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Quinta, 13 Agosto 2020

Religiosos e pessoas em situação de rua denunciam violência e desigualdade social

Lorraine Boldrini

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Quando o escritor Manuel Bandeira escreveu o poema O Bicho, em 1947, talvez não imaginasse que a realidade retratada por ele seria tão atual mais de 70 anos depois. "Manuel Bandeira retrata os dias atuais, quando vidas humanas são descartadas e queimadas como bicho", afirma o pároco da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, padre Kelder Brandão, após ler o poema durante o Ato Ecumênico em Memória ao Cidadão em Situação de Rua Queimado Vivo em Itararé. O ato foi realizado neste sábado (11) pela Ação Diaconal Ecumênica (ADE), formada pelas igrejas Católica, Luterana e Presbiteriana.
Padre Kelder Brandão. Créditos: Lorraine Boldrini

A atividade, que contou com a presença de representantes do Fórum Evangelho e Justiça, aconteceu no mesmo lugar no qual a pessoa em situação de rua foi queimada, no domingo (5), vindo a óbito. "A desigualdade social aumenta, condenando milhões de pessoas à fome, escolhendo quem deve viver ou morrer para que a sociedade de consumo prevaleça", afirma padre Kelder, ressaltando que a realidade retratada por Bandeira não somente permaneceu, mas também se agravou. O sacerdote denunciou, ainda, "os falsos profetas, os falsos pastores", que "idolatram o Deus dinheiro", que, segundo o sacerdote, iludem as pessoas e fazem com que os diferentes sejam "condenados à exclusão, ao degredo e à morte".

O ato foi realizado no local onde o corpo foi queimado. Créditos: Lorraine Boldrini

A apologia à violência por parte de pessoas que se intitulam cristãs também foi salientada pelo Reverendo Cleverson Gomes Correa, da Igreja Presbiteriana. "Há muitos sinais de morte, cristãos que apoiam a tortura e a morte daqueles que julgam ser inimigos, que no seu ponto de vista não são cidadãos de bem", lamenta.

Reverendo Cleverson Gomes Correa. Créditos: Lorraine Boldrini

Padre Kelder destacou, ainda, a responsabilidade do poder público em relação à violência e exclusão social, ressaltando que o crime ocorrido em Itararé não foi um caso isolado. "Tantas outras vidas que tombam pela omissão do poder público, por escolhas políticas equivocadas", diz. O sacerdote reivindicou que as autoridades olhem para a população de rua e outros excluídos, desenvolvendo políticas públicas para essas pessoas, "cujas vidas importam tanto quanto as vidas tuteladas pelo Estado". A presbítera Lenita Constância de Oliveira, da Igreja Presbiteriana, destaca que "diante de um ato de extrema crueldade, que é colocar fogo em uma pessoa, não poderíamos deixar passar isso em branco e mostrar para a sociedade que temos que lutar em defesa da vida".

Presbítera Lenita Constância de Oliveira. Créditos: Lorraine Boldrini

O ato contou com a presença de pessoas em situação de rua, mobilizadas pela Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de Vitória para estar no local. Com cartazes nas mãos, elas pediam justiça, paz, vida digna, além de denunciar que "o direito à cidade é um privilégio que poucos podem pagar".  No final elas ganharam kit alimentação, kit limpeza, roupa e cobertor.

Pessoas em situação de rua participaram do ato. Créditos: Lorraine Boldrini

Crime

Além de ter sido queimado, o homem em situação de rua morto no último domingo e que não foi identificado também levou pancadas na cabeça. O crime aconteceu na avenida Robert Kennedy, em Itararé, próximo à avenida Leitão da Silva. Nesse mesmo local outro homem foi encontrado queimado em outubro de 2018.

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Comentários: 1

Marilsa Urban em Domingo, 12 Julho 2020 07:43

1947 Bandeira retrata o ser humano carente do básico, para a sua sobrevivência. A voz da guerra tem que soar alto. No combate, a vitória da vida e extinção da vergonha de pertencer a essa categoria.

1947 Bandeira retrata o ser humano carente do básico, para a sua sobrevivência. A voz da guerra tem que soar alto. No combate, a vitória da vida e extinção da vergonha de pertencer a essa categoria.
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Sexta, 14 Agosto 2020

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