Terça, 21 Setembro 2021

Pesquisa mostra impacto da pandemia para empreendedores das favelas

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Os empreendedores vêm sofrendo forte impacto desde o início da pandemia do coronavírus, afetados tanto pela necessidade de medidas para reduzir a circulação quanto pela queda na renda e consumo em todo país. A situação é ainda mais crítica quando se tratam de pequenos empreendedores de favelas e comunidades periféricas, sem grandes reservas e capital de giro. É sobre elas que se debruçou a pesquisa Empreendedorismo nas favelas Brasileiras, realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Política Social da Ufes (PPGPS-Ufes) em parceria com o Instituto Locomotiva.

O levantamento ouviu 721 microempreendedores em 18 cidades das cinco regiões do país, incluindo 51 participantes do Espírito Santo, e apontou que 83% dos empreendimentos entrevistados tiveram redução de faturamento, sendo que 47,9% do total vinha crescendo antes da pandemia de Covid-19. Entre os que tiveram queda nos seus rendimentos, metade ficou de porta fechada por três meses ou mais e 8% deles ainda estavam fechados quando foi feita a pesquisa, entre setembro e outubro do ano passado.

Valmir Dantas, coordenador do Fórum de Desenvolvimento Comunitário do Território do Bem, que reúne diversas comunidades de Vitória, estima que o impacto tenha sido negativo para ao menos cerca 60% ou 70% dos empreendedores locais. "Com o último decreto a situação piorou ainda mais, principalmente para aqueles comerciantes informais, que praticamente vendem num dia para conseguir comer no outro, sendo que alguns pagam aluguel e isso pesa ainda mais no orçamento", comenta.

Na pesquisa, apenas 15% dos entrevistados possuem funcionários e 77% deles não possuem registro de seu negócio da prefeitura ou por meio do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), trabalhando na informalidade. No total, 58% solicitaram o auxílio emergencial do governo federal, sendo que a maioria que conseguiu obter utilizou para pagamento das contas de sua família.

Menos dinheiro circulando nas comunidade

No caso de bairros como os da periferia de Vitória, muitos profissionais perderam empregos e mesmo jovens aprendizes deixaram de receber bolsas que contribuíram para trazer recursos que circulavam na economia local. Valmir observa que nesses bairros é pouco comum a circulação de pessoas de fora que possam consumir produtos e serviços, e profissionais que ali trabalham, como funcionários públicos, da assistência social e de serviços, tiveram sua atuação presencial reduzida, o que implica também menos ingressos.

Para fortalecer as compras locais, a região conta com o Banco Bem, iniciativa que trabalha com uma moeda social, o e-dinheiro, movimentada por aplicativo de celular que pode ser usado no comércio local. Durante a pandemia, por meio de parceria com apoiadores, o banco comunitário tem emitido créditos no E-dinheiro para que os moradores possam consumir nas proximidades para satisfazer necessidades básicas, ao mesmo tempo em que ajudam a fortalecer a circulação de recursos em seus bairros.

Valmir Dantas conta que sua esposa é comerciante e que, devido à crise, teve que fechar sua lanchonete e demitir os funcionários de sua padaria, mantendo-se no trabalho apenas com os filhos. "Quem trabalha nos comércios locais geralmente são moradores, conhecidos, vizinhos, companheiros da Igreja, que já recebem pouco e agora ficam sem renda. Vai gerando um empobrecimento gigante", diz ele sobre o ciclo vicioso que vem sendo criado diante da crise sanitária associada à econômica.

Inclusão digital ainda é desafio

Nos momentos de medidas mais restritivas à circulação de pessoas, a capacidade de adaptação para o mundo digital tem sido fundamental para sobrevivência de alguns negócios, oferecendo produtos e serviços pela internet ou realizando suas entregas mediadas pela rede de computadores. Isso é outro empecilho para muitos desses empreendedores das favelas, já que parte deles só possui acesso à internet por plano pré-pago por meio de smartphone. "Antes da pandemia, 34% já trabalhavam de maneira on-line, e apenas 23% conseguiram adaptar o seu negócio nesse contexto", diz a professora Maria Lucia Garcia, do PPPGPS-Ufes,

"Não tendo dinheiro, uma das primeiras coisas que as famílias deixam de pagar é a internet", aponta Valmir Dantas. Ele afirma que vem observando no Território do Bem que o acesso a um smartphone ainda é uma dificuldade para alguns nesse momento de crise, devido ao alto custo dos aparelhos, o que tem dificultado também o uso do E-dinheiro em alguns casos.

Impacto na saúde mental

A pesquisa Empreendedorismo nas Favelas Brasileiras ainda se atentou para outra questão importante: os problemas de saúde mental que afetam os empreendedores. Entre os mais identificados, a ansiedade (32%), medo de ficar doente (24%), tristeza (19%), medo de morrer (16%), dificuldade para dormir (16%), preocupação (10%) e pensamentos ruins (10%), além de 48 pessoas terem apontado probabilidade de depressão. A maioria dessas questões tiveram aumento significativo, entre 12 e 15 pontos percentuais em relação a pesquisas anteriores antes da pandemia. Segundo o levantamento, a maioria procurou apoio na família e amigos e somente um em cada quatro pessoas que manifestaram algum tipo de adoecimento mental buscou apoio profissional, sendo que entre estes, 40% não retornaram após a primeira consulta.

"A gente nota que as pessoas estão desmotivadas, sem perspectiva, sem saber quanto tempo isso vai durar. Mesmo quem consegue vender delivery ou fazer serviços pela internet, perde o contato direto com o cliente, que é uma coisa importante. Além dos impactos dos negócios, soma-se a preocupação em ficar doente, o medo de adoecimento e morte de seus parentes, o que aumenta possibilidade de pânico e depressão. Você pode olhar e conversar com os comerciantes e ver que não estão felizes, estão meio tristes, deixando de investir, até porque as mercadorias estão muito caras e fica difícil repassar esse valor para as pessoas, que não têm dinheiro para pagar", aponta Valmir Dantas sobre o delicado cenário.

A meta dos pesquisadores envolvidos é repetir a mesma pesquisa um ano depois, para observar a evolução da situação no país. O estudo realizado faz parte do Programa Institucional de Internacionalização da Ufes (PrInt-Ufes), contando com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), além de parceria com as universidades de Keele e de Coventry, da Inglaterra.

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