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Quarta, 03 Março 2021

A Casa Invadida (miniconto)

Existia um morador de uma casa, esta tinha alguns cômodos, uma sala, uma cozinha e um banheiro, ele vivia na casa meditando e vendo coisas que lhe faziam pensar. O dono desta casa era ele e seus sonhos, ele via coisas e as anotava em seu caderno. Estava fazendo um livro e tinha anotado várias ideias para outros livros. Certo dia, em uma destas suas meditações ele teve uma intuição e divulgou como uma carta náutica para o mundo, seu mundo de ideias agora estava circulando por outras paragens, houve um burburinho, ele pensou que poderia ser algo, mas depois preferiu deixar para lá.

A movimentação estranha se deu, na primeira semana, com um evento perto de sua casa, um canto esganiçado de maus cantores, eles cantavam frases sem sentido, passavam várias pessoas fazendo gestos inusuais, e este dono desta casa via tudo pela janela, um dos cantores fingia estar bêbado, olhava para a janela com um ar irônico, este dono da casa pensou, olhou bastante para aquele conjunto de maus cantores, mas voltou para seu quarto, e foi escrever pensamentos sobre a vida e de como tudo poderia transcender a qualquer momento.

Passaram-se uns meses, o dono da casa ouvia uns barulhos estranhos perto de sua janela, eram garotos jogando bolas de tênis na parede da casa, o dono da casa ficou aliviado que não eram pedras, pensou que aquilo era muito estranho, os garotos riam e tacavam aquelas bolas, durou uma tarde inteira, tanto que o dono da casa não conseguiu terminar o que estava escrevendo, foi fumar na cozinha e comeu uma banana.

Mais meses se passaram, o dono da casa sentia que seu trabalho escrito estava progredindo, ele se empolgava com tudo o que lia e escrevia, não parava, era um bom vício, ele gostava de ficar no seu quarto fumando, e gostava de escrever ouvindo muita música, fumava, lia e escrevia, ouvindo música. A casa se iluminava, ele escreveu algo extraordinário enfim, seu júbilo foi máximo, havia um tipo de luminosidade sobrenatural tomando-lhe naquele quarto enfumaçado, e seus escritos brilharam como nunca.

Mais um mês se passou, o dono da casa bebeu um bocado num dia, passou uma tarde bebendo e disse uns impropérios, logo no dia seguinte nem se lembrava mais, tinha sido um festim de bêbado quando lembra de alguma coisa e depois esquece de novo. Passou mais um mês deste dia e apareceram uns motociclistas fazendo ameaças diante de sua janela, o dono da casa não entendeu nada e desafiou a turba dando baforadas de seu fumo, e ao grupo de motociclistas se juntou outra turba de delinquentes juvenis portando facas e canivetes, o dono da casa riu daquilo tudo, fechou a janela e foi ler.

Ele passou muitos dias lendo desde aquele dia estranho daquela turba enlouquecida, e anotou mais algumas ideias, e depois se mandou para a boêmia, voltava para a sua casa sempre com um ar superior e glorioso, de uma juventude sem fim. Aquela turba nunca mais tinha aparecido, o dono da casa não tinha entendido muito bem aquela barulheira perto de sua casa, e não lhe importava, ele nem sabia se lembrava bem, dava baforadas em seu fumo, e estava tudo bem.

Contudo, num dia de calor, bem estranho, apareceu um sujeito armado, atirou na janela de sua casa, só que não bateu na janela, o atirador acertou a parede, e logo foi contido por policiais, ele foi detido e não se sabe de seu paradeiro, na hora deste tiro o dono da casa estava fumando, depois foi ouvir música, e se mandou novamente para a boêmia, voltando com o mesmo ar superior e glorioso de sua juventude sem fim. Ele escreveu mais umas coisas, passou uma semana e o dono da casa percebeu que sua parede tinha mesmo era marca de tiro e mandou degolar o infeliz.

Passou mais uma semana e parecia que estavam fazendo uma festa louca perto de sua casa, o dono da casa não entendeu quase nada, mas sabia que tinha coisa boa no ar, foi novamente para a boêmia, viu uns amigos, botou o papo em dia, voltou para a sua casa e foi fumar. Ele então olhou para seus escritos, e lembrou de recolher aquelas suas iluminações que tinha escrito em transe, salvou suas pérolas e se pudesse colocaria num cofre. Ele começou a vislumbrar de fato um livro que estava surgindo, e continuou o seu trabalho escrito, foi ler e estudar, e conseguiu um trabalho para poder beber na noite.

Passaram-se daí vários meses, de vez em quando apareciam uns malucos perto de sua casa fazendo libras ou gestos idiotas, ele sempre entendia aquilo como piada, e continuava escrevendo, pois sempre tinha malucos na rua, parecia ser já algo normal e corriqueiro. Volta e meia, pintavam quadros e passavam uns malucos perto da janela de sua casa e faziam sinais com as mãos.

O dono da casa estudou e trabalhou bastante, lia e escrevia muito também, e seguiam estes sinais estranhos, e que tinham um mesmo padrão de repetição. Eram malucos desavisados que passavam perto de sua janela sem bem saber o que estavam fazendo de fato, era um bando de desocupados que, de vez em quando, ainda tentavam fazer gestos como num tipo de língua estranha feita para alienados. Doutra vez, colocaram um outdoor em frente à janela do dono da casa, e nada do que estava desenhado ali fazia qualquer sentido.

Passou agora um tempo longo, e depois do dono da casa ter tomado uma decisão drástica, apareceu uma turbamulta revoltada tacando ovos no vidro de sua janela, ele limpou a janela e avisou o guarda da rua para ficar de olho naqueles vândalos e tomar as medidas cabíveis se for o caso. A coisa logo acalmou, o dono da casa começou a preparar seus livros, ele tinha feito um acordo de trabalho pleno com tudo o que acreditava, a defesa de seus valores, custe o que custar, e não foi caro, a casa estava limpa, o caminho estava aberto, ele abriu a janela e olhou para um céu azul e limpo, ele ia dar um mergulho no mar.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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