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Sexta, 26 Fevereiro 2021

Prefeitura da Serra inaugura ruínas de Queimado restauradas

ruinas_igreja_queimado_vitor_taveira Vitor Taveira

Não foi como se sonhava, mas aconteceu nessa segunda-feira (17) a inauguração da restauração das ruínas da Igreja de São José do Queimado, depois de um processo de 22 anos de luta do movimento negro por meio do Fórum Chico Prego. O local foi palco de uma das mais importantes rebeliões de negros escravizados no Espírito Santo e se encontrava em abandono, com ameaça de desabamento das paredes.

A previsão era de uma grande jornada de inauguração culminando no dia 19 de março, data que vem sendo celebrada nas últimas décadas com uma caminhada noturna de Serra Sede até o local e a realização de um ato inter-religioso e atividades culturais. A programação estava pronta, mas dias antes veio o início do período de isolamento em decorrência da pandemia do coronavírus, levando ao adiamento das atividades.

A nova data escolhida, 17 de agosto, é Dia do Patrimônio Histórico. O processo foi feito de forma simbólica, com a realização da caminhada, que tinha 400 inscritos em março, sendo realizada por um grupo de 15 pessoas. Na inauguração, a sociedade civil foi representada por oito integrantes, de Serra, Vitória, Cariacica e Vila Velha, num total de 25 pessoas presentes no ato, incluindo o prefeito Audifax Barcelos (Rede), mas num evento sem a presença de candidatos em 2020, já que a legislação eleitoral eleitoral veda participação neste tipo de atividade desde o último sábado (15).

As ruínas estão localizados numa região rural e isolada na Serra. Foto: Vitor Taveira
Mas qual o sentido de inaugurar o monumento em plena pandemia quando não está recomendado o estímulo a atividades turísticas?

Há certas alegações burocráticas, como a necessidade de finalizar o processo de entrega para liberar a empresa contratada. Certamente pesa, porém, também o fator político, já que o processo de restauração foi levado adiante na gestão de Audifax, que não quis correr o risco de deixar para seu sucessor o crédito de bandeja. Aproveitando o bom diálogo que teve com o atual prefeito e sem saber o que se reserva para a próxima gestão, o Fórum Chico Prego também apoiou a inauguração, que é na verdade um primeiro passo de um processo para uso e ocupação do espaço.

O local ainda não tem outras estruturas além das ruínas restauradas da igreja, que servem com museu a céu aberto, contando com informações históricas que finalmente marcam um certo reconhecimento do Estado sobre a importância do local e sua história e uma sinalização para os visitantes que os contextualize ao chegar lá. Localizado em região isolada, as ruínas não contam ainda sequer com vigilantes, de modo que ficam sujeitas a possíveis ações que possam danificar o patrimônio.

Madalena Maria Teles Correia, atual coordenadora do Fórum Chico Prego, comemorou a entrega de Queimado, embora lamentando que a inauguração simbólica não pôde contar com a participação de muitas pessoas importantes no processo, já que o momento pede mobilizações limitadas. "O resultado superou nossas expectativas. Eram ruínas que literalmente podiam vir abaixo, não podíamos entrar e realizávamos atividades do lado de fora. Agora está tudo limpo e estruturado", aponta.

As obras de restauração duraram mais de um ano e tiveram investimento de R$ 1,3 milhão oriundos da iniciativa privada, sendo as obras supervisionadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), assim como as pesquisas arqueológicas que as antecederam. Além de reforçar os muros para evitar que caíssem, a estrutura interna recebeu uma camada de reboco simulando a que se usava na época da inauguração da igreja. Estruturas de metal ajudam simular parte da estrutura original que desabou e também compõem uma escada que leva a um mezanino, onde se pode ter uma vista do alto da nave da igreja.

Vista de cima do mezanino construído dentro da Igreja. Foto: Vitor Taveira

A restauração das ruínas de Queimado é o marco mais importante de um processo que ainda não terminou. Num segundo momento ainda serão construídos uma guarita, estacionamento, banheiros e um centro pedagógico com salas e auditório. A sinalização das trilhas do entorno e a restauração do espaço do antigo cemitério ainda são processos a serem feitos. A implantação do modelo de governança e projeto pedagógico também ajudarão a sinalizar como vai ser de fato o uso e a se vai haver uma política pública de fato para o local que ficou tanto tempo abandonado e esquecido pelo poder público, pese sua importância histórica.

A instalação de energia elétrica feita pela prefeitura favorece as atividades, já que antes tudo tinha que ser feito levando gerador próprio. Segundo Madalena, a intenção do Fórum Chico Prego é construir um calendário anual de atividades a serem realizadas no local para além da data de 19 de março, quando já acontece tradicionalmente a caminhada e celebração, que podem também ser tombadas como patrimônio imaterial.

A insurreição de Queimado ocorreu em 1849, na ocasião da inauguração da igreja, quando os negros escravizados que trabalharam na construção do templo se rebelarem após saberem que não teriam a alforria que lhes havia sido prometido em troca do trabalho. O movimento foi reprimido e debelado em poucos dias, tendo líderes como Chico Prego e João da Viúva presos e executados. A exceção foi Eliziário Rangel, a única das lideranças que conseguiu fugir e se aquilombar nas matas da região.

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Comentários: 1

madalena maria teles correia coordenadora do forum chico prego. em Quinta, 20 Agosto 2020 01:04

algumas coisas do texto que não foram ditas por mim, juízo de valores.
contextualizações históricas.etc.

algumas coisas do texto que não foram ditas por mim, juízo de valores. contextualizações históricas.etc.
Visitante
Sexta, 26 Fevereiro 2021

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