As correntes existem desde que os fenícios inventaram o alfabeto. Eram cartas prometendo alguma coisa para nos fazer felizes desde que seguíssemos suas instruções, mas ameaçando castigos terríveis para quem quebrasse a corrente. Os temas variavam, as mais singelas repassando orações infalíveis para males e amores, e as mais ousadas pedindo dinheiro – Mande uma nota de um Cruzeiro para 10 pessoas, e receberá de volta mil Cruzados
Muitas chegavam a dar exemplos irrefutáveis de desgraças ocorridas com os relapsos: Josias Dasquantas interrompeu essa corrente e no dia seguinte perdeu o emprego, a mulher e a amante; Gina Pradaria perdeu um filho; o sultão de Ulajá foi assassinado. Naqueles idos as mensagens trafegavam via correio, eram entregues pessoalmente ou deixadas em baixo das portas. Quase sempre eram enviadas por amigos, vizinhos e parentes, mas nunca se sabia onde começavam e como acabavam.
Quando eu era criança o troca-troca de correntes era intenso, muita gente boa seguia. Confesso publicamente que participei de uma para mandar um brinco – envie para sete pessoas e em pouco tempo você receberá 49 brincos. Efeito cascata, ou matemática progressiva. Se interromper, suas orelhas vão inchar. Mandei e nunca recebi nenhum brinco de volta. Participei de outra para mandar uma receita culinária – até hoje estou esperando as respostas.
Com o tempo, as cartas-correntes desapareceram do convívio social, mas voltaram com força total com o advento da Internet – meus emails viviam cheios de mensagens, o que não deixa de ser irônico – um meio de comunicação moderníssimo reativando uma brincadeira antiquada e idiota. Parece que não pegou, pois não repassei nenhuma e nunca recebi nada de volta nem sofri nefandos castigos – se não repassar essa mensagem para dez pessoas, seu computador vai pegar um vírus.
Nem tão tolas assim, as correntes na verdade refletem a vida real. Tanto os pequenos atos do dia a dia como os grandes eventos esporádicos provocam efeitos cascata – para tristeza de uns e a felicidade de outros. Aconteceu com Neido, que perdeu uma ação na justiça movida por Maria, sua ex-funcionária, e teve que pagar indenização. Sentindo-se infeliz, Neido despediu outro funcionário, o Bido, porque era amigo de Maria. Sentindo-se infeliz, Bido se excedeu na cerveja e deu uma surra na mulher, Carla, que ficou muito infeliz e o abandonou.
Maria, porém, ficou muito feliz com o dinheiro ganho e comprou uma casa, fazendo o vendedor e o corretor mais felizes ainda. A casa precisava de reparos e Maria chamou um pedreiro, que ficou muito feliz com o serviço. Mais feliz ainda ficou a esposa, porque o marido lhe deu um presente. E assim as correntes reais vão se esticando infinitamente. Se você conseguiu ler até aqui, me fez feliz, portanto, vou dar uma boa gorjeta no restaurante onde vou jantar. A garçonete vai ficar muito feliz, e ao chegar em casa…

