Convenhamos que o atraso na entrega de obras não ocorre apenas no serviço público. Empreiteiros de obras particulares – a pintura ou reforma de uma casa, por exemplo – começam com um orçamento razoável e, depois, à medida que o tempo passa, vão acrescentando itens, agregando tarefas e esticando os prazos de entrega. Há mil desculpas: a chuva, uma infiltração, uma ferrugem, um novo material… Na construção civil, o usual é que os serviços acabem custando o triplo do orçamento inicial.
Isso é parte de nossa cultura. Como chegamos a isso? Há quem diga que é herança do colonialismo luso, que comandou o Brasil por mais de 300 anos e deixou hábitos presentes não apenas nas repartições públicas dominadas por gente que se considera donatária do Brasil, mas também nas casas particulares e nas empresas privadas.
O direito de levar vantagem resultou na famosa Lei de Gerson, da qual o ex-jogador da Seleção foi mero divulgador, patrocinado por uma marca de cigarro (Vila Rica) que oferecia a vantagem de custar menos do que as outras. O ex-atleta ganhou o cachê e nunca mais fez publicidade; perdeu a credibilidade ao anunciar um produto que faz mal à saúde. Isso foi nos anos 70.
De lá para cá, parece que as coisas se agravaram. Nos anos 90 o centroavante Ronaldo Fenômeno comemorava seus gols com o dedo indicador levantado para o alto. Só mais tarde se ficou sabendo que ele era garoto-propaganda da cerveja número 1. Agora estamos vivendo a era Neymar, que representa uma dezena de marcas com as quais não tem afinidade nem intimidade.
Assim vamos cultivando o conformismo em face do que fazem/não fazem as figuras públicas da nossa iniciativa privada. Somos servos da cultura da tolerância diante do faz-de-conta, nome fantasia do dolo.
Boa parte dos brasileiros está saturada desse jogo. A desobediência civil explode ali e aqui, mas o protesto final acaba sendo canalizado não se sabe para onde. Nem sempre o inconformismo acaba nas urnas.
Todas as obras públicas do Brasil são inauguradas antes de ficarem totalmente prontas. E não há notícia de obra entregue no prazo. Pelo contrário, todo mundo sabe que a precisão de orçamentos e de prazos colocada nos papeis não é para valer: ambos são sempre alterados por aditivos a mais, nunca a menos.
Nesse processo, se há multas, são perdoadas ou escamoteadas. Aí está embutida a famosa “graxa” que lubrifica campanhas político-eleitorais e pavimenta o caminho para o enriquecimento ilícito de administradores públicos e privados.
Não se pode generalizar, pois há quem não entre no jogo dos aditivos e complementos, mas quem participa ganha seu quinhão, não necessariamente em dinheiro, mas em outras vantagens, certo? Nesses arreglos, o interesse público sempre sai perdendo.
LEMBRETE DE OCASIÃO
No dia em que uma obra for aditivada para menos, será notícia de primeira página.

