Não há novidade nesta informação. Mais um estudo apontou que o Espírito Santo é um dos lugares mais violentos do Brasil e do mundo. Desta vez a pesquisa é da ONG mexicana Seguridad, Justicia y Paz. Segundo o estudo, a Grande Vitória tem a 16ª maior taxa de homicídios do mundo: 60 para cada grupo de 100 mi habitantes. A pesquisa, que listou as 50 regiões mais violentas no mundo, se baseou em dados de 2012.
O Brasil, no comparativo com outros países, ainda apresenta taxas de homicídios altíssimas: média de 25/100 mil. Por isso não é de se estranhar que o estudo inclua 15 cidades brasileiras entre as 50 mais sangrentas no mundo. Como não causa surpresa saber que Vitória ocupa a 15 ª colocação no ranking da ONG mexicana. Afinal, a taxa do Espírito Santo é mais que o dobro da média nacional.
Em matéria sobre a pesquisa, publicada no portal gazetaonline, o secretário de Segurança André Garcia reconhece os números do estudo, mas enaltece que o Estado vem desacelerando as taxas de homicídios ano a ano, de 2009 para cá.
Quando o estudo aponta que a taxa na Grande Vitória é de 60/100 mil. Garcia lembra que em 2006 já foi pior: 71/100 mil.
Sem ter elementos científicos para explicar os homicídios, que continuam gravitando em torno de taxas intoleráveis, o secretário responde vagamente que o Estado tem um problema histórico com a violência, mas não explica como ele, na condição de número um da Segurança, pode solucionar ou pelo menos amenizar esse problema.
Em seguida, Garcia joga a responsabilidade para o colo da população quando afirma que 40% dos homicídios no Estado são motivados por causas banais: brigas de trânsito, vingança e outros motivos fúteis. Essa “tese”, inclusive, faz parte da nova campanha publicitária do governo, que pede para a população pensar duas vezes antes de partir para violência.
Curioso que no início do governo a responsabilidade sobre os homicídios era transferida para as drogas. Outra campanha alertava, à época, que 70% dos homicídios estavam associados às drogas.
Mais à frente, o secretário revela que a polícia tem o mapa dos homicídios. Ele afirma que há 20 aglomerados mapeados na Grande Vitória e pelo menos outros 10 no interior do Estado. Juntos, essas 30 localidades respondem por 50% dos homicídios praticados no Espírito Santo.
Ora, se o secretário sabe quais são as causas e tem nas mãos o mapa da violência, por que não age cirurgicamente nas causas e nos locais de maior vulnerabilidade? Garcia vai responder: “mas estamos agindo, temos o Estado Presente. É por conta dessas ações que as taxas estão desacelerando”.
Para uma população que convive com taxas de guerra civil de homicídios é ainda muito pouco. Cada dia que passa de quatro a cinco pessoas são assassinadas no Espírito Santo, a maioria jovens negros.
Para quem se propôs a cuidar pessoalmente todos os dias da violência, o governador ainda está fazendo pouco. É preciso mais investimentos, muito mais investimentos. É verdade que o atual governo está, aos poucos, repondo o efetivo de policiais, tentando cobrir o buraco deixado pelo ex-governador Paulo Hartung, que negligenciou as polícias. Mas é preciso urgentemente de mais policiais.
É preciso também que a população fique indignada, que vá para as ruas dizer que essas taxas são inaceitáveis; que as pessoas não podem continuar perdendo suas vidas para a violência.
Nesta terça-feira (3), circula por toda a rede uma notícia um tanto curiosa. As autoridades da Islândia lamentavam a morte de um homem em confronto com a polícia. Qual o motivo de tamanha repercussão? Pela primeira vez na história daquele país, que tem uma das mais baixas taxas de homicídios do mundo (1,8/100 mil), a polícia, após não obter sucesso numa operação, foi obrigada a matar um homem que, surtado, atirava pela janela de seu apartamento com um rifle.
A morte de um homem foi motivo de comoção na Islândia. O episódio foi agravado pelo fato de ter sido a polícia a autora do disparo que tirou a vida do atirador.
Essa é a diferença entre a Islândia e o Espírito Santo. Enquanto no pequeno país nórdico a vida tem valor, aqui, está banalizada. Por isso o secretário André Garcia soma ou subtrai dois ou três pontos percentuais nas estatísticas com tanto desprendimento. Para ele, são apenas números.

