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Segunda, 25 Mai 2020

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A praça e a democracia: moradores conquistam o tombamento do espaço público

A praça e a democracia: moradores conquistam o tombamento do espaço público

 

“Toda cidade tem uma praça, toda praça tem um coreto e muitas histórias para contar! Assim, em torno de sua presença indelével na vida de nossas cidades, surgem reminiscências tão distantes quanto sua existência tão antiga”.

Mesmo que grande parte dos moradores da cidade de Conceição da Barra, no norte do Espírito Santo, concorde com as palavras do jornalista e historiador Maciel de Aguiar expostas acima, trecho da crônica “A praça pede socorro!”, o prefeito Jorge Donati (PSDB) preferiu não escutar. 

 
No dia 13 de junho deste ano, o mandatário do Executivo municipal começou a demolição de 40% da Praça Prefeito José Luiz da Costa, no Centro da cidade, para transformar a área em estacionamento da própria prefeitura. Na mesma hora, os moradores, que não foram consultados sobre a mudança, reagiram com protesto, conseguindo embargar as obras.
 
Logo após o início das obras, foi criada uma comissão de moradores para acompanhar o andamento da questão, que protocolou ainda em junho um abaixo-assinado que pode gerar uma Ação Civil Pública contra a prefeitura. A grande esperança dos barrenses é a análise para o tombamento do local, que já está em andamento na Secretaria de Estado da Cultura (Secult), por meio do Conselho Estadual de Cultura (CEC).
 
A mobilização popular deu certo. Quem conta é a moradora Orlandina Saúde, integrante da comissão. Nesta quinta-feira (2), segundo ela, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) se rendeu aos apelos da comissão e decretou o tombamento da praça. Melhor ainda, a Secult aproveitou o embalo e tombou também a igreja e os casarios que ficam no entorno do espaço público. O casarão da Bugia também acabou entrando no pacote de tombamento.
 
A Praça Prefeito José Luiz da Costa, além de ser um histórico ponto de encontro dos cidadãos barrenses, é um patrimônio cultural da cidade para os moradores, datando de mais de 200 anos. É conhecida também de Praça da Igreja Matriz, sendo considerada sua extensão, servindo inclusive como atrativo para os muitos turistas que lotam a cidade, principalmente no verão.
 
Leia abaixo o texto completo do historiador Maciel de Aguiar: 




A praça pede socorro!
 
Toda cidade tem uma praça, toda praça tem um coreto e muitas histórias para contar! Assim, em torno de sua presença indelével na vida de nossas cidades, surgem reminiscências tão distantes quanto sua existência tão antiga.
 
E uma cidade sem praça é quase imponderável ou, digamos, é como um corpo sem coração... não guarda sentimentos, não tem sonhos, não tem alma, não tem vida.
 
Muitas cidades nascem em torno de uma praça! A bem da verdade as cidades não nascem primeiro que a praça! No início, como de costume, faz-se uma convenção de futuros munícipes, gentes vindas de lugares inimagináveis, e decreta-se: aqui será a praça! E, em torno dela, constroem suas histórias, aventuras, desejos e utopias.
 
Então a praça deveria ser a certidão de nascimento da cidade. E nós, os beneficiários de seu bucolismo, de seu testemunho incomensurável e até de sua trivialidade, deveríamos tratá-la como uma mãe gentil, igual àquela que nos dá a vida e nos carrega em seu ventre por uma eternidade de meses.
 
E a praça serve a todos e para tudo... principalmente à democracia.
 
Na história da humanidade muitos homens maus mandaram queimar livros nas praças, outros fizeram o fuzilamento de incontáveis sediciosos que se rebelaram contra o sistema vigente e tantos determinaram nela o açoite de escravos que cometeram crimes de anseios de liberdade.
 
Numa praça, Tiradentes beijou a face da eternidade, Federico Garcia Lorca foi fuzilado e incontáveis corpos lavaram de sangue a terra para servir de exemplo. Porém, não se deveria perder de vista que muitas bastilhas caíram a partir da união de milhares de revoltosos em muitas praças ao redor do mundo.
 
Assim avisado, também devemos recordar que muitos poetas a cantaram pelos séculos... e um deles, espalhou aos ventos e à eternidade: “A praça é do povo, como o céu é do condor...”
 
Então, que ninguém se atreva a achar que, por mais justificável e necessário ao tempo em que vivemos, uma praça pode ser violentada em sua forma, destruída em seu bucolismo e ultrajada em sua história.
 
E quando uma praça pede socorro é dever de todo cidadão de bem se juntar numa cruzada cívica para defendê-la como um patrimônio da humanidade, mesmo que ela seja um símbolo de uma cidadezinha qualquer.
 
Acho que nem deveriam existir leis, conselhos ou tribunais para defender as praças da incúria dos homens maus. Todas as consciências deveriam preservá-las como um bem inalienável das gerações.
 
Desfraldemos, então, a bandeira em defesa de nossas mais remotas lembranças e de nossas mais indeléveis recordações para impedir a destruição da praça que ornamenta a igrejinha da Conceição de Nossa Senhora Padroeira, no Município da Barra, Norte do Estado do Espírito Santo.
 
A praça pede socorro, mas devemos clamar com a voz do poeta: “A praça é do povo!”.
 
Maciel de Aguiar

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