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A maior riqueza nacional

Exibido nos cinemas, um documentário sobre o compositor Torquato Neto, que se suicidou em 1972 aos 28 anos, nos faz lembrar o quanto foi inquieta politicamente e prolífica musicalmente a geração de artistas brasileiros nascida nos anos 1940.
 
Com exceção de um ou outro caído pelo caminho – os últimos foram Belchior e Luiz Melodia, falecidos muito depois de Sergio Sampaio e Raul Seixas –, estão quase todos aí: Caetano, Chico, Gil, Milton, Rita Lee, Tom Zé – setentões ativos abrindo caminho para os filhos e netos e inspirando as novas gerações.
 
E no banco de reservas ainda sobrariam duplas como Aldyr Blanc & João Bosco e Ivan Lins & Vitor Martins, além de estrelas individuais como Elomar Figueira de Melo e Renato Teixeira, todos situados na faixa dos 70 anos de idade…Eles têm um público mais ou menos cativo e gozam do respeito da crítica especializada.
 
Poderíamos falar dos românticos como Roberto Carlos, de sambistas como Martinho da Vila e Paulinho da Viola, do pessoal da bossanova como Carlos Lyra, Roberto Menescal ou João Gilberto, mas a verdade é que nenhum grupo musical expressou melhor a fibra da MPB do que essa turma com raízes na Bahia e ramificações no Rio, São Paulo, Minas, Ceará, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e fumaças até em países vizinhos como Argentina e Uruguai.
 
Essa turma compôs belas canções de resistência com letras politizadas desafiando a ditadura militar de 1964/85, ajudando a construir a consciência civil que permitiu levantar a bandeira da anistia de 1979, formar a frente das Diretas Já em 1984 e construir a Constituição de 1988. 
 
Nada a ver com a massa acrítica mobilizada por emissoras de TV e agentes do showbiz, que se esmeram na promoção de bandas barulhentas, coros rebolativos e duplas canoras do dito “sertanejo universitário” — a rigor, nada sertanejo e muito menos universitário. Esses modismos espalhafatosos não têm sustentabilidade artística e estão fadados ao esquecimento.
 
Agora, tendo como espelho o que aconteceu na MPB nos últimos 50 anos, parece ensaiar-se no Brasil uma nova revolução musical que se manifesta na diversidade de letras, gêneros musicais, arranjos e fusões de estilos e combinações de instrumentos.
 
É cedo para um balanço, mas é um movimento forte. O amor, a amizade, os novos costumes são os temas fundamentais dessa revolução musical que se manifesta em bares, auditórios e shows ao ar livre. É algo comparável ao advento da bossa nova no final dos anos 50, do tropicalismo nos anos 60 e da difusão do rock nos anos 80.
 
Na faixa dos sessenta anos encontramos irmãos Ramil, Nei Lisboa, Zé Ramalho, Chico Cesar, Lenine, Alceu Valença. Mas despontam jovens de 30 a 50 anos, incluindo mulheres que compõem, tocam, arranjam e cantam, impondo-se num meio em que, para as moças, sobrava apenas o microfone. O Brasil já não possui apenas divas do canto como Angela Maria, Elizete Cardoso, Elis Regina, Bethania e Gal Costa. Há uma nova geração de compositoras ocupando os palcos.
 
Muitas dessas canções emergentes nas boas emissoras de rádio e na internet vêm de discos antigos de autores falecidos como Cazuza, Renato Russo e Wander Lee. Exemplificando: “Cobaias de Deus”, de Cazuza e Angela Rorrô, é uma canção pertinente ao século XXI, mas foi composta há mais de 20 anos.
 
Algumas canções vêm do século XX com dicção bilíngue: nada mais contemporâneo do que ouvir a parceria do veterano gaúcho Raul Ellwanger com o cubano Pablo Milanez num sambolero de amor. Os irmãos uruguaios Drexler são herdeiros da bossa nova e da MPB.
 
Em suma, uma rica colcha de retalhos musicais cobre o território nacional. Choro, samba, milonga, carimbó, guarânia, rancheira, baião, frevo, xaxado, bossanova, chamamé, moda de viola, pagode, cururu, regue, rock, balada, modinha mineira, congo, maçambique etc.
 
E não falamos dos clássicos-populares como Radamés Gnatalli, Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga, Tom Jobim e outros.  
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
“A música tem conseguido provar que é um ponto relativamente confiável da história do nosso país”. Caetano Veloso

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