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Skatistas da Serra cobram pista prometida em projeto para Jacarípe

Gestão do prefeito Weverson Meireles teria se comprometido em construir espaço

Orla de Jacaraípe. Foto: PMS

Um grupo de skatistas de Jacaraípe, na Serra, cidade da Grande Vitória, tem intensificado a cobrança para que a gestão municipal cumpra com o que estava previsto no projeto original de reurbanização da orla do bairro: a implantação de uma pista de skate com simulador de surf. A demanda, segundo os praticantes, remonta à gestão do ex-prefeito Sergio Vidigal (PDT) e foi reafirmada pelo seu sucessor, Weverson Meireles (PDT), mas segue sem avanços concretos, mesmo após a entrega da primeira etapa da obra, no final de 2024.

O representante da Associação de Skatistas da Serra (ASKS), Leonardo Neves de Jesus, relata que o prefeito Weverson Meireles recebeu as críticas da comunidade e realizou, em dezembro de 2025, uma reunião com moradores e representantes locais, na qual apresentou a proposta de estender a orla e refazer trechos da Castelândia.

Nessa ocasião, segundo o skatista, houve uma nova promessa de que a área destinada à modalidade seria contemplada na segunda etapa do projeto. “Foi garantido pelo atual prefeito que essas pistas vão acontecer. Agora, a associação está se articulando para tentar ter um contato mais direto com o projeto, entender onde vão ser as pistas e o que de fato vai acontecer”, explica.

Reconhecido historicamente como um dos principais polos do skate e do surf no Espírito Santo, Jacaraípe reúne gerações de praticantes das duas modalidades, que veem na ausência de equipamentos esportivos adequados um símbolo de apagamento cultural e descaso com uma identidade construída ao longo de décadas – conforme enfatiza Leonardo, que é morador de Jacaraípe desde 1990, participa de competições desde 1993 e realiza eventos da modalidade há mais de 25 anos. “Foi o principal polo do skate da Serra e do Espírito Santo, ganhava todos os campeonatos. Hoje, o skate aqui está regredindo porque não tem estrutura”, relembra.

Segundo o representante da associação, o projeto original da orla previa uma pista de skate, mas o equipamento acabou retirado da versão final da obra. “A demanda da orla sempre foi essa. No projeto ia ter a pista, mas acabou não sendo entregue”, resume. O grupo observa que é o segundo verão desde a inauguração da orla sem que nenhuma dessas promessas tenha saído do papel, e critica a falta de transparência e de prazos definidos.

“Na orla que ele já entregou, tinha um projeto mesmo de pista de skate, mas ele não quis fazer. E nesse novo projeto também não ia ter um espaço para isso. Só depois de uma reunião com o vereador da região [Antônio C&A, do Republicanos] veio essa promessa de incluir a pista na segunda parte, mas não temos informação de quando isso vai ser entregue, nem por que mudaram o projeto original”, afirma Leonardo.

De um lugar reconhecido por ser um dos pontos onde a cultura ganhou força no Estado, Jacaraípe passou a perder essa tradição por falta de estrutura, avalia o porta-voz da associação. Hoje, a região conta apenas com uma mini rampa considerada inadequada e insegura pelos praticantes, por ser antiga, mal projetada e fora dos padrões técnicos. “No meio da transição tem um quebra-mola. Na hora que você abaixa para fazer a manobra, você passa por ele e perde toda a base. Não tem conserto, é só quebrando mesmo. Se for para fazer, é melhor derrubar e construir uma pista de verdade”, critica.

A ausência de um local adequado obriga skatistas da região a se deslocarem para outros bairros da Serra, como Serra Dourada, Porto Canoa, Feu Rosa, Bicanga e Civit, aponta. No entanto, Leonardo argumenta que essas pistas não atendem à lógica de fortalecimento da modalidade. “Eu preciso pegar três ônibus para chegar na pista de Civit, e lá nem tem skatista da região. Fica cheio de criança que não usa o lugar para andar de skate e os pais brigam conosco porque é perigoso. A importância de ter pista onde tem skatista é criar uma ‘crew’, um grupo que desenvolve o skate”, explica.

Além da pista, a associação cobra outras promessas feitas ainda na gestão de Vidigal, como a criação de uma escolinha de skate e de um circuito municipal. “Ele prometeu três coisas: pista, circuito municipal e escolinha. Pista até tem em outros bairros, mas escolinha e circuito nunca aconteceram. Aqui em Jacaraípe, a nossa escolinha acabou fechando depois que destruíram os obstáculos que nós mesmos construímos na quadra que usávamos para as aulas, ainda em 2019, e depois veio a pandemia”, relembra.

Obstáculos construídos por skatistas foram desmontados pela prefeitura. Foto: Arquivo pessoal

A indignação da comunidade foi formalizada em uma nota de repúdio divulgada nas redes sociais nesta semana. No texto, moradores, surfistas e skatistas afirmam que o projeto da orla foi entregue de forma incompleta, apesar do alto investimento de recursos públicos. “O dinheiro investido é dinheiro público, vindo dos nossos impostos, e o projeto apresentado previa claramente pista de skate e simulador de surf. No entanto, a obra foi entregue sem esses equipamentos”, criticam.

O grupo destaca ainda que Jacaraípe é reconhecida pela cultura do surf e do skate, mas que hoje não há um espaço seguro para essas práticas. “O que temos é apenas um ‘half’ com estrutura degradada, inadequada e fora dos padrões, que não atende a comunidade esportiva. Não estamos pedindo favor. Estamos exigindo o que foi prometido em projeto e pago com dinheiro público”, reforça o texto.

Além disso, a nota ressalta que conhecimento técnico e mão de obra existem na própria comunidade, incluindo construtores de pistas nascidos e criados em Jacaraípe. “O que falta é compromisso. Não podemos aceitar omissão. Se quem deveria lutar por isso se cala, nós vamos levantar a voz”, diz o comunicado.

Para os skatistas, a ausência de políticas públicas voltadas ao esporte ameaça a continuidade de uma cultura histórica da região. “Se não fizer nada, daqui a alguns anos o skate pode desaparecer aqui, como já está acontecendo. E Jacaraípe sempre foi referência”, alerta Leonardo. A associação afirma que tenta agendar uma nova reunião com a Secretaria Municipal de Esporte para discutir as demandas. Enquanto isso, os praticantes prometem seguir mobilizados. “Não é luxo. É cultura, é esporte, é identidade e é direito”, reforça a nota.

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