Era uma cidade que não tinha flores. As casas eram belas e coloridas, as crianças saudáveis e os rios cristalinos, mas não tinham flores… O povo vivia sorrindo, sempre dançando e cantando ao som de instrumentos musicais… mas não tinham flores. As aves sobrevoavam a cidade ao nascer do sol e todos acordavam com seu canto; à noite a lua brilhava e todos dormiam de janelas abertas, para admirar sua magia…mas não tinham flores…
No dia mais bonito do ano – a chegada da primavera – o povo saiu às ruas para comemorar o fim do longo inverno. De repente, uma estranha voz encheu o ar, vinda de longe: “Olhem as flores! Flores de todas as espécies e formas! Maravilhosas flores!” O povo acorreu a ver quem chegava com tanto alarido, e viram extasiados uma mulher se aproximando, tendo nos braços grandes cestos com alguma coisa que nunca tinham visto antes.
De cores suaves ou intensas, de formas e estilos dos mais simples aos mais exóticos, havia flores de todos os tipos – grandes, pequenas, perfumadas, viçosas… e todo o povo se encantou com seu perfume e beleza… A voz foi se aproximando, aumentando de intensidade, “Venham ver as flores! Quem vai querer? Baratinho…baratinho…” PS: A autora divulgou este conto para que todos sejam informados de como sugiram os camelôs.
Chamamos de licença poética a liberdade que toma o poeta de transgredir as normas da semântica e da gramática. De acordo com o Wikipedia, “É uma incorreção de linguagem permitida na poesia. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura”. É por isso que nos envolvemos emocionalmente com fatos, coisas e personagens inverossímeis, impossíveis, ou exagerados.
O conto acima é um exemplo duplo de licença poética. Primeiro porque, como todos sabem, seria impossível existir um lugar bonito e ensolarado sem a existência das flores, se até no Ártico elas vicejam (Salix arctica). Pablo Neruda poemou, “Você pode cortar todas as flores, mas não pode impedir que a primavera chegue”. Segundo e mais importante, porque o conto foi ‘roubado’ e um pouco esticado para se adaptar ao formato da coluna e ao espaço que me é concedido.
A autora do conto é Adelzira Madeira, mais conhecida como Zira, e foi divulgado para que todos sejam informados que essa é uma singela mas merecidíssma homenagem – dia 29 de julho a fada das conchas, que há décadas pesquisa, divulga e protege o artesanato de conchas no litoral capixaba, com dois belos livros publicados sobre o assunto, faz 80 anos. Tem certeza? Parece que foi ontem!

