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A Páscoa e povo trabalhador

Entre a fé, a história e a luta por dignidade

Por José Carlos Pigatti

A Páscoa é uma das celebrações mais antigas da humanidade. Muito antes de ganhar os contornos que conhecemos hoje, povos da Europa e do Oriente Médio já celebravam a chegada da primavera: o fim do inverno, o retorno da fertilidade da terra e o renascimento da vida. Símbolos como o ovo e o coelho já expressavam aquilo que permanece até hoje no coração dessa data: a esperança de recomeço.

Com o tempo, essa tradição se entrelaça com a história do povo judeu por meio do Pessach, que celebra a libertação da escravidão no Egito, narrada no Êxodo. Ali nasce uma das ideias mais poderosas da história: a de que um povo oprimido pode se levantar, romper correntes e atravessar o caminho rumo à liberdade.

Séculos depois, no contexto desse mesmo povo, surge o cristianismo. A vida e a morte de Jesus Cristo acontecem justamente durante o Pessach. Sua ressurreição, celebrada na Páscoa cristã, passa a simbolizar vida nova, esperança e vitória sobre a morte. Mas essa mensagem vai além do espiritual: ela carrega também um profundo sentido social. Jesus viveu sob o domínio de um império, denunciou injustiças e se colocou ao lado dos pobres, dos excluídos e dos esquecidos.

Por isso, a Páscoa não nasce de uma única origem. Ela é uma construção histórica que reúne tradições populares, memória religiosa e experiências concretas de luta. Ao longo do tempo, incorporou símbolos como o ovo, o coelho e, mais tarde, o chocolate, mas seu núcleo permanece: a travessia da vida contra tudo que tenta negá-la.

E essa travessia não é apenas individual. Ela é coletiva.

A história da Diáspora Judaica nos ensina isso com força. Mesmo espalhado pelo mundo, o povo judeu manteve viva a celebração do Pessach como um ato de memória e resistência. Contar sua própria história tornou-se uma forma de não desaparecer, de afirmar identidade diante da opressão. Isso também é luta.

Quando olhamos para essa trajetória, percebemos que a Páscoa fala diretamente ao povo trabalhador. Porque ela não trata de privilégios, mas de superação. Não fala de conforto, mas de coragem. Não é sobre acomodação, mas sobre movimento.

O Êxodo nos mostra que a opressão não é destino. A ressurreição nos lembra que a violência não tem a última palavra. A diáspora nos ensina que resistir também é preservar a memória.

Essa leitura ganha ainda mais força nos dias de hoje. Em um mundo onde a desigualdade persiste, onde a fome ainda existe, onde direitos são muitas vezes tratados como favores, a Páscoa se levanta como um chamado: nenhuma injustiça é natural, nenhuma opressão é eterna.

Para o povo trabalhador, a Páscoa pode e deve ser compreendida como uma pedagogia da esperança. Uma lembrança de que as grandes transformações da história nunca vieram de cima para baixo, mas da organização, da consciência e da luta coletiva.

Celebrar a Páscoa, então, é mais do que manter uma tradição. É reafirmar valores: solidariedade, dignidade, justiça. É reconhecer que a vida precisa vencer, não apenas simbolicamente, mas concretamente, nas condições reais de existência do povo.

Porque, no fundo, a Páscoa nos coloca diante de uma escolha: aceitar o mundo como ele é ou se comprometer com a sua transformação.

E ao povo trabalhador, que todos os dias enfrenta suas próprias travessias, fica a mensagem central dessa história milenar: a vida sempre encontra um caminho, mas ela floresce de verdade quando é construída com justiça.

Uma Páscoa de esperança, consciência e luta.

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