Dentro das quatro grandes linhas dos gramados, o futebol comporta um certo grau de violência física que deve ser controlada pelos árbitros conforme regulamentos internacionais.
Os cartões amarelos e vermelhos são exibidos aos atletas infratores não para humilhá-los, mas para informá-los de que no último lance houve uma infração tipo tranco por trás, chute sem bola, cotovelada, cusparada etc – e para que os jogadores mais distantes e o público assistente também saibam o que aconteceu. Gritos, contorções, empurrões costumam fazer parte das cenas, pois até em jogos da quarta divisão tudo é filmado.
Mesmo com normas tão conhecidas e debatidas, entre os jogadores prevalece a ideia de que futebol é jogo pra macho, conforme o antigo conceito de que só é homem quem sabe dar porrada, de preferência sorrateiramente.
Nas arquibancadas, influenciados pelo teatro dos atletas, os torcedores mais exaltados deixam a emoção transformar-se em agressões contra os adversários, dando origem a cenas que as câmeras de TV focalizam — mesmo que o jogo continue –, enquanto os locutores se põem a lamentar cinicamente as ocorrências extracampo, reclamando “que se coíba a violência”.
Note-se que, no contexto da violência dos estádios, as mulheres não participam, seja porque são minoria, seja porque a agressão física não faz parte do seu universo. Elas vão aos estádios por companheirismo ou para se divertir. Quanto às crianças, nem é bom pensar como encaram os excessos dos torcedores dos seus times.
A associação entre o futebol e a violência se tornou um tema urgente no Brasil prestes a sediar a Copa do Mundo. Estamos a apenas seis meses da abertura. E vai ser no estádio do Corinthians, o time mais popular do país e com torcedores frequentemente envolvidos em “cenas lamentáveis”.
O futebol nasceu como brincadeira há pouco mais de 100 anos. No correr das décadas, depois de vencido o período do amadorismo (que segue nas várzeas, nos clubes sociais, nos quartéis, nas penitenciárias, nos ginásios esportivos), foi se transformando num esporte competitivo.
Primeiro foi a profissionalização dos boleiros nos anos 1930. Na primeira Copa do Mundo, em Montevideo, as partidas foram documentadas apenas por repórteres da imprensa, fotógrafos e câmeras do cinema. A partir de 1938 o rádio deu uma boa incrementada nesse esporte e a TV mais ainda, a partir dos anos 1970, quando a comunicação por satélite tornou instantânea a transmissão de jogos de um continente a outro.
Depois, com a transformação dos clubes em empresas, abriu-se o caminho para que o futebol se sujeitasse ao business. Os patrocinadores e a TV de um lado, os empresários de jogadores de outro, e eis o futebol destituído do seu charme original, quando tudo girava em torno dos caprichos da bola, sem interferências econômico-financeiras externas.
Sim, até a bola, metáfora suprema de um planeta esférico, virou um objeto mercantil e, como tal, manipulado ao extremo para gerar negócios, promover marcas e, por incrível que pareça, operar como uma não-bola, capaz de ludibriar os goleiros com trajetórias inesperadas e distorcidas.
Aí está o X da questão: a distorção produzida pela dinheirama investida no futebol está gerando comportamentos bizarros e perigosos. Há atletas milionários que jogam olhando para o telão que reflete sua imagem. São os narcisos modernos. Esse espetáculo que mistura o aqui-agora e o replay do lance anterior em escala planetária, atrai e encanta empresários, publicitários, jornalistas e também pessoas carentes ou revoltadas, que se juntam em torcidas organizadas não para torcer de forma saudável, mas para descarregar frustrações com um viés homicida. Uns querem destruir os outros. Essa luta se dá na base social cujos integrantes para pagar os ingressos só acessíveis aos abonados precisam até cometer infrações (como roubar, traficar ou fazer algum tipo de serviço sujo) para ter acesso aos estádios onde participam de uma multidão delirante a todo o momento focada pelas câmeras de TV. No campo, nas arquibancadas, nos telões e nas telinhas, um lance realimenta o outro e assim se constroem os grandes espetáculos de massa dos tempos modernos (os shows de música com megacaixas de som, luzes e gelo seco são outro departamento do mesmo mundo do business).
Quem alimenta esse espetáculo são emissoras de rádio e TV que dispõem de patrocínios capazes de sustentar equipes numerosas e especializadas em gerar notícias, explorar versões, estimular debates e obter declarações de pessoas – os atletas, os cartolas e outros – aparentemente crentes de que a bola cumpre um desígnio divino. “Obrigado, Senhor”, exclamam os jogadores ajoelhados no gramado, braços abertos, mãos em prece, após marcar um gol.
Você aí parado diante da TV acha que Deus interfere nos resultados das partidas?!
Assim os estádios monumentais vão se equiparando a templos. Nenhum esporte chegou tão longe em fanatismo e manipulação. A sociologia precisa se ocupar urgente desse negócio.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Mais de 1,1 mil atletas na Europa são propriedade de fundos de pensão, empresas e acionistas, numa aposta de mais de US$ 1,2 bilhão”
Jamil Chade, correspondente de O Estado de S. Paulo em Genebra, na primeira quinzena de dezembro de 2013, citando uma pesquisa da KPMG

