Movimento aponta crimes ambientais reincidentes e volta a cobrar criação de parque

Um incêndio de grandes proporções atingiu a região da Lagoa Encantada, em Vila Velha, na noite dessa terça-feira (17). Os registro divulgados pelo Instituto Lagoa Encantada, nas redes sociais, mostram chamas altas e uma intensa coluna de fumaça na área, localizada entre morros e baixadas às margens da Rodovia Darly Santos.
Integrante do Instituto Lagoa Encantada, o ativista ambiental Wilerman Lúcio explicou que a área atingida é extensa, com cerca de 3 milhões de metros quadrados, e historicamente afetada por queimadas. Segundo ele, há indícios recorrentes de incêndios com múltiplos focos. “Muitas vezes aparecem vários pontos de fogo ao mesmo tempo, em locais diferentes, o que não é característico de causas naturais”, aponta.
Ele também alerta para os danos, especialmente neste período do ano. “É uma época de reprodução de várias espécies, com filhotes pequenos. O fogo destrói habitats e afeta diretamente a biodiversidade”. Além disso, destaca prejuízos à população do entorno, como problemas respiratórios e fuligem nas residências.
Diante do episódio e de mais um impacto ambiental, o movimento em defesa da Lagoa Encantada reitera a cobrança pela criação de um parque municipal para proteger a área. “Não é só fogo. É abandono. É revolta. É um grito por socorro! O fogo ainda consome a Lagoa Encantada. Crime ambiental em andamento!” descreve em comunicado nas redes sociais. A mobilização em favor da Unidade de Conservação (UC) ocorre de forma mais organizada desde 2012, embora a defesa da preservação da região exista desde a década de 1980.
Para Wilerman Lúcio, há um padrão recorrente de degradação das áreas pelos incêndios frequentes, que contribuem para enfraquecer a vegetação e, ao longo do tempo, são usados como argumento para descaracterizar a relevância ambiental da área. “A região tem sido destruída aos poucos, e depois dizem que não tem mais nada ali, que é uma área já degradada. Isso acaba sendo utilizado para justificar a redução da proteção ambiental”, critica. “A criação do parque garantiria mais proteção e presença do poder público, ajudando a coibir esse tipo de ocorrência”, avalia.
O Corpo de Bombeiros Militar informa que foi acionado para ocorrência nas proximidades do bairro Jardim Marilândia ainda na tarde de terça e, no local, identificou um incêndio em um areal alagado que, segundo a corporação, é comumente utilizada para a queima de pneus e materiais descartados.
De acordo com os bombeiros, por se tratar de uma região alagadiça cortada por um “valão” [canal de drenagem] – funciona “como uma espécie de aceiro” natural. O combate foi realizado de forma a direcionar as chamas para uma área isolada, evitando que o fogo se alastrasse, afirma. Ainda assim, permaneceram focos remanescentes em pontos de difícil acesso, com expectativa de extinção natural. A corporação informou que não houve feridos e que não foram registrados novos acionamentos durante a noite e madrugada.
Já a Secretaria Municipal de Meio Ambiente afirmou que “agentes de fiscalização identificaram o incêndio na região da Lagoa Encantada, durante ronda de rotina, e imediatamente acionaram o Corpo de Bombeiros”. A pasta afirma que “aguarda o laudo final dos Bombeiros para dar continuidade nas providências que poderão ser tomadas” . A Polícia Civil informou que não houve acionamento da perícia, o que só ocorre “em indício de incêndio criminoso ou com vítima fatal”.
Petição
Pastorais sociais e comunidades da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Vila Velha, iniciaram nesta semana uma mobilização para pressionar o poder público a garantir proteção ambiental à região da Lagoa Encantada. A iniciativa, organizada pela Pastoral da Ecologia da Arquidiocese de Vitória, pela Pastoral da Ecologia do Santuário de Vila Velha e por comunidades da paróquia, lançou um abaixo-assinado que cobra a criação do Parque Municipal da Lagoa Encantada.
A Lagoa Encantada é classificada há quase 15 anos como Área de Preservação Permanente (APP) por legislações ambientais, incluindo o Código Municipal do Meio Ambiente, a Lei Orgânica do município e o Código Florestal. Apesar disso, a região sofre processos contínuos de degradação, “com aterros, incêndios e poluição”, denuncia o documento, que alerta para o risco de desaparecimento progressivo do ecossistema caso medidas de proteção não sejam adotadas com urgência.
A mobilização também se apoia em um histórico de disputas judiciais. Em 2016, o Ministério Público Estadual (MPES) ingressou com uma ação civil pública solicitando a criação de uma unidade de conservação para proteger a lagoa. A Justiça acolheu o pedido e determinou a criação de um parque, reconhecendo a necessidade de proteger “a diversidade de fauna e flora, as áreas inundadas e os serviços ambientais que a região presta ao município de Vila Velha”, ressalta o abaixo-assinado.
Mesmo após a sentença favorável, a disputa judicial continuou. O município, sob gestão de Arnaldinho Borgo (PSDB), recorreu da decisão e, embora o Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) tenha confirmado a determinação pela criação da unidade de conservação, a prefeitura apresentou novo recurso em maio de 2025.
Entre os argumentos apresentados na campanha está o papel ecológico estratégico da Lagoa Encantada. A área abriga a nascente do Rio Aribiri e reúne diferentes ecossistemas, como manguezais, lagoas, restinga e fragmentos de Mata Atlântica. A região também é considerada um importante refúgio de biodiversidade dentro da área urbana de Vila Velha. O documento destaca que mais de 150 espécies de aves já foram registradas no local, incluindo migratórias. Outro ponto é a presença do jacaré-de-papo-amarelo, espécie ameaçada de extinção que encontra na lagoa um dos últimos refúgios no município. A área também abriga mamíferos, répteis e outros animais silvestres.
O território exerce ainda papel fundamental na regulação hídrica da cidade. A lagoa funciona como área natural de absorção da água das chuvas, liberando-a gradualmente e reduzindo o risco de alagamentos nos bairros vizinhos. O movimento ressalta ainda potencial social da área, que poderia ser consolidada como espaço público de lazer, educação ambiental e pesquisa científica.

