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Terça, 26 Janeiro 2021

A herança maldita de Hartung

 

Já passou da hora do governador Renato Casagrande dar as contas ao secretário de Justiça Ângelo Roncalli. O relatório da força-tarefa da Polícia Civil, entregue na última quinta (6) ao Ministério Público Estadual, confirmou o que já era sabido: o envolvimento do secretário no esquema de corrupção montado no Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo (Iases), que já levou para cadeia pelo menos 13 pessoas, entre elas a diretora-presidente da autarquia, Silvana Gallina. 
 
Há um ano, uma série de reportagens de Século Diário já apontava que o secretário tinha conhecimento das fraudes nos contratos firmados entre o Iases e Associação Capixaba de Desenvolvimento e Inclusão Social (Acadis), do colombiano Gerardo Mondragón, que também permanece preso.
 
Mondragón, de posse de dois contratos milionários (cerca de R$ 20 milhões anuais) firmados com o Iases com a ajuda de Roncalli e Gallina, passou a favorecer empresas que forneciam produtos e serviços para as duas unidades (Cariacica e Linhares) administradas pela ONG, entre elas as empresas ligadas aos familiares do deputado Josias Da Vitória e do juiz Alexandre Farina, que também foram indiciados no relatório do delegado Rodolfo Laterza. 
 
As autoridades capixabas e o próprio governador ignoraram as denúncias publicadas por este jornal há um ano, mas não se esperava que o Casagrande continuasse arriscando a própria pele para manter Roncalli na pasta, mesmo após o desfecho das investigações.
 
Durante as festividades do Sete de Setembro, um dia após a confirmação de que o secretário está envolvido no esquema, Casagrande garantiu aos jornais que Roncalli não será afastado até que o Ministério Público conclua a denúncia. 
 
Ao adiar a decisão de demitir o secretário, Casagrande perde a oportunidade de mostrar à opinião pública que não é conivente com a corrupção enraizada no governo Hartung e que chegou ao seu governo.
 
Se ele acha que está sendo justo e cauteloso ao declarar que prefere esperar o parecer do MPES, engana-se. Qualquer cartilha barata que ensina o bê-a-bá da política recomenda que, em casos de corrupção envolvendo o primeiro escalão, o melhor remédio é ir logo cortando o mal pela raiz: ou demite ou afasta. Ele devia, inclusive, se inspirar no recente exemplo da presidente Dilma, que passou a foice na cabeça de um punhado de ministros herdados do companheiro Lula aos primeiros sinais de corrupção. 
 
Casagrande, que não é assim tão “companheiro” de Hartung, causa estranheza ao insistir em manter o secretário que além das denúncias de corrupção fez as vezes de carcereiro das “Masmorras de Hartung”. Só pelas violações de direitos humanos que Roncalli tinha no currículo, sobravam motivos para o socialista vetar a permanência dele na pasta. Mas Casagrande teve que engolir Roncalli.
 
Caso o MPES conclua que as provas levantadas no inquérito são convincentes o suficiente para oferecer denúncia contra Roncalli, poderá ser tarde demais para Casagrande anunciar a saída do secretário e tentar convencer a população que se tratava de uma “herança maldita de Hartung”, que ele não tem nada a ver com isso. 
 
A leniência de Casagrande só faz revigorar a tese de que Roncalli tem um trunfo muito forte na manga. Esse trunfo pode ser o acordo pré-eleitoral que Casagrande firmou com o ex-governador Paulo Hartung, que exigia como paga do apoio nas eleições de 2010 o loteamento de algumas secretarias, entre elas o sistema Sejus-Iases, que movimentou valores bem próximos da casa do bilhão nos últimos anos da Era Hartung. 

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