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A gorjeta que nos oprime

Para reconquistar a amada, que se cansou de seu arraigado pão-durismo, Nando a convida para jantar em um restaurante da moda. A garota se espanta com o convite – Não é MacDonald desta vez? Estaria ele curado de sua crônica alergia a gastar dinheiro? Vindo o menu, ele não fez comentários lacrimosos sobre o preço das finas opções apresentadas nem censurou a quantidade quando os pratos vieram pela metade. Landa, a amada, estava deveras impressionada, e até analisando a possibilidade de um retorno.
 
Não que fosse exigente ou sofisticada, absolutamente. Mas Nando era mesmo um unha de fome, e tudo na vida tem seus limites, para o sim e para o não, para o gosto e o desgosto. Ele até sugeriu a sobremesa, e embora Landa estivesse começando mais uma dieta da moda, aceitou só pelo prazer de ver a cor do dinheiro do amado. A conta não trouxe surpresas – tudo conforme o  já previsto.  Mas lá no final do malfadado papelzinho, uma linha pontilhada deixava margem para o inesperado: E a gorjeta é – – –
 
Nando ia pôr 5%, o que já era uma grande concessão a seus reclusos hábitos financeiros, mas como a ocasião era importante para seu futuro emocional, sorriu amarelo e pediu a opinião da amada – “Será exagero doar ao lerdo garçom que nos atendeu 10% do valor da conta?” Devo ressaltar que em terra de imigrantes, as diferenças culturais  estão sempre em atrito, ou seja, cada terra com seu uso. Nando tem alergia a gorjetas, e adoraria viver no Japão, onde esse mau hábito não é cultivado.
 
Nando é latino, portanto,  deixar 10%  de gorjeta, saia ou não saia satisfeito do recinto,  é um exagero, mas em certas ocasiões, um mal necessário. Os americanos consideram a falta de gorjeta crime hediondo, e pouca gorjeta um insulto, tanto para  quem dá como para quem recebe. Mas Landa é americana, e a gorjeta é um costume arraigado na cultura local. A garota se espanta com a sugestão, “Como assim, 10%? Você conhece as regras do jogo”, bronqueia ela.
 
Estudos dos hábitos sociais e financeiros das espécies revelam que a gorjeta, mais que uma demonstração de apreço por um bom atendimento, é um indicador social, cultural e econômico.  Os salários dos prestadores de serviços, principalmente em hotéis e restaurantes, são notoriamente baixos, e espera-se que o cliente complete de seu próprio bolso o que faltou. Nando está entre os oponentes dessa lei, que considera socialista – o patrão que pague melhor seus funcionários, não ele.
 
O americano vê na gorjeta um ato de justiça social. Afinal, aceita o serviço quem pode pagar; quem não pode vai para os fast-foods – sem gorjeta, sem surpresas, sem sabor. Na América das desigualdades camufladas, obedecendo a rígidas leis não escritas, uma gorjeta honesta tem que ser de 25%.  Deixando apenas 15%,  o freguês não deve mais voltar ao local; deixando 10% corre o risco de achar o pneu furado no estacionamento.  Alguns países proíbem a gorjeta obrigatória, que já vem embutida na conta, mas nos Estados Unidos é incentivada. Seu atendente de hoje precisa pagar a conta do I-phone. 
 
O impasse financeiro acabou com o impasse romântico –  Nando deixou 10% de gorjeta e  Landa o deixou para sempre. Tudo pelas diferenças culturais. Vindo aos States, anote as regras básicas da gorjeta americana – Entregador de pizza: 10%,  mínimo de 2,00 dólares; restaurantes: 15% para bom serviço, 20 a 25 para serviço excepcional, 10%  para serviço razoável, e zero se não gostou do serviço; hotel: porteiro, 1,00  a 2,00 por mala, mínimo de 5,00; camareira, 2,00 a 5,00 por noite; Valetes: 2,00 é a regra, podendo chegar a 5,00 se seu carro é excepcional; motorista de táxi: 10%, mínimo de 2,00; salões de beleza: 10 a 15%, dependendo do cabelo.
 
 
    

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