Em recente entrevista a Século Diário, o deputado Gilsinho Lopes (PR) denunciou que há um número excessivo de policiais, que deveriam estar nas ruas protegendo a população, mas que estão fazendo a segurança de autoridades, sobretudo políticos e magistrados. Na edição desse domingo (13), o jornal A Tribuna retomou o assunto. A chamada da reportagem cravou: “Mais de 100 policiais só fazem escolta”.
Como o deputado já havia adiantada na entrevista a Século Diário, o juiz Carlos Eduardo Ribeiro Lemos é o caso mais polêmico dos escoltados: tanto pelo número de policiais envolvidos na escolta da família Ribeiro Lemos (falam em 16 policiais) quanto em relação ao tempo que dura a escolta: mais de 12 anos.
Na abordagem de A Tribuna, como não podia ser diferente, o juiz voltou a ser o personagem central da reportagem. Foi feita até uma pequena entrevista com Carlos Eduardo, que extravasou o sofrimento de viver sob escolta permanente. “Andar escoltado é perder a liberdade, ter invadida a privacidade e perder seus amigos. E ver pessoas com medo de você”.
Logo em seguida, ele emenda, talvez querendo dar uma resposta ao deputado Gilsinho Lopes, que citou o caso do magistrado na entrevista a Século Diário. “Tem gente que acha que ter escolta é luxo. Isso é uma bestialidade (…)”. Mais à frente complementa: “Vivendo como eu vivo, em partes sei que querem me matar simplesmente por ter feito meu trabalho”.
Ora, o juiz parece muito conformado com essa incômoda situação. Por que o Ribeiro Lemos não pede mais empenho por parte da polícia para que ele e sua família sejam libertados dessa apavorante situação que já dura mais de uma década? Será que a polícia é tão incompetente a ponto de de não identificar os detratores do magistrado? Se isso é verdade, tem de mandar fechar a polícia. Não é aceitável que uma instituição treinada para desvendar crimes não consiga prender criminosos que ameaçam um juiz. Se a polícia capixaba não tem competência para esclarecer o crime, que peça ajuda à Polícia Federal. Só não aceitável que uma situação de ameaça perdure por tanto tempo.
O próprio juiz ainda diz em outro trecho da entrevista: “Hoje, há informação de inteligência de que não posso me livrar dessa escolta”. Com todo respeito, digníssimo juiz, se a “inteligência” sabe que sem escolta o senhor corre risco, mas mesmo assim não identifica os criminosos, temos que passar a chamar o setor da polícia que lhe deu essa informação de “desinteligência”. De acordo com as palavras do juiz, as ameaças são recorrentes, mas nem assim a polícia desvenda o crime.
Percebam quantas pistas o juiz deixa para a polícia sobre seus detratores: “Meu sonho era poder andar desarmado e sem o incômodo que é ser escoltado. Mas ainda existem pessoas, inclusive militares, interessadas na minha morte”.
Não é possível. O juiz dá a entender que sabe quem são quem são seus algozes, mas mesmo assim a polícia não consegue identificá-los e prendê-los, apesar do risco que o juiz diz correr: “Podem até me matar, mas vou morrer de pé e lutando, como todo magistrado sério o faria”.
Embora o juiz esconjure a escolta, ele deveria levantar aos mãos para o céu e agradecer o privilégio que é assegurado a poucos neste Estado e no Brasil. Ribeiro Lemos não pode se esquecer que vivemos no segundo Estado mais violento do país. Nessa lógica perversa do crime, as chances de um cidadão comum ser assassinado são muito maiores que as do juiz, que anda com 16 “anjos da guarda”, dispostos a arriscar a vida, como ele mesmo falou, para protegê-lo. Efetivo, aliás, como disse o deputado Gilsinho, não encontrado em muitas cidades capixabas.
O cidadão comum, ameaçado todos os dias pela violência cotidiana, se tiver um dinheirinho a mais, compra um bom cão de guarda, põe alarme e cerca elétrica na casa e reza, reza pra valer. Já os mais pobres, não têm pra onde correr. A segurança deles está entregue à própria sorte, o que não é muito encorajador em bairros que ostentam médias de homicídios de guerra civil. Esses sim podem dizer, sem exagero, que a morte está à espreita e pode arrebata-los a qualquer momento.

