terça-feira, março 24, 2026
28.9 C
Vitória
terça-feira, março 24, 2026
terça-feira, março 24, 2026

Leia Também:

A escrevedora destituída

Meu local de trabalho mantém uma ‘moderna’ máquina de datilografia, doravante aqui cognominada escrevedora, situada em local de fácil acesso para uso dos estudantes. Bem, mantinha, porque não mais que de repente, foi destituída, e em seu pedestal descansa a estátua de um Buda meditativo. Em tempo, trabalho em uma universidade católica, porém aberta a todas as tendências.
 
Pergunto cadê a escrevedora, e sou informada que, após dez anos de intensas pesquisas, descobriram que apenas eu a usava. Portanto, dizem, foi transferida para minha sala. Informo que a usava, de fato, mas raramente, e apenas por saudosismo, portanto, não a quererei, Desta feita, o objeto que um dia foi cobiçado e caro, é removido para nosso chamado Depósito Ecológico, onde ficará à disposição de quem o queira. Mas quem o quererá?
 
Quando morei na América pela primeira vez, coincidentemente em uma universidade, as esposas de estudantes estrangeiros, sem permissão de trabalho, reforçavam a renda mensal como babysitters. Tomei conta de muitas crianças, até juntar o dinheiro suficiente para comprar uma moderníssima escrevedora, e espalhei alguns panfletos para vender meu peixe – Trabalhos de datilografia para estudantes, $1,00 por página.
 
Na época, um dólar era um bom dinheiro, e choveram essays. O serviço de babá rendia $1.00 por hora, e dava muito mais trabalho. Quantas páginas datilografarás em uma hora? Difícil era entender a letra dos estudantes, e as escrevedoras não tinham corretores. Porém, não demorou muito e todas as babysitters do condomínio correram a comprar suas escrevedoras. A demanda caiu, mesmo assim havia bastante trabalho, pois foi num tempo em que não existiam computadores e impressoras a preços de Sandálias Havaianas.
 
Teve um estudante de Bangladesh que me levou 18 páginas para datilografar, mas junto havia uma nota do professor bem específica – o essay deve conter 5 páginas, apenas. Páginas que ultrapassem esse  número serão sumariamente descartadas.  Ligo para o estudante e pergunto se ele entendeu essa observação, afinal, éramos todos estrangeiros. Pagarás mais pelas páginas não lidas?
 
Ele diz que era isso mesmo, apresentará as 18, pois talvez o professor… Tá bom, fiz minha obrigação avisando, e ele nunca voltou para me dizer se o professor aceitou o excesso. Mas duvido muito. Provavelmente não teria tempo ou paciência para refazer o trabalho. E teve uma estudante da Costa do Marfim, linda, o que é redundância – dizem que nesse país todos são bonitos, e os poucos marfinenses que conheci realmente eram.
 
Para me pagar 30 dólares ela me deu duas notas de vinte. Eu não tinha troco e pedi ajuda a meu marido, que deu a ela uma nota de dez e embolsou as duas de vinte. Revoltadíssima, ela pegou outra nota de 20, juntou com a de dez que recebeu, e disse, “Não é justo, portanto, pagarei outra vez”. Recusarei, eu disse, e ela insiste, dizendo que eu não tinha recebido. Deu trabalho convencê-la que era contabilidade familiar, onde um toma lá e o outro dá cá, e no final o balanço sempre fecha.
 
Apenas um estudante me deu o cano, como se dizia no tempo em que os canos eram de chumbo. Das tantas folhas que datilografei, essas foram as únicas que não tiveram o devido retorno monetário, mas até o momento em que rabisco essa coluna, ainda espero que ele fique rico, me ache no Facebook e me mande os  $10 que me deve, com juros e correção monetária. É que os otimistas incorrigíveis nunca perdem dinheiro – o que não receberam tá emprestado, um dia volta.

Mais Lidas