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A herança

“Quando eu morrer, a casa é sua”, dizia a tia, com indisfarçado orgulho, afagando os cabelos de Lina, a sobrinha que ajudou a criar com amor de mãe. A tia era jovem e cheia de vida, Lina a adorava e não visualizava sua morte como algo possível. Além disto, alimentava sonhos de um grande futuro, onde não precisaria esperar a tia morrer para ter sua casa própria.
 
A sorte rolou os dados, e a vida de Lina não correu do jeito que ela esperava. Cresceu, casou e se mudou para lugares distantes. Entre as exigências do emprego e as preocupações com casa e filhos, a tia querida foi relegada ao fundo do baú da memória – virou parenta. O sonho da casa própria não se realizou e os aluguéis iam abocanhando uma gorda parcela da renda familiar.
 
Até chegar a notícia de que a tia estava nas últimas. Lina vai visitar, e entre abraços e lágrimas, a pobre senhora repete a velha frase – “Quando eu morrer…” Mas não morreu desta vez, e Lina volta para casa aliviada, prometendo visitá-la mais vezes. Depois dessa viagem, porém, adeus paz de espírito! A doce revelação da tia não lhe sai da memória – quando a tia morrer terá sua sonhada casa própria.
 
Queria a casa, mas queria que a tia morresse? Queria! A constatação desse sentimento mesquinho a aterrorizou. Sempre foi ou apenas fingiu ser uma pessoa honesta? Era cristã e amava a Deus, nunca fez mal a ninguém, nunca cobiçou as coisas alheias, nunca desejou o marido da vizinha, não matou, não roubou, não traiu o marido sequer em pensamentos… Mesmo fiel cumpridora dos dez mandamentos, descobre-se desejando a casa da tia, que só terá quando ela morrer!
 
Uma simples casa! Imagine-se nas grandes heranças, nos títulos de nobreza que só um filho herda, nas sucessões da realeza…”Por que o irmão mais velho ganhou um pedaço de bolo maior que o meu?” chora o irmão caçula. “Ele vai ser rei!” é a cruel revelação. Como assimilavam os filhos menores esse privilégio que só o mais velho – e em algumas culturas só a mais velha – teria? Aceitavam numa boa e iam bajular o sortudo?
 
Sabe-se lá o que acontecia nos sinistros corredores daqueles imensos palácios, “Vigiem melhor essas crianças, que é a terceira vez que o futuro rei se fere brincando de esconder…” Moral da história, todo mundo é bom, até ter um motivo pra deixar de ser… Não mais que de repente, a boa Lina deixa-se macular pela cobiça, mesmo se a lei de Deus condena cobiçar as coisas alheias…
 
Seria a casa da tia um bem alheio, ou um bem que lhe pertencia e estava apenas temporariamente retido? E se houvesse outros sobrinhos, possíveis herdeiros? Estaria ela desejando também a morte desses hipotéticos rivais na herança da tia? Lina sacode esses maus pensamentos e da janela observa o marido da vizinha sem camisa lavando o carro… À noite liga pra tia, pra saber como está a saúde.

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