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Promessa de inclusão, Transcol + Acessível é criticado por usuários

Redução do número de vagas e negativas de agendamento estão entre os problemas

“O transporte é o direito que permite acessar todos os outros. Sem ele, a pessoa não vai ao trabalho, não vai à escola, não vai ao médico. É a melhor forma de negar a cidadania da pessoa com deficiência”. O alerta é do usuário do serviço Transcol + Acessíve, Pablo Lima Rabelo, que integra a Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos, e denuncia como a lógica adotada no sistema que substituiu o “Mão na Roda” compromete o direito básico de ir vir de pessoas com mobilidade reduzida.

Apesar da promessa de mais conforto, agilidade e inclusão para pessoas com deficiência na época em que a medida da gestão de Renato Casagrande (PSB) foi implantada, em outubro de 2024, ele aponta problemas causados pela redução do número de vagas para cadeirantes, negativas recorrentes no agendamento e falta de dados públicos que permitam auditar o funcionamento da política.

Segundo o governo estadual, a nova frota contaria com 30 vans adaptadas, cada uma com capacidade para três cadeirantes, além de acompanhantes. Em fevereiro do ano passado, Casagrande entregou os primeiros 11 veículos e afirmou que a modernização garantiria “mais dignidade e inclusão”. No entanto, para usuários que dependem diariamente do transporte, a mudança significou, na prática, menos capacidade de atendimento.

Pablo Rabelo aponta que o sistema anterior operava com 28 ônibus, sendo 26 com cinco vagas para cadeirantes e um com seis, totalizando 136 lugares por ciclo médio de viagem. Com a mudança para vans, mesmo que as 30 prometidas estejam em circulação, ele observa que os veículos têm operado na capacidade máxima e as solicitações de viagem têm sido frequentemente recusadas.

Outro ponto sensível é a priorização de acompanhantes em detrimento dos próprios usuários, aponta. “Tem mais vaga para acompanhante do que para cadeirante, e as pessoas acham isso normal. Você está assumindo que vai carregar menos cadeiras por dia”, ressalta. Para ele, embora existam casos em que acompanhantes adicionais sejam necessários, essa não seria a realidade da maioria dos usuários.

A redução da capacidade tem se manifestado em falhas constantes no agendamento, descreve. “O aplicativo funciona muito mal, o telefone é difícil de comunicar, e virou normal ter viagem recusada”, relata. Ele afirma que a falta de acesso ao transporte impediu sua ida a entrevistas de emprego e atendimentos médicos. As situações mais graves, porém, incluem o cancelamento em cima da hora. Pablo Rabelo cita o relato de uma usuária que se manifestou nesta semana nas redes sociais após ter o cadastro suspenso na véspera de uma consulta médica e perder um atendimento que levou meses para ser marcado. “É difícil entender o que está acontecendo”, resume.

Ele considera que um dos maiores problemas do Transcol + Acessível é a falta de transparência. “O principal problema é que eles não têm números divulgados amplamente para serem auditados. Quantas viagens foram feitas? Quantas foram recusadas? Eu nunca vi a Ceturb [Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo] ou a Secretaria [de Mobilidade e Infraestrutura, Semobi] divulgarem isso no fim do ano”, questiona.

Segundo Pablo, o tema já foi levado a audiências públicas e ao Conselho Estadual da Pessoa com Deficiência, inclusive durante reuniões em 2024 que antecederam a implantação do novo modelo. Ainda assim, a mudança teria sido apresentada mais como um comunicado do que como uma decisão debatida.

O Governo do Estado sustenta que a adoção das vans permite maior agilidade, especialmente em ruas estreitas e áreas de morro, além de ampliar a possibilidade de acompanhantes e dependentes. O secretário de Mobilidade e Infraestrutura, Fábio Damasceno, declarou em outras ocasiões, que a modernização representa “um grande avanço na mobilidade inclusiva”, enquanto a Ceturb afirma ter o compromisso de oferecer um sistema mais eficiente e acolhedor.

Mas o usuário contesta o argumento da agilidade. “É um transporte intermunicipal. Ele vai rodar pelas mesmas vias que os ônibus rodavam. Você não ganha tempo suficiente para justificar sair de 136 para 90 vagas”, diz. Com a aproximação do período letivo e o aumento da demanda, ele teme que a situação se agrave. “O que está ruim vai ficar pior”, prevê.

Procuradas por Século Diário, a Ceturb e a Semobi não responderam, até o fechamento desta matéria, aos pedidos de informações atualizadas sobre número de viagens realizadas e recusadas, frota efetivamente em operação, e lista de espera.

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