Já faz mais de 15 dias que o deputado Bruno Lamas (PSB) abriu mão da vaga de membro efetivo da CPI do Pó Preto. Em princípio, a renúncia de Lamas asseguraria a vaga para Gilsinho Lopes (PR) na comissão, como era desejo do socialista.
A entrada do republicano na comissão era uma maneira de fazer justiça ao deputado, que já havia gestado a mesma CPI em 2013, sem sucesso, e, desde o início da atual legislatura, articulava a abertura de uma nova CPI, que acabou sucumbindo à manobra do Palácio Anchieta, que decidiu criar uma comissão própria, com DNA governista.
A CPI que já nasceu com a credibilidade comprometida, vem articulando sistemáticas manobras para evitar que a investigação saia do controle palaciano.
A mais nova manobra foi operada nesta terça-feira (10), durante sessão da Assembleia. O presidente da Casa, Theodorico Ferraço (DEM), respeitando o critério da proporcionalidade, repassou a vaga de Lamas para o PMDB. Hércules Silveira foi o nome indicado pelo partido para preencher a vaga. O deputado, que inclusive recebeu dinheiro das poluidoras, também abriu mão da vaga.
Mais uma vez, criou-se a expectativa de que as lideranças dos outros partidos também renunciassem à vaga para que o deputado Gilsinho assumisse. Afinal, a entrada do deputado na CPI é uma demanda legítima da sociedade civil organizada, que há anos vem se mobilizando contra as emissões das poluidoras Vale e ArcelorMittal.
Os militantes das ONGs acreditam que Gilsinho é o único parlamentar disposto a encarar as poluidoras com firmeza. Eles também confiam ao deputado a função de fiscal dos colegas, para que a investigação não tenha um desfecho melancólico.
Após Hércules renunciar, no entanto, Ferraço passou a prerrogativa de ocupar a vaga para o PT, segundo partido com maior representatividade na Casa. O líder petista, Rodrigo Coelho, porém, se prevaleceu do prazo regimental de 48 horas para anunciar a decisão do partido, ou melhor, do Palácio Anchieta.
Se Rodrigo Coelho estivesse disposto a entregar a vaga a Gilsinho, já o teria feito nesta terça. O petista que comandou o blocão — muito mal por sinal — que definiu a composição das comissões permanentes da Casa, poderia, se quisesse, ter articulado a vaga para o republicano. Mas esse não é o desejo do governador Paulo Hartung, que vem diminuindo os espaços para os seus desafetos na Assembleia, como no caso da recente manobra para tirar de Sandro Locutor (PPS) a vaga de corregedor.
Da maneira como está CPI está sendo encubada, melhor seria para Gilsinho ficar mesmo de fora. Não é preciso consultar uma bola de cristal para prever que está investigação não vai dar em nada. Pior, os deputados ainda vão tentar se promover à custa da saúde da população.
As manobras articuladas pelo Palácio Anchieta, desde os primeiros movimentos de Rafael Favatto (PRP) para criar a CPI, são as evidências mais incontestes de que está se armando um grande teatro. E não uma apresentação mambembe que eles estão preparando, mas um espetáculo com tudo que se tem direito para convencer o público: roteiro bem elaborado, produção de primeira, efeitos especiais e plateia para aplaudir.
A estratégia é dar a carga de realidade necessária para mostrar à sociedade que a CPI do Pó Preto cumpriu seu papel. No final, se firma um desses termos de ajustamento de conduta com as poluidoras, que prometem adotar algumas medidas para mitigar o problema.
As manobras que foram feitas nos bastidores até agora são tão intensas que já tornaram maiores que a CPI em si. Nesse cenário repleto de armadilhas que se desenha, o deputado Gilsinho sai ganhando permanecendo do lado de fora, fazendo o papel de fiscal da CPI. De fora, ele fica numa posição muito mais confortável para, ao lado da sociedade, jogar pedra na CPI.

