O aumento de 16% nos salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que passarão de R$ 33,7 para R$ 39,2 mil a partir da sanção presidencial, ocorre no mesmo momento em que graves transtornos na região Sudeste e no Espírito Santo, por conta faz fortes chuvas, expõem o desequilíbrio da condução das coisas geridas pelo poder público.
De um lado, a elite favorecida por privilégios intocáveis e sempre em viés ascendentes e, de outro, a maioria da sociedade, desprezada e sequer com seus direitos garantidos. Exemplo é a discrepância no reajuste do salário mínimo, de míseros 1,8%, elevando-o para R$ 956,00, mostrando as próprias condições de sobrevivência das duas pontas da pirâmide social: o topo não está sujeito às intempéries, qualquer que seja o tipo.
Já no chamado andar de baixo, além da dureza do dia a dia, os prejuízos são grandes, em períodos de chuvas fortes, como nesta semana, quando o estrago deixa a nu a ineficiência do poder público no trato para com a periferia dos centros urbanos e a realização de obras embaixo da visão mais ampla da população, como galerias pluviais, saneamento, entre outras.
Nesse aspecto, Vitória aparece com uma das poucas exceções na Região Metropolitana, por possuir um sistema mais ampliado do que os outros municípios, construído na gestão do prefeito João Coser (PT), que reduziu o volume de alagamentos. No entanto, a falta de limpeza periódica, aliada ao sucateamento de equipamentos, ocorrida na atual administração de Luciano Rezende (PPS, vem provocando o retorno de inundações em regiões onde elas não aconteciam.
No contexto geral, no Estado e no País, segue a trajetória elitista de um modelo concentrador de renda, gerando ampliação da pobreza e, em conseqüência, da violência concentrada e prestes a explodir em momentos de dificuldades que vão além das vividas diariamente. A insatisfação, por vezes, surge de repente, como na cena que se segue.
“Se a coisa continuar desse jeito, largo isso aqui e vou pra rua arrebentar com tudo”. Assim falou um dos açougueiros de conhecido supermercado de Vitória nesse sábado (10), faca na mão, lançando o olhar para quatro surpresos clientes que esperavam atendimento, e, depois de ouvir o de um deles, completou: “Está ruim demais e esses caras ainda querem acabar com a aposentadoria da gente”.
“Cala a boca, rapaz”, aconselha o colega, para em seguida concordar, tom da voz mais contido, mas, no entanto, não esconde o desabafo. Fala dos prejuízos das chuvas, os alagamentos, cita casos de famílias vizinhas sob ameaça de desabamento em sua vizinhança, em Cariacica, onde mora, enquanto juntamente com o outro executa o trabalho.
Um dos clientes, trabalhador aposentado, diz que a situação vai piorar com “esse Bolsonaro [PSL], que já botou um cara que roubou no ministério e também vai botar o Magno Malta [PR], você vai ver”. Também na fila, uma mulher dá sua opinião e repete que não vai melhorar.
Negra, da cor “parda” inventada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para mascarar a negritude da população brasileira, uns 50 anos, ela faz questão de explicar que não votou em Magno Malta nem Bolsonaro e provoca um uníssono “eu também não” de todo o grupo, clientes e os dois açougueiros, exceção de outra mulher, branca, que durante os cerca de 15 minutos da conversa, permaneceu muda o tempo todo.
A cena representa a situação de incerteza sobre o futuro do Brasil e confirma que o descaso do poder público para com as coisas que tocam diretamente a base está bem visível, provoca ira e deixa os nervos à flor da pele.

