O mais novo desembargador Fernando Zardini tomou posse na tarde desta quinta-feira (18) em cerimônia no Tribunal de Justiça (TJES) disputada, com a presença do governador Paulo Hartung e comitiva. O discurso de posse de Zardini não fugiu muito do protocolo. Ele abriu seu discurso citando uma frase de Benjamin Disraeli — ex-primeiro ministro do Reino Unido morto em 1881 — “Majestade, o povo clama por mudanças. Se elas não forem feitas por nós, serão feitas sem nós, e o pior, contra nós”.
Após a frase, Zardini emendou a importância do Judiciário estar sintonizado às demandas das ruas. E destacou que o país não é mais os mesmo a partir das manifestações ocorridas a partir de 2013. “Nos tempos modernos, a sociedade brasileira vem exteriorizando a sua indignação com determinadas circunstâncias políticas e sociais, por meio de protestos como os ocorridos em 2013 com a chamada ‘Manifestação dos 20 centavos’, e mais recentemente com o movimento ‘Vem pra Rua’”.
No miolo do texto, Zardini enfatizou que os agentes públicos não podem mais usar desculpas na hora de oferecer um serviço com qualidade duvidosa à população. E por aí seguiu chegando a ser redundante em alguns momentos, principalmente quando falou da importância da Justiça brasileira que estava deixando a impunidade para trás.
Mas a parte mais importante do discurso Zardini guardou para o final. “É de Esopo, escritor da Grécia antiga, a seguinte citação: ‘A gratidão é a virtude das almas nobres’. E neste contexto queremos aqui deixar registrados alguns agradecimentos”.
Zardini reconheceu que chegou aonde chegou pela mão amiga do governador Paulo Hartung. Ele lembrou que foi Hartung, em seu primeiro mandato (2003 -2006), que lhe deu a oportunidade de conhecer o outro lado do balcão. “A experiência angariada naqueles dois anos no Poder Executivo [Secretaria de Justiça] nos permitiu ter uma visão diferenciada do que é gerir o recurso público”.
Em seguida, o novo desembargador tornou a destacar a mão amiga de Hartung, lembrando que foi escolhido pelo governador para chefiar o Ministério Público por dois mandatos consecutivos.
Faltou Zardini incluir no seu discurso que Hartung estendeu uma mão para ajudá-lo, mas imediatamente espalmou a outra esperando a paga. Ou Zardini já se esqueceu da sua fama à frente do Ministério Público? Nos seus dois mandatos o então procurador-chefe ficou conhecido como “o homem dos escaninhos”. Foram incontáveis as denúncias que chegaram ao MP e ficaram adormecidas no fundo de uma gaveta.
O então chefe do MP foi um dos principais atores do arranjo institucional criado por Hartung — MPES, TJES, Assembleia, Tribunal de Contas e parte da imprensa — para proteger aliados e perseguir desafetos. Aliás, os tais escaninhos de Zardini já não tinham mais espaço depois de dois mandatos consecutivos à frente do órgão ministerial, tantas eram as demandas que vinham do Palácio Anchieta.
Fernando Zardini mostrou que soube fazer bem o jogo e ter paciência para esperar a hora para contar novamente com a mão amiga para alçá-lo ao cargo mais alto do Judiciário estadual.
Certamente ele sabe que essa relação de “amizade” não tem fim. É uma relação de mão dupla. Agora é novamente a vez de Zardini retribuir o amigo. “(…) tenho certeza que todas estas experiências serão de enorme valia para o desempenho da Magistratura que agora passamos a exercer. Ao Senhor Governador PAULO HARTUNG o meu muito obrigado”.

