Vamos combinar uma coisa: o PT perdeu o mando não só por ação dos seus adversários (1), mas também por jogadas de seus aliados inconfiáveis (2) e, ainda, por más ações de seus próprios associados (3). O que não se sabe é o que pesou mais – se o 1, o 2 ou o 3. Inegavelmente, a soma desses três fatores erodiu a credibilidade do Partido dos Trabalhadores.
Portanto, precisamos reconhecer que, no fundo, o que acontece com o PT é um repeteco do que ocorreu com partidos operários/trabalhistas em outros momentos da história do Brasil. Para não ir longe, o PDT, o PTB, o PCB e o PCdoB nos seus devidos tempos afundaram respectivamente no fisiologismo, no peleguismo, no compadrismo e no pragmatismo. Se colocarmos aí o PSB com seus recentes desvios pragmáticos, o quadro fica completo. Ou quase.
O que aconteceu com o PT é mais lamentável porque o partido nasceu com uma aura diferente e, ungido por uma liderança extraordinária, chegou ao topo do pódio em pouco tempo.
Treze anos depois da primeira eleição de Lula para a presidência da república, o partido está fora do campo e com reduzidas perspectivas de voltar ao jogo com cacife para sair ganhando.
Alguns dos melhores quadros do PT se retiraram e foram para outros partidos. Alguns estão na cadeia, entre eles o proconsul José Dirceu. A maioria dos retirantes simplesmente ficou à margem, coisa que não é de hoje – a debandada começou discretamente nos anos 1990, quando o partido escorregou no sectarismo, sacrificando quadros de primeira hora, como o então governador capixaba Vitor Buaiz (1995-1998).
Passado cerca de 20 anos de “pragmatismo”, o líder maior, Lula, está acuado por denúncias, investigações e factóides. Dilma se encontra baleada em sua credibilidade. Dilma e Lula, ambos com 70 anos, já têm pouca energia para tentar recuperar o prestígio partidário em viagens naturalmente desgastantes pelo país. Todos os outros petistas mais notáveis são lideres locais, meras expressões regionais.
Os petistas gaúchos Olivio Dutra e Tarso Genro, entre outros que ficaram a salvo do tiroteio que redundou no impedimento da presidenta, estão falando que o partido deve confessar seus pecados e retomar seus princípios e ideais. Fora daí, seria o naufrágio completo. Vem daí a conclusão: sem um mutirão renovador, o partido vai se esvair no descrédito, tornando-se “mais uma sigla” na sopa de letrinhas partidárias.
Se o país entrar numa onda reformista pela via conservadora, como parece ser a tendência do presidente interino Michel Temer, o PT bem que poderia buscar a redenção reafirmando seu compromisso com a via renovadora. Mas a chance de recuperação se esgota na retomada dos princípios originais. Fora daí, não há alternativa. Do jeito que está, o partido seguirá sangrando e não haverá quem segure tamanha hemorragia.
A autocrítica partidária começa tendo de responder a três perguntas básicas:
1 – A prática do pragmatismo político-eleitoral, mediante alianças partidárias com o centro e a direita, foi uma inevitável capitulação ao sistema?
2 – Os 13 anos no poder foram positivos para as bases do partido, seus simpatizantes, torcedores e para a população situada na base da pirâmide econômica?
3 – Os benefícios concedidos ao sistema foram compensadores para o partido ou mais ajudaram as elites a locupletar-se na desigualdade?
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Quem vende fiado
Não tem alegria
Perde o freguês
E a mercadoria”
Aviso afixado na parede de um botequim no interior de Ecoporanga, ES

