Deu a louca nos feriados

Deu a louca nos feriados

Deu a louca nos feriados

Esse ano, não sei por qual acordo nacional não sacramentado, o natal chegou mais cedo. Embora as lojas já comecem a vender os produtos habituais desde setembro, tradicionalmente a decoração natalina só era feita após o fim de semana da dupla Thanksgiving / Black Friday. Sobrava o sábado e domingo livres para desenterrar caixas e pacotes do fundo dos armários ou download do alto das estantes da garagem, onde hibernavam desde o ano anterior. Não mais que de repente, todo mundo pulou a decoração do final de novembro, investindo mais cedo nos vermelhos e dourados do natal.

Talvez efeito do El Niño, ou da eleição de um presidente contra o voto popular – Vamos começar o natal antes que o Trump invente um muro para banir a entrada do Papai Noel… Que, não sendo americano, trabalha ilegal no país. Como essa nova tendência começou ninguém sabe, mas todos aderiram. E por que não? O natal é mais bonito e dá mais trabalho de arrumar e desmontar, portanto, que fique mais tempo em cartaz. Parece até competição – quem começa a arrumar ou terminar de arrumar primeiro; quem põe mais brilho ou bonecos maiores nas portas.

Outra mania incutida na mente coletiva é tirar tudo no dia 31 de dezembo, dando lugar à decoração branca e prata da passagem de ano. Nos natais da minha infância, árvore e presépio eram retirados no dia 6 de janeiro, o dia dos Reis Magos. Outra festa, com os participantes das folias de reis batendo nas portas, e ninguém pensava que eram vendedores de enciclopédias. Tinha também boi pintadinho e mulinha, que era um sujeito ‘montado’ numa mula de madeira coberta com chitão. Essas práticas foram se perdendo com a debandada do povo das cidades pequenas para as metrópoles, mas em muitos lugares as crianças ganham presentes no dia de reis, e não no natal.

Quanto aos Reis Magos, sabemos que vieram do leste guiados por uma estrela, que pode ter sido o Cometa Haley. Seriam mesmo reis de reinos distantes? As referências a eles na Bíblia são vagas, sem lhes dar nomes ou especificar quantos eram – o número três se refere aos presentes que trouxeram para o menino: ouro, incense e mirra. E são os presentes que todos nós gostaríamos de ganhar – o ouro significa realeza; o incenso representa a fé, pela oração que sobe aos céus; e a mirra, usada pelos egípcios para embalsamar, simboliza a vida eterna. Foram esses misteriosos magos, talvez astrólogos, que nos legaram a tradição de dar presentes no natal.

Deviam, portanto, ser nomeados patronos do comércio e da indústria, que esses vendedores de ilusões estão esfregando as mãos, com os olhos brilhantes, faturando alto. E sabem nos induzir ao gasto desenfreado. Pesquisas indicam que a música ambiente é um poderoso agente de vendas – se o freguês gosta da música, entra; se for música lenta, demora mais tempo na loja. Pesquisas também indicam que o ato de comprar tem efeito direto nas áreas de prazer do cérebro, levando dopamina para o cérebro, tal como as drogas. Portanto, estamos perdoados por gastar demais numa loja – estamos drogados.

Por pior que andem as coisas, não há crise no Natal – todo mundo compra, uns mais outros mais ainda, tem ano melhor que o outro, mas a mágica da dopamina não falha. Apesar das compras online já estarem em 42%, a ida às lojas e shoppings ao invés de cair, cresce junto. O americano gasta, em média, 786 dólares nas compras de natal, portanto, tem alguém gastando minha cota. Atento às vantagens tecnológicas, o comércio usa imagens de satélite dos estacionamentos dos shoppings para avaliar como serão as vendas nos feriados.

Embora muitos pensem que a campeã das compras no país seja a Black Friday, na verdade o dia 23 de dezembro leva o ouro – é o dia que mais vende, com lojas lotadas abertas até meia noite, filas imensas nos caixas, corredores dos shoppings entupidos de gente carregando sacolas recheadas. E todos já compraram muita coisa com antecedência, quer dizer, dia 23 é o dia das ‘faltinhas’, ou para retribuir presentes inesperados. Outro mito é que os preços estão mais baratos na Black Friday – dia 23 também ganha. Quer dizer, quanto mais gente comprando, mais os preço baixam. Esssa é uma equação de causa e efeito que os comerciantes brasileiros usam ao contrário – sobem os preços já inflacionados quando tem mais gente comprando.

Um cartão de natal nunca enviado

Um cartão de natal nunca enviado

Um cartão de natal nunca enviado

Em tempos perdidos nas trevas de um mundo sem celulares e Internet, mal entrava dezembro e os correios faziam hora extra para dar conta dos cartões de natal enviados pela tradicional via bicho-preguiça. Com a evolução tecnológica, basta saber um dos muitos emails de cada um: 500 milhões de cartões desejando boas festas e um novo ano melhor que o velho voaram nas redes virtuais em 2015. E assim os velhos cartões coloridos viraram passado, certo?

Absolutamente. Com todas as facilidades das mensagens eletrônicas, a opção correio continua imbatível: dois bilhões de cartões são vendidos anualmente, apenas nos States. E as mulheres lideram, comprando 85% desse total. A Casa Branca iniciou a tradição de enviar cartões comemorativos a funcionários, correligionários e chefes de estado em 1927, mas os cartões de natal começaram a ser enviados pelo Presidente Eisenhower.

E não seria diferente no ano de 1953, mas o cartão escolhido foi mandado para a gráfica mais cedo: os Kennedys iriam para o Texas em novembro, numa viagem de 2 dias visitando 5 cidades. Feito especialmente para eles pela Hallmark, o cartão tinha a foto de um presépio napolitano do século 18 que ficava exposto na Casa Branca nos dois anos que eles viveram ali.

A mensagem era simples e elegante, como tudo que se referia à então primeira-dama: “ Nossos votos de um Natal Abençoado e Um Feliz Ano Novo”. O casal chegou a assinar 75 cartões, deixando os demais para assinar quando voltassem a Washington. E o resto é história: os cartões nunca foram assinados nem enviados, e um deles repousa hoje no Museu Nacional Smithsonian da História Americana.

Esse ano, o último cartão da família Obama na Casa Branca estampa a foto do casal com as duas filhas, e a mensagem: “Boas Festas. Quando nossa família reflete sobre os muitos anos felizes que passamos na Casa Branca, estamos gratos pelos amigos que fizemos”. A bela foto levantou controvérsias: Vestidos para um jantar de gala, o vestido de cada uma das filhas custou 20 mil dólares. O preço do vestido de Michelle, feito por Jason Wu, não foi revelado.

Talvez o polêmico próximo presidente comece a mandar seus cartões online, interrompendo a velha tradição e iniciando a próxima. Segundo as estatísticas, até 2020, o número de cartões de natal cairá para 21 milhões.

Um certo Werner Erhard, de São Francisco, é o campeão das remessas natalinas – em 1975 enviou 62.824 cartões pelo correio. O primeiro e mais caro cartão de natal da era moderna, desenhado por John Calcott Horsley em 1843, foi vendido em leilão, em 2001, por 35 mil dólares. Horsley, um artista plástico britânico, fez o cartão por encomenda de Sir Henry Cole – mil cartões impressos em preto e branco e coloridos à mão. O desenho mostrava um alegre grupo de pessoas segurando taças de vinho, mas ao invés de agradar, provocou polêmica – naqueles idos, misturar alcohol com as festas natalinas era um sacrilégio.

Síndrome de Estocolmo

Síndrome de Estocolmo

Antigamente os amores impossíveis alimentavam fartos romances e lacrimosos filmes. Hoje, quando nada mais é sagrado, o amor está cada vez mais impossível. Como no estranho caso de Nora e Nilton, que se encontraram numa feira de animais domésticos,  portanto, que não fiquem dúvidas, os dois são apaixonados por bichos. Mais precisamente, Nora ama Valdez, seu gato siamês, e Nilton não se desgruda de Daniel, seu cão spaniel.

Para Nora e Nilton foi amor ao primeiro tropeção, pois assim se conheceram, esbarrando um no outro e derramando as cocas diet  e zero de cada um. Mas com Valdez e Daniel foi ódio ao primeiro latido e miado. Simultâneos. Enquanto os donos trocavam olhares lânguidos enxugando a roupa, as feras se atacavam. Nora e Nilton decidiram investir no romance, apesar do mau presságio do primeiro encontro e indiferentes  aos desentendimentos de seus bichinhos de estimação. E se chegaram sozinhos ao evento, ao saírem já estavam unidos até que os desvios da sorte se intrometam. Ou não.

 

No dia seguinte já estavam morando juntos, para desgosto de Valdez e Daniel, que tudo fizeram para demovê-los desse amor insensato. Nora e Nilton não se deixaram influenciar pelo mau humor dos pets, Com o tempo eles se acostumam, pensaram juntos. Vamos ver, pensam os mimados bichinhos, se é que cachorro e gato já pensam. Apesar de bem treinados e muito bem tratados, os dois nunca aceitaram a convivência forçada, e brigam o tempo todo.  No mesmo embalo, Nora e Valdez brigam também, mas sem deixar que os desentendimentos de hoje durem até  amanhã.

 

Você tem síndrome de Peter Pan, é muito dependente, não amadurece nunca! grita Nora; Você não se adapta à vida em comum, é independente demais, rebate Nilton. Cão e gato, se falassem, diriam a mesma coisa. Ou dizem, numa comunicação atávica lá entre eles. Valdez: eu não me deixo escravizar, sou livre; vou onde quero e sei voltar pra casa; você depende do dono pra tudo. Daniel: Eu sou útil; sei tomar conta de criança, da casa, perseguir caça, seguir pistas, guiar cegos, farejar drogas. Por isso eles dizem que sou o melhor amigo do homem.

 

Valdez: Isso é pura balela, pois além de te explorarem, ainda te fazem de palhaço, ensinando truques idiotas.  Eu não trabalho pra eles, eles é que trabalham pra mim. Daniel: A única coisa que você faz é caçar ratos, uma atividade não muito nobre, convenhamos. Valdez: Isso é lenda;  minha estirpe não se rebaixa a tanto. Acha mesmo que eles amam seus cachorros? Então por que chamam o diabo de cão? Chamar uma pessoa de cachorro não é elogio, é xingamento. E criaram expressões pejorativas: cachorro sem dono, cachorro doido, cachorrada, dia de cão, cão que ladra não morde, os cães ladram mas a caravana passa. Isso é falta de respeito!

Daniel: São modos de falar, apenas, sem intenção de ofender. Os gatos também são lembrados:  gato escaldado tem medo de água fria, gato preto é azar. Valdez: Mas chamar alguém de gata ou gato é elogio, chamar de cachorro é xingamento. Cachorrinho de madame é pejorativo, e ninguém diz gato de madame. E ainda nos deram mais seis vidas de presente!  Pode ser, mas quem chegou primeiro fui eu, rosna Daniel. Ao que mia Valdez, Pode ser, mas quem manda neles sou eu.

Daniel está certo, os cães chegaram primeiro, tendo migrado da Sibéria ou do Alaska há 35 mil anos. Hoje existem aproximadamente 85 milhões de cães domésticos nos Estados Unidos.  Mas Valdez está certo, os gatos ganharam a preferência popular – são 93 milhões, ou seja, 1/3 das residências americanas têm pelo menos um gato.  Os cachorros são mais inteligentes, ficando em terceiro lugar entre os animais, atrás dos macacos e golfinhos. O gato fica em 20º lugar. O gato tem melhor visão e os cachorros têm melhor olfato.

Os entendidos garantem que os gatos não são hóspedes nas casas dos donos, mas reféns que talvez um dia,  graças à Síndrome de Estocolmo, acabarão amando seus donos. O cachorro tem família, o gato tem empregados. O cachorro, se bem treinado, obedece cegamente. O gato aceita o jugo, mas não exijam truques e prestação de serviços. Quanto a Nora e Nilton, estão no mesmo ritmo –  ainda apaixonados, sabendo que nasceram um para o outro, mas continuam brigando feito cão e gato.

 

Serviço de utilidade pública do blog: Síndrome de Estocolmo é uma situação em que a pessoa submetida a maltratos ou submissão durante muito tempo, acaba criando amizade ou se apaixonando pelo agressor.

Uma aspirina resolve?

Uma aspirina resolve?

Uma piada na Internet diz que não existem ateus em pane de avião. A experiência nos ensina que não existem ateus nos momentos de dor. Quando essa velha bruxa nos alcança, todos rezam, que se não cura, pelo menos alivia. Mas ao rezar pedimos que seja feita a Vossa vontade e não a minha. Pode parecer masoquismo, mas basta olhar em volta, e tem sempre alguém com uma dor maior. Devia haver um campeonato mundial de dor. Ou pôr a modalidade nas Olimpíadas.

Somos seres vulneráveis, vagando indefesos nesse planeta ora chamado vale de lágrimas, ora chamado paraíso, onde a única certeza é a incerteza.  A felicidade existe, que dela temos provas, portanto há que desfrutá-la quando nos alcança, que a dor, essa megera, espreita atrás das portas. O dicionário diz que a dor é uma experiência sensitiva e emocional desagradável… Ah, se fosse tão simples! Pois há tantas variações para a dor quantas são nossas impressões digitais.

Da dor de barriga à dor de cotovelo, da dor da vida à dor da morte. A dor inevitável e a dor adquirida. As decepções de amor e o vazio das ausências. A opressão e a solidão. Estamos no mundo para cumprir um ciclo comum aos seres vivos – nascer, morrer.  O que acontece entre esses dois extremos depende apenas de nós? Se tenho uma lesão na coluna é porque não fiz bastante exercício, se tenho um ataque cardíaco é porque não me alimentei direito.  Dói-me o dente e alma, porque não escovei direito.

E tem a dor social, que deve ser escondida para não nos expor ao ridículo. Segundo Fernando Pessoa, os poetas entendem bem do assunto. “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente. Para nós, pobres mortais, funciona ao contrário, devendo  fingir que não é dor a dor que deveras sente.  Concurso de miss, por exemplo. Uma é escolhida e ganha a coroa, enquanto as finalistas ficam lá no palco, morrendo de dor, mas com um largo sorriso no rosto.

O candidato derrotado dando entrevista após o resultado das eleições: O que acha de ter perdido a sua última chance de se candidatar a alguma coisa? pergunta o repórter. Outra vez o largo sorriso, Isso é democracia, portanto, que seja para o bem do povo. Também o atleta após a derrota, tendo que ir cumprimentar o vencedor, Venceu o melhor. O largo sorriso é fundamental, mesmo se o derrotado quer quebrar a cara do opositor. Noblesse oblige, dizem os franceses.

Lord Byron disse, A recordação da felicidade já não é felicidade; A recordação da dor ainda é dor. Esquecemos os bons momentos mais depressa que os maus momentos. Esticamos a dor desnecessariamente, amargando derrotas, ressentimentos, frustrações, perdas ad infinitum. Ficamos felizes quando uma pessoa nos faz um favor, e ao agradecer dizemos, Fico lhe devendo a vida toda. Um mês depois a mesma pessoa nos nega um segundo favor, e a odiamos pelo resto da vida.

O homem chegou à lua e inventou o caixa eletrônico, mas não conseguiu ainda superar esse incidente físico ou emocional, imposto ou adquirido, que chamamos dor. Talvez a gente esteja  pagando nossos pecados com as nossas dores, portanto, sofrer é inevitável, deduz o pessimista. Ao que o otimista replica, Entre uma dor e outra, que tal tomar uma aspirina e ser feliz?

Mais um blog?

Mais um blog?

A Internet é o imenso mar oceano onde sites, blogs, emails, links e afins flutuam à deriva, esperando que algum desavisado internauta os acesse… Como a mensagem que o náufrago põe na garrafa e joga nas águas revoltas, esperando que alguém, em algum porto solitário, a encontre…
Mas não é assim também o amor?

Naufragada em Miami, dividida entre dois mundos e duas culturas diametralmente opostas, sentindo falta do nosso insubstituível calor humano, da polenta com couve e da língua pátria amada, meus pequenos retalhos de vida cotidiana são as mensagem que ponho na garrafa e jogo no ignoto mar cibernético, esperando que você, meu inconstante internauta, a pesque entre milhões de outras que vagam no espaço virtual e dela tire algum proveito.

Quando você acessa alguns desses mais de dois mil esboços dessa tragicômica saga humana – yin e yang – que venho rabiscando há 16 anos, estarei sendo resgatada, que náufragos virtuais somos todos nós.

Vão-se os anéis e os dedos

A notícia nos jornais abalou, não apenas suas economias, mas também as pretenções de Donald Trump à presidência dos States.

No dia do noivado, em vez do esperado anel de brilhantes, Vico oferece à futura esposa um anel da Pandora; caro mas inadequado –  diamantes são para sempre. O quase-noivo explica que pretendia comprar o anel exigido na ocasião, mesmo com parcos quilates, mas uma notícia nos jornais abalou, não apenas suas economias, mas também as pretenções de Donald Trump à presidência dos States.

Pois não é que justamente no auge da campanha presidencial, quando o único programa de governo do candidato republicano é ressuscitar o muro de Berlim no sul dos Estados Unidos, a Ford anuncia que está transferindo sua produção de carros populares para … (suspense) … Advinhou? O México! Trump quase arranca o famoso topete – Tanto país pobre no mundo, por que o México? Ficou chato, né?

Mas pode até ser que a mais tradicional fabricante do mais americano dos carros esteja ajudando o candidato em sua política separatista, justamente por semear empregos à mão cheia no terreno inimigo. Se, seguindo o exemplo da Ford, toda a indústria americana também se transferir para o México, teremos dois benefícios a curto prazo: carros mais baratos (mão de obra a preço de garrafinha de água mineral), e inversão da corrente migratória.

A Ford anunciou que vai investir 4.5 bilhões na produção de carros pequenos, mais econômicos porém massacrados pela concorrência de Hondas e Toyotas. Com essa transfusão de dólares na combalida economia mexicana, até los astecas vão deixar suas pirâmides e trabalhar na linha de montagem. Tudo porque a Ford quer se dedicar a seus produtos mais lucrativos –pickups e SUVs, que com a gasolina mais barata, são as preferidas de quem pode pagar.

O problema da imigração ilegal será transferido para o governo mexicano, e todos sairão lucrando. Enrique Peña finalmente vai aceitar pagar os custos do muro, como Trump promete e jura que vai acontecer. Para Vico, porém, a notícia é desastrosa. Trabalhando há anos na fábrica da Ford em Detroit, seus dias estão contados. Claro, a Ford já se espalha por vários países, inclusive o México, mas essa mudança é radical. Empregos andam difíceis, e vamos ter que mudar pro México? Triste ironia.

A quase-noiva recusa o pedido, Prefiro ficar sem anel do que mudar para o México e viver com 10% do seu salário. Vico vai à loja devolver o anel, e a vendedora o consola, Vão-se os anéis, ficam os dedos. Vico rebate, Foram-se os anéis, o emprego, a noiva, de que me adiantam os dedos?  A jovem insiste, Sem anel e sem emprego, mas talvez com outra namorada. Vico não pensa duas vezes, Mesmo se tiver que mudar pro México? pergunta, pegando o anel de volta.

Em casa de marimbondos

Em toda minha longa vida, não consegui usar todas as funções da palavra que…

Nunca soube que marimbondos, esses horríveis insetos mordedores  possam ser tema de qualquer trabalho de ficção. A não ser, claro, que façam um filme onde os desmandos ecológicos da humanidade provoquem uma super-população de vespas geneticamente modificadas, que atacariam alguma  cidade praieira da moda, bem no pico do verão. Enfim, são comedores de insetos, portanto, temos que respeitá-los.

Mas ganharam até um ditado, Não mexa em casa de marimbondos… Se não quiser se meter em encrencas. Vendo uma, passe longe, pois onde se instalam são os senhores da área. Já vi belas mangueiras carregadas de mangas que ninguém ousava tirar. Por que não? Porque os marimbondos moravam num dos galhos. Mas nem todos os odeiam – no México os comem com casa e tudo, e garantem os apreciadores, são deliciosos. Tradicional cozinha exótica. Pior que marimbondo, porém, são as famigeradas funções do que – De quê? Do que está falando? pergunta um; O que são funções? quer outro saber; Que tragédia! replica a outra. Pois que existem, existem, que as gramáticas não me deixam mentir. Nos países de língua portuguesa existem estranhos seres que não apenas conhecem todas, mas que as aplicam no linguajar diário. Houve até um sábio monge que a elas dedicou toda sua vida. O monge de que vos falo estava no leito em que ia morrer, e seus discípulos, que muito choravam,  perguntaram que última lição lhes daria antes que partisse para o além. O que disse ele?  “Vivi mais que os outros homens, de pobre fiquei rico e de rico fiquei pobre porque doei tudo que possuía aos necessitados. Em toda minha vida, porém, não consegui usar todas as 270 funções da palavra que. Por mais que tentasse…” Suspirou e morreu. Que ideia interessante! diz um dos seguidores; Tem um quê de sinistro… diz outro. O que vamos fazer? pergunta mais outro; Vamos prosseguir na missão do mestre e procurar um sentido para as funções quesianas, diz o que mais chora; Nem sabia que existiam tantas, replica ainda outro; Um quê a mais ou a menos… ironiza outro. Melhor não mexer em casa de marimbondos, diz o que ficou por último.

Mesmo que tristes, melhor irmos cuidar do pão de cada dia, sugere o mais prático dos seguidores, que com a morte do mestre perderam eles a Bolsa Família. O que não vai ser fácil, replica um; O quê? indaga outro; Achar trabalho, responde  um terceiro; Quê que é isso? perguntam os outros em uníssono espanto. Trabalho? Que palavra feia essa! exclama o que nada tinha dito até aqui; Será que precisamos? indaga o mais preguiçoso; Melhor não mexer em casa de marimbondos, garante o mais cauteloso; Que tolos somos! dizem todos. P.S. Alguns erros de informação ou gramáticais não são propositais: a gramática tem prazer em me confundir. Quando os mestres do passado se reuniram para criar a língua portuguesa, exageraram no vinho e multiplicaram as  funções do que. Que quê? pergunta um leitor distraído; O que sabe você sobre os que vieram primeiro? pergunta um leitor mais antenado; Quantos quês que essa história tem? pergunta a mais curiosa; Teremos que contar… sugere a mais exigente.

As bruxas estão soltas

Quando ausente, ninguém se refere a ela como a diretora de marketing, ou a colega Mara.

Mara batalhou para chegar onde chegou. E para se manter no topo, tem que se esforçar mais que os 6 homens que participam com ela das reuniões da diretoria. E só dois são filhos do dono. Tivesse ele 7 filhos, a empresa já teria falido. Mara faz as contas: tem mais diplomas, mais tempo de empresa, e sempre apresentou melhores resultados que os 6 juntos. Chamam a isso de igualdade dos sexos.

Quando, há dois anos, seu nome foi anunciado como o novo membro da diretoria, foi imediatamente cognominada de Bruxa. Não abertamente, claro. Mas sabe que em sua  ausência, ninguém se refere a ela como a diretora de marketing, ou a colega Mara. Até as mulheres, que deviam se orgulhar quando uma delas consegue superar os obstáculos e chegar na frente. Minha pista sempre teve mais obstáculos que a dos outros, lamenta Mara.

Na vida real, homem mandando nos outros é chamado de doutor, mulher é chamada de bruxa, megera, caninana. Não é de hoje e não vai mudar amanhã.  Remonta às histórias infantis transmitidas oralmente desde tempos antigos. A donzela devia ser dócil e frágil, precisando de  um homem – príncipe ou mocinho – para se livrar das situações complicadas. As independentes eram bruxas.

Se conseguiam se virar sozinhas era porque tinham parte com o demo. Cleópatra, Maria Antonieta, Ana Bolena, Marquesa de Santos e outras mais foram odiadas e injustiçadas, e entraram para a História como bruxas. Erraram, pecaram, usaram influências para subir ou sobreviver na vida, tal e qual os homens com quem conviveram. No entanto, esses levaram as coroas de louros, enquanto elas – as bruxas – acabaram mal. Ou talvez por isso mesmo.

A Marquesa de Santos foi desprezada, humilhada e condenada ao  ostracismo. E ainda deu sorte. Das outras três, duas foram decapitadas, uma se suicidou. Cleópatra lutou pelo trono que lhe cabia, e se os romanos dominavam, juntou-se a eles com as armas que tinha. Se o grande César, um dos quatro maiores guerreiros da história, foi “induzido’ a se posicionar contra os interesses romanos, é porque Cleópatra era bruxa. Ele, o herói indefeso.

O mesmo para Ana Bolena, que a história registra como a malvada que levou Henrique VIII a praticar atos nefandos, mesmo se ele casou oito vezes, mandou decapitar duas e talvez envenenado duas mais. Mesmo odiada, o povo entendeu que a morte de Ana, o irmão e dois amigos, não teve bases concretas. Também odiada pelos franceses, Maria Antonieta foi mais vítima que algoz, e nunca mandou o povo comer brioches. Embora os tempos sejam outros, e já não existam monarcas absolutos (sic), Mara vive sempre no temor de ser também decapitada. Não literalmente, claro. Vive na berlinda, e mesmo se esforçando mais que os outros seis, qualquer deslize será, Vupt – Cortem-lhe a cabeça! Se tal acontecer, mesmo nesses tempos de igual-para-todos, a chance de outra mulher tomar seu lugar é de apenas 30%.

Ana e o pássaro azul

Ana e o pássaro azul

Diz a lenda que ela traz sorte, e quando conseguir fazer mil você terá um desejo realizado.

Feitas com papel de seda, pequenas e delicadas garças azuis, dobradas com o cuidado exigido pelo origami. Depois de bem dobradas, Ana decora as asas com elaborados desenhos –  flores, folhas ou ramos, anjos ou guirlandas, pássaros, peixes, nuvens. Ou apenas traços sinuosos, enroscando-se sensualmente uns nos outros, como um par romântico.   Ana cria suas aves com o mesmo cuidado com que os artesãos da Idade Média criavam os rococós que engalanavam suntuosas catedrais – para que os fiéis entendessem a beleza do paraíso. Condenamos a Igreja Católica pelos abusos e crueldades da Inquisição, ironicamente chamada de santa, mas devemos reconhecer que ela incentivou e patrocinou muitas das melhores obras de arte já criadas pelo homem. As mulheres nunca tiveram vez.   Isso pensa Ana, por nada mais ter que pensar enquanto cria as pequenas garças de papel de seda. A adição dos adornos é para realçar as excessões que até a natureza aceita. Quando prontas, Ana acrescenta sobre elas uma leve gota de perfume, para criar o toque de mistério.  Completando  a cota do dia – embora não haja uma quantidade específica para cada dia – Ana arranja os pequenos pássaros numa caixa, e está pronta para mais um dia em sua vida.

A garça azul é a mais clássica e popular figura do origami japonês – a arte de dobrar papéis. Diz a lenda que ela traz sorte, e quando conseguir fazer mil você terá um desejo realizado. Por que não tentar? Missão cumprida, Ana almoça um sanduíche vegetariano, integral e orgânico,  assiste ao Vale a Pena rever na TV, veste a túnica azul e sai para a tarde ensolarada ou chuvosa, com brisa amena ou vento forte – qualquer que seja a previsão metereológica, mesmo que ilógica.

E lá vai Ana distribuindo sorrisos rua a fora, vida a fora.  Às vezes pega um ônibus, mais das vezes caminha a esmo, vira em qualquer rua ou segue qualquer rota, mas sempre nos locais mais feios, mais pobres, mais tristes. Pode ser uma escola cheia de goteiras ou um hospital precisando de anestésicos, ou um desses prédios escuros e mal-cuidados, com pequenos consultórios cheirando a desinfetante e lágrimas.

Ana distribui garças azuis como se fossem bênçãos ou biscoitos da sorte. A quem ou para quem? As aves de papel não têm destinatário e não transmitem recados ou mensagens, sejam explícitas ou cifradas. Mas tem seus critérios, e distribui seus pequenos trabalhos de arte a quem deles mais precise. Como discernir quem são essas pessoas precisadas de uma mensagem de paz, no entanto, é um dom que nem ela pode explicar – puro instinto.

Tá vendendo, moça? Não; pegue uma, traz sorte. É, ando mesmo muito precisada. Ana sabe disto, mas sorri apenas e nada diz.  Quando a tarde se dilui no abraço da noite e as ruas começam a se esvaziar da pressa e dos barulhos do dia, Ana volta pra casa com a caixa vazia e o coração cheio de paz. Está perto de completar as mil garças de origami que precisa fazer  para que seu desejo seja realizado. Mas quando acontecer, vai mesmo parar?

Ano 2000 – Primeira coluna

 Quem é a escritora:

Nascida em Muniz Freire – sul do Espírito Santo, Wanda Sily vai frequentar, a partir deste Domingo, diretamente de Miami – onde reside -, as páginas de SéculO DIÁRIO, para deleite de nossos internautas. Formou-se em magistério e 1961, casou-se mundando-se para Vitória. Na Capital teve contato com a pobreza da região, com a população carente e as catástrofes ocorridas à sua volta, lhe despertando a vontade de relatar o que vê. Publicou crônicas no Jornal A Gazeta dureante cinco anos. Wanda obteve o primeiro lugar em vários concursos de contos, crônicas, romance e infanto-juvenil.

De volta para o passado

Minha rua no centro da cidade, onde morei anos atrás, filhos ainda pequenos andando de bicicleta, brincando/brigando com as outras crianças, os moradores no final do dia levando as cadeiras para a calçada, um olho na vida dos vizinhos e o outro na televisão ligada na sala. O mundo deu suas voltas e a vida foi imitando essas reviravoltas, afetando o centro e a minha rua.

O tempo, os modismos, o milagre econômico, os planos econômicos, o desastre econômico, os caprichos da sorte foram desgastando e depreciando minha rua. As casas viraram mercearia, sapataria (ou sapateiria), salão de beleza, sede de campanha eleitoral, igreja evangélica, não exatamente ao mesmo tempo, não nessa ordem. A rua foi seguindo o triste destino de rua do centro, decadência foi o efeito colateral.

As famílias, como aves de arribação, partiram para os endereços da moda – Praia do Canto, Camburi, Goiabeiras, Itapuã, e outras tantas praias com nomes indígenas que se esticam pela orla cobiçada da cidade. A vida foi se deslocando, devagar mas sempre em movimento, como trânsito na hora do rush. Dei muitas voltas pelo mundo, e volto à minha rua.

Surpreendo-me ao rever nos antigos endereços as mesmas famílias que se foram outrora, aves de arribação que por motivos diversos ou iguais, retornaram. O comércio informal e ilegal foi banido, a rua é outra vez residencial e quieta, barulho só das crianças correndo em volta, filhos das crianças de ontem. Um bom indício? Talvez não.

A geração de hoje, dos computadores, da TV a cabo e fibra ótica, não está melhor que a precedente e talvez também não a próxima. O que o Brasil reserva aos nossos netos? Florestas destruídas, rios poluídos, água contaminada, ar irrespirável, favelas violentas…

Esse é o futuro que estamos deixando aos nossos netos, junto com o curso na Faculdade que não garante um emprego, junto com o emprego que não leva a uma carreira, junto com a casa no centro que vai estar sempre lá, esperando por eles.