Terça, 21 Setembro 2021

Rede Brasileira de Mulheres Cientistas - a Ciência a serviço do cuidado das mulheres

familia_projeto_fordan Projeto Fordan

A Ciência a serviço do cuidado das mulheres brasileiras durante a pandemia de Covid-19 e das próximas que, sabe-se, ainda virão. Esse é o objetivo da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, lançada nesta segunda-feira (19), já com a assinatura de mil mulheres na carta de adesão.

A lista continua aberta para novas adesões de mulheres cientistas, convida a epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Ethel Maciel, uma das capixabas a integrar o grupo. O momento, conta, é de expandir a mensagem e conectar o maior número possível de participantes. Em seguida, organizá-las mediante suas áreas de interesse e iniciar a atuação efetiva em campo.

"A ideia é fortalecer esse grupo, dividir conhecimento e trabalhar pela indução de políticas públicas que possam melhorar o trabalho das mulheres, tanto do ponto de vista da ciência como de toda condição de trabalho, pois foram as mulheres que mais perderam emprego e são mais impactadas pela violência", pontua.

Na carta, as assinantes ressaltam que, para muito além de uma questão humanitária e profissional, a ação é necessária para cobrir uma lacuna abissal aberta pelo governo federal, denunciado internacionalmente como responsável por parte significativa das mortes e sofrimento causados pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) no país, ao decidir "afrontar a ciência e desprezar a vida da população brasileira, colocando em risco aqueles que tinha por dever proteger".

Sofrimento e luto que atingem mais severamente as mulheres, especialmente as moradoras de periferias, as pretas e pardas, e as pertencentes a populações tradicionais, como indígenas e quilombolas.

"É preciso lembrar que a taxa de desemprego do último trimestre de 2020 foi de 14,4%, subindo para 17% entre as mulheres. A taxa de participação destas na força de trabalho remunerada caiu para 46,3%, a menor em 30 anos", informam as cientistas, salientando: "Há uma ausência completa de políticas públicas voltadas a apoiar as mulheres e meninas neste momento de crise humanitária" e "é preciso exigir que o Estado brasileiro cumpra seu papel e a partir de uma perspectiva de gênero".

A Rede considera estratégica a implementação de políticas dirigidas às mulheres em torno de seis grandes temas: Saúde; Violência; Educação; Assistência social e Segurança alimentar; Trabalho e Emprego; Moradia e Mobilidade. "As propostas para essas políticas já estão prontas. Há muito acúmulo de conhecimento, produção altamente qualificada e experiências em torno desses seis temas. O que queremos com nossa articulação é levar essas respostas para o centro do debate público, buscando uma abordagem integrada em torno das necessidades cotidianas das mulheres", conclamam.

Nesse sentido, a atuação da rede se dará essencialmente junto aos gestores públicos, em diferentes níveis da federação, oferecendo conhecimento técnico, sob a forma de cartilhas e protocolos, para ampliar a capacidade de resposta dos órgãos públicos, bem como a jornalistas, entidades do Judiciário e organizações feministas. A intenção é propor "uma campanha nacional de comunicação de risco durante a emergência, até hoje jamais realizada no Brasil, com ênfase em questões de gênero".

A Rede planeja ações que tenham retorno também de médio e longo prazo, considerando "não apenas a extensão temporal da atual pandemia, como as evidências científicas, amplamente reconhecidas pela comunidade internacional, de que novas pandemias estão a caminho".

Zero letalidade e internações

Outro ponto central da atuação será a sistematização e difusão de experiências exitosas de resposta à pandemia, sobretudo as periféricas, tanto de auto-organização de comunidades como de governos locais, com ênfase na participação de mulheres nesses processos. Experiências como das comunidades do Complexo do Alemão/RJ e Paraisópolis/SP, das prefeituras de Araraquara/SP e Niterói/RJ, e também como do Projeto Fordan, da Pró-Reitoria de Extensão da Ufes (Proex).
Projeto Fordan

Realizado desde 2005 na Grande São Pedro, em Vitória, o Projeto Fordan conseguiu, em seu último ano de atuação, pandêmico, alcançar zero mortalidade e zero internações por Covid-19 entre as 57 famílias atendidas. "Salvamos muitas vidas", reconhece a fundadora e coordenadora-geral, Rosely Maria da Silva Pires, professora do Centro de Educação Física e Desportos (CEFD/Ufes).

A chave do sucesso, acredita Rosely, está na confiança das famílias em relação à equipe. "Quando começou a pandemia, o isolamento social, o trabalho já existia há 15 anos, já havia a confiança".

A equipe de 21 pesquisadores se organiza nos núcleos de saúde, psicologia, cultura, educação e sociojurídico, além das ações de distribuição de alimentos nas casas das famílias.

Os elementos-chave do sucesso, avalia Rosely, são: a multidisciplinaridade (a equipe tem profissionais das mais diversas áreas humanas, biomédicas e jurídicas); a metodologia de pesquisa-intervenção (onde a escuta é o ponto de partida para a ação); o paradigma indiciário (que considera as pistas e indícios percebidos pelos diversos profissionais, integrando-as numa visão mais afetiva e integral de cada pessoa); e o trabalho em rede (integrando diversas instituições parceiras e a assessoria de diversos especialistas).

E, claro, o comprometimento pessoal de cada membro da equipe. Antes da pandemia, exemplifica a coordenadora, os encontros eram semanais no bairro. Com o isolamento social, a comunicação era diária, permanente, via telefone e redes sociais.

A comunicação empática e em tempo real foi fundamental para manter a segurança sanitária das pessoas atendidas. "As respostas no tempo certo foram fundamentais", salienta. Se uma pessoa telefona para a equipe relatando sintomas gripais, exemplifica Rosely, imediatamente é acionado um especialista para avaliar a necessidade e o momento adequado de enviá-la ao serviço de saúde para diagnóstico presencial, testagem e tratamento/isolamento. Com isso, foi possível evitar a saturação dos serviços de saúde da região e não registrar nenhum óbito ou internação pela Covid-19.

As contaminações ocorrem em 18% da população atendida pelo Fordan, mas 87% procuraram a unidade de saúde para o devido diagnóstico e acompanhamento, número muito mais alto que a média de 40% que procura o serviço de saúde, segundo o inquérito sorológico de 2020 conduzido pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).

Os principais sintomas relatados pelos infectados foram perda do paladar e do olfato, e febre e dor de cabeça. Setenta e cinco por cento não tiveram sequela e 18% apresentaram outras doenças, como chikungunya, sintomas gripais e dengue.

O isolamento social também foi muito acima da média capixaba, que está em torno de 40% durante os dias úteis, com picos de pouco mais de 50% aos domingos. Entre as famílias atendidas pelo Fordan, 64% responderam terem conseguido ficar em casa em mais de 70% do tempo; 30% em até 40%; e 12% se mantiveram em isolamento em 60% do período monitorado.

Na pesquisa sobre quais foram as ajudas mais importantes fornecidas pelo Projeto, as pessoas relataram dois aspectos que, na avaliação de Rosely, explicam em grande medida o elevado isolamento social alcançado e, consequentemente, os resultados de saúde: ajuda financeira e alimentícia e ajuda psicológica e emocional.
Projeto Fordan

"Enquanto todo mundo corria para a porta dos bancos em busca do auxílio emergencial, porque não conseguia pedir pelo celular, nossa equipe montou uma estrutura para fazer o cadastro de todas as mulheres que tiveram dificuldade", conta. Além disso, as cestas básicas arrecadadas eram entregues na porta de casa, nas mãos das mulheres, fortalecendo-as, como forma de ajudar a blindá-la contra a violência domiciliar.

Já o suporte psicológico e emocional se deu durante todo o tempo, por meio da metodologia de trabalho, que identificou problemas emocionais em 75% das pessoas atendidas.

"A gente só age a partir da escuta, do que a periferia realmente precisa. E depois continua ouvindo pra monitorar como as pessoas se movimentam", conta Rosely, destacando que a equipe conhece profundamente cada uma das famílias. "Sabe quem toma qual remédio, quais as comorbidades, quantos cômodos em cada casa, quem se mudou, quem continua na mesma casa...", elenca. "Somos o único projeto do Brasil que conseguiu fazer o monitoramento completo de um grupo controle", destaca. 

A escuta, ressalta, é honesta e livre. "A pesquisa-intervenção faz a escuta e observa o movimento. O pesquisador não leva um conhecimento que ele produziu, ele produz o conhecimento para e com as pessoas no território", caracteriza.

Nessa caminhada, foram publicadas apostilas de saúde mental, enviadas com kits de lápis de cor e atividades para serem feitas com as crianças mantidas em ensino remoto; e uma cartilha de acolhimento das mulheres em isolamento social, solicitada pela subsecretária de Estado de Políticas para as Mulheres, Juliane Barroso, que integra o Fordan, e distribuída em todo o Estado pelo governo; além de aulas de aulas de balé para as crianças, eventos internacionais de artes, entre outras atividades e publicações.

 A Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, acredita Rosely, pode ajudar a divulgar os métodos e resultados alcançados, contribuindo para uma base de referência para a proposição e implementação de políticas públicas efetivas de proteção às mulheres nesta e nas próximas pandemias. "Se a gente consegue esses resultados com pouquíssimos recursos e doações das comunidades, se houver o desejo político sincero, podemos conseguir muito mais", pondera.

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