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Sexta, 23 Outubro 2020

​A força dos 'indignados'

Vejo sem muito esforço, na timeline de ativistas da oposição a Jair Bolsonaro, mensagens contrárias à desastrosa condução do governo e às absurdas ações de seus seguidores, republicadas logo abaixo por textos curtos cheios de indignação e de reprimendas. Um verdadeiro tiro pela culatra, se considerado o infalível contexto dialético no qual um elemento só se mantém na dependência de outro. 

Os bolsonaristas sabem disso e tiram proveito da indignação formalizada desse modo, pois, quando assim colocada, simplesmente como um apêndice à mensagem, nada mais representa do que um meio pelo qual a baboseira original se propaga e se formaliza como um fator a ser levado em conta. Ao dar vazão às declarações estapafúrdias de Bolsonaro, por exemplo, chamando-o de "imbecil", "despreparado" e outros adjetivos, se estabelece um debate inócuo do ponto de vista da oposição, que só o favorece.

A indignação não atinge o seu público, para o qual ele, Bolsonaro, fala e se faz entender com as suas "imbecilidades" colando sua imagem e valorizando-a junto às chamadas pessoas de bem, que o têm como eficiente, um mito. Como se não bastasse, os "indignados" ainda criam vertentes de abordagens e de debates, mantendo-o em permanente foco, ampliando, em consequência, o nível de visualização. Com essa postura, ele garante a dianteira no embate da comunicação, como ocorre desde a campanha que o elegeu, em 2018.

O xingatório para depreciá-lo, da forma como é registrado em rede social, eleva-o dentro do círculo da má política, a que ele está habituado há décadas e que é ignorado pelos que o admiram. De outro lado, joga o debate no rés do chão, em terreno propício para todo tipo de distorções.

Assim, Bolsonaro pode surfar tranquilo nessa onda, enquanto esse tipo de oposição continue a fornecer material para manter o público longe do que realmente interessa. Para piorar o quadro, abre portas para fanáticos com a visão voltada para a fantasiosa ameaça vermelha do comunismo, que, nessa ótica precária, está em tudo o que seja contrário ao mito que ajudaram a criar.

Nesse cenário, com a ajuda da mídia, cabe tudo o que se possa imaginar: os 37% de aprovação de Bolsonaro, por exemplo, segundo o Datafolha, apesar de ser o mais baixo entre os três últimos presidentes, é celebrado como um fato notável. No entanto, basta uma análise comparativa em torno da aprovação, no mesmo tempo de governo, com as gestões de Fernando Henrique Cardoso, 54%, Lula, 63%, e Dilma, 71%, para comprovar que Bolsonaro só domina o seu círculo, mantendo os mesmos níveis, com oscilações naturais para cima e para baixo.

E assim o país vai se deteriorando, enraizado por debates desprovidos de qualquer lógica. Nos últimos dias, a explosão do fanatismo religioso para impedir a interrupção da gravidez que ameaçava a vida de uma criança de 10 anos, estuprada pelo tio desde os seis anos de idade, mostrou um quadro sombrio. Foi preciso a intervenção policial para que o procedimento médico pudesse ser realizado, em Recife, Pernambuco, para onde a vítima foi levada, porque o Hospital de Clínicas, em Vitória, não aceitou fazer o procedimento cirúrgico.

A hipocrisia de religiosos, descompromissados com a vida, agravou a situação, mas, por outro lado, serviu para a extremista bolsonarista Sara Winter, mesmo em prisão domiciliar, vir a público para protestar contra o procedimento médico, e revelar o nome e endereço do hospital, em desobediência ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), um dos alvos de sistemas religiosos, que lutam para alterá-lo desde que foi criado, em 13 de julho de 1990.

O governo oscila, mas consegue uma corda segura e vai se apropriando daquilo que lhe interessa, sem que a oposição saiba manter o que lhe pertence. Foi desse modo com o auxílio emergencial de R$ 600,00, uma vitória dos partidos contrários ao governo que caiu na conta do presidente e contribuiu para elevar seu índice de aceitação a 37%. Os "indignados" da internet, como em outros casos, se mantiveram alheios ao que está no entorno, preocupados que estão com coisas menores, xingamentos e outras baixarias, que representam lenha para o fogo alheio.

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