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A meritocracia nos tempos de PH

Não é segredo para ninguém que existe um decreto do governador Paulo Hartung (PMDB) exigindo o corte de 20% em custeio e pessoal. Desde o decreto, virou obsessão para os secretários cumprir a meta do chefe, custe o que custar. 
 
Imaginem a reunião de Hartung com o secretariado… 
 
(Diálogo hipotético)
 
Hartung: “Fulano, quero saber dos números. Quanto você cortou este mês?”. 
 
Secretário (constrangido, sob o olhar reprovador dos colegas que atingiram a meta): “Consegui cortar só 15%, chefe. Mas no mês que vem vou me esforçar mais. Tenho passado noites em claro, pensando de onde posso cortar mais…”
 
Hartung (irritado): “Se você quer continuar na equipe, tem de rezar na minha cartilha. A ordem é cortar, cortar, cortar! No mês que vem não aceitarei desculpas. E você, que sempre foi o rei da tesoura. Não vai me decepcionar também, vai? Vamos lá. Quero os números. Quanto?”
 
Secretário (com sorriso orgulhoso no canto da boca de quem fez o dever de casa e espera ganhar um elogio do chefe): “30%, chefe. Mas acho que dá para apertar mais. Quero chegar a 40%, o dobro que o senhor pediu”.
 
Hartung: “Muito bem. É por isso que formei minha equipe com foco na meritocracia. É de gente com a sua capacidade que preciso. Pessoas corajosas, que sabem pôr a guilhotina para funcionar. Quero chegar no fim do ano com o caixa cheio. É uma questão de honra para mim. Preciso mostrar à população que o Renato foi um gastão irresponsável”. 
 
O diálogo hipotético se torna plausível quando observamos, por exemplo, o comportamento desesperado do secretário de Segurança André Garcia, que vem dando nó em pingo d’água para tentar cumprir a meta de corte do governador. 
 
Apesar de comandar uma área que tende a ter gastos sempre ascendentes e ter a pressão de tirar o Estado da vice-liderança nacional de homicídios, Garcia tem aceitado passivamente a missão de enxugar gastos. Já cortou o combustível das viaturas, prejudicando o policiamento preventivo. Não foi suficiente para chegar nos 20% imposto pelo governador. 
 
Pressionado. Garcia virou a guilhotina para o Centro Integrado Operacional de Defesa Social- Ciodes (190) e para o Disque Denúncia (181), conforme reportagem publicada neste sábado (21) em A Gazeta
 
À reportagem, o Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações (Sinttel) estimou que o corte vai tirar 25% dos atendentes do serviço. Isso significa um turno de trabalho a menos. O presidente do Sinttel, Nilson Hoffmann, alertou que o corte trará prejuízos para a população.
 
Tanto no caso da redução do policiamento motorizado como no atendimento do Ciodes, André Garcia garante que a segurança da população não será afetada. Alguém acredita?
 
Ora. Não é de um secretário subserviente que a população capixaba precisa. Se André Garcia fosse um profissional preparado para enfrentar o desafio de ser secretário de Segurança no segundo Estado mais violento do País, teria outra postura na reunião de prestação de contas com o governador. 
 
(Diálogo esperado)
 
Hartung: “E aí André, chegou nos 20%?”
 
André Garcia: “Não cheguei e nem vou chegar. Muito ao contrário. Estava pensando em pedir mais 20%. Afinal, segurança custa caro. Não se esqueça que a minha meta não é reduzir gastos. É reduzir homicídios. Acho que a vida não pode ser precificada. Não é mesmo? É bom o senhor abrir o cofre para não repetir a carnificina dos seus dois governos anteriores  [2003 – 2010], quando o senhor e o então secretário Rodney Miranda assistiram impassíveis a morte de mais de 14 mil pessoas. Se for para trabalhar assim, não conte comigo. Tô pegando o meu boné e voltando para Pernambuco. Estou aqui para fazer políticas públicas de combate à violência, e não para ser um mero cortador de gastos. Para operar cortes, o senhor não precisa de um técnico, mas de um pau mandado”. 

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