O brasileiro é, antes de tudo, um boa-vida. Insatisfeito com o que considerava deficiência de caráter, e inspirado no ‘Irmão do norte’, que prosperava graças a uma nova casta formada pelos self-made-men, Getúlio Vargas encomendou um sambinha mais de acordo com seus planos de desenvolvimento, louvando o dar-duro para felicidade geral da nação e infelicidade do povo em geral. “Trabalhar eu quero, sim, pois o trabalho faz muita falta pra mim…”
Um atentado aos direitos do homem, sem dúvida, além de propaganda enganosa, pois o samba foi encomendado. Sem perder a malícia, o povinho respondeu com outro samba, Trabalhar, eu não – “Eu trabalhei como um louco, até fiz calo na mão, meu patrão ficou rico, e eu pobre sem tostão…” Influência do clima, do sangue tapuia, ou simples filosofia de vida, fato é que o brasileiro nasceu sabendo que a melhor ocupação é não fazer nada. Ou fazer o menos possível.
E proliferam os apadrinhados nos cargos públicos, e atrás deles se estica a longa fila dos sem-padrinhos, tentando outros meios para chegar lá. Do jeito que vão as coisas, está dando menos trabalho arranjar um emprego de sol-a-sol do que passar num concurso público. Subprodutos da lei do menor esforço são também a loteria e a proliferação de bolsas disso-e-daquilo com que o governo presenteia quem não tá a fim de enfrentar ônibus lotados e salário incompatível com as qualificações.
Cem anos antes de Getúlio, o americano Frederick Douglas criava o conceito do self-made man, o sujeito que veio do nada e subiu na vida por seus próprios esforços – o ideal americano, cujo melhor exemplo foi Benjamin Franklin. Douglas não acreditava no fator sorte e em bons relacionamentos – hoje chamados network – para se alçar aos píncaros da pirâmide social. Segundo ele, as oportunidades são valiosas, mas a força motriz é o esforço físico e mental. Daí o sucesso da ideia, qualquer um pode chegar lá, se trabalhar duro.
O conceito não pegou entre nós, e poucos dos nossos magnatas realmente se fizeram sozinhos, talvez por falta de incentivos e por nossa endêmica instabilidade econômica. Preferimos não correr riscos, trabalhando demais sem garantia de recompensas, seja a curto ou longo prazo. E vamos vivendo, porque Moisés não criou mais um mandamento condenando a sombra e água fresca. Jesus prometeu o paraíso aos justos, não aos trabalhadores
Também não citou em parábolas os afazeres do céu, e cabe a nós imaginar o que não teremos – tráfego congestionado, relógio de ponto, metas a atingir, relatórios e planilhas a preencher, produtividade, guerrinhas internas por promoções, descontos por ausências e negligências, risco de ser eliminado por ineficiência ou corte de verbas. Acima de tudo, estaremos livres das lucubrações matemáticas para encaixar o salário nas necessidades mensais… O paraíso terá o dolce far niente… sem televisão, Internet, Facebook, FaceTime, Instagram, iPhone, praia e cerveja gelada.

