstico trocado. Morreu não, está vivo; Morreu, não está vivo. As mesmas palavras, escritas na mesma ordem, mas uma simples vírgula vai impedir que enterrem quem ainda não virou defunto.

Alegando clareza no texto e elegância de estilo, vamos distribuindo remanescentes dos hieroglifos aqui e ali, rezando para que se encaixem no espaço que lhes foi destinado, pelo menos a maioria deles. A premissa é, se você não sabe, quem vai ler sabe menos ainda, portanto, confie no seu instinto. Algumas vezes, porém, o bolo queima no forno. Na coluna Carta Enigmática (10 de março), parece que ninguém entendeu que estava me referindo ao filme Casablanca: Ilsa, Rick, Victor… Um bar, a estação de trem em Paris… Acho que faltou ponto de exclamação.

Sob o céu de Miami

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(Foto: Michel Sily, sem Photoshop)

Quando Fidel Castro tomou o governo de Cuba deu início à migração cubana para os Estados Unidos, mais precisamente, Miami aqui vou eu. Opção óbvia, pela proximidade geográfica e pelo clima. Entre os primeiros a chegar estava Juan Morales, com esposa e filha. Juan alugou um pequeno quarto e sala, comprou uns móveis usados, pôs a menina na escola pública e foi lavar pratos num restaurante, esperando o dia da volta – que nem nordestino em São Paulo, sempre sonhando em voltar pro Norte. Juan não estava sozinho; as primeiras levas de imigrantes cubanos tinham a mesma mentalidade – se adaptar como possível a uma vida temporária.

Um antigo costume americano, nas vésperas do Dia de Ação de Graças os patrões presenteiam os empregados com o peru para a tradicional ceia do Thanksgiving. Juan adorou, mas o presente lhe trouxe um problema – não havia na casa uma travessa suficientemente grande para servir o peru. Não ficaria bem esquartejá-lo, uma vez que o irmão viria de Nova York com a família para os feriados. Portanto, Juan Morales foi às compras, e encontrou uma travessa compatível com o tamanho do galináceo de honra de seu jantar. Tudo correu melhor que o esperado, mas terminados os festejos, Juan depara com outro problema – onde guardar a grandiosa travessa no exíguo apartamento?

Tal como o Sr. Morales da nossa história, todos os cubanos na América esperavam a situação em Cuba se normalizar para fazerem a viagem de volta, se não queriam deixar nada para trás. Mas a história escreveu diferente, e a vida do Juan foi mudando – arranjou um emprego melhor, a esposa começou também a trabalhar, a filha estava se adaptando bem na escola, e o armário da cozinha não tinha espaço para a imensa travessa que deveria sustentar o peru do próximo ano. Juan Morales ficou uma noite sem dormir, e no dia seguinte tomou uma decisão que mudou sua vida – tirou do banco as economias acumuladas para recomeçar a vida na pátria amada e comprou um terreno. Com a ajuda de amigos conterrâneos contruiu uma casa com três quartos e uma cozinha grande o suficiente para abrigar um bom armário, onde guardou a travessa do peru e mais um belo jogo de mesa completo – 130 peças, doze de cada tipo – que comprou por 12 dólares numa liquidação.

No segundo Thanksgiving que a família passou na Flórida, a casa estava pronta, com dois andares, murada e com piscina. Tal como o Sr. Morales, os outros cubanos foram entendendo que mesmo se a situação política e econômica na ilha mudasse, lá nunca teriam a vida que tinham aqui. As razões de cada um variaram – uma simples travessa que precisa de um armário maior, um filho que nasce, uma filha que se casa com um gringo, um negócio que começou do nada e de repente vai de vento em popa – aos poucos os cubanos aceitaram que nunca fariam a viagem de volta. Portanto, bateram estacas e criaram raízes, e nesse processo dominaram e mudaram o sul do país.

O próximo jogo de pratos comprado tinha 90 peças – 8 de cada – que para Juan simbolizava sua adaptação a uma vida imposta. Um furacão destruiu a casa e outra maior foi erguida, a cozinha também crescendo para mostrar o sucesso dos Morales, agora com a filha já trabalhando. Mas o jogo de pratos comprado desta vez tinha 50 peças – 4 de cada – indicando também como as famílias estavam encolhendo. A primeira travessa comprada pelo Morales, no entanto, continuou ocupando o lugar de honra do armário, e Juan agora repetia para os netos, “Nunca se esqueçam que tudo começou com essa travessa”. Que hoje está pendurada, ou melhor, entronizada, na parede da sala da filha, que tal como seus pais, nunca mais voltou a Cuba.