No início de 1980, sentei casualmente ao lado do senador Franco Montoro num voo de Caracas para o Rio. Eu fora enviado à Venezuela pela revista Exame para conhecer uma hidrelétrica construída por uma empreiteira brasileira – a famosa CCCC, Camargo Corrêa Construções e Comércio. Montoro tinha ido a um encontro da democracia cristã na Venezuela, onde o PDC era forte. Estava animado com as perspectivas de redemocratização do Brasil. Conversamos parte da viagem (cinco horas), mas até hoje tento inutilmente me lembrar do conteúdo daquele papo, eu jornalista tentando obter alguma novidade, ele embebido no jogo retórico próprio dos detentores de cargos públicos.
Não sobrou nada — e não esqueçamos: Montoro era uma das cabeças coroadas da política brasileira, tanto que logo depois seria eleito governador paulista e estaria no alto dos palanques das Diretas Já. Firme nas posições sobre os direitos civis e trabalhistas, ele era conciliador no uso da palavra, mas os militares temiam sua oratória blasé. Cioso do seu mandato e da posição como líder partidário (MDB), não lhe passava pela cabeça fazer parte do Partido dos Trabalhadores, em organização naquele momento em São Paulo, como expressão do descontentamento de operários, estudantes, intelectuais e exilados pela ditadura militar. O PT começou de baixo e não contava com medalhões. Uma das poucas figuras públicas a aderir ao PT, no início, fora Helio Bicudo, o promotor público que ousara denunciar o Esquadrão da Morte formado por policiais civis protegidos por autoridades militares.
Voltas que o mundo dá para voltar ao mesmo lugar: hoje a imagem do democrata-cristão Franco Montoro está diluída entre os heróis da redemocratização, ao lado de outros medalhões como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso, Mario Covas e até Lula, “paulista” de origem pernambucana. Todos sem exceção sofreram o desgaste da passagem pelo poder.
Os cargos mais espinhosos são os executivos, pois cabe aos titulares responder pelo que fazem os ministros, os dirigentes das estatais e os graúdos dos seus respectivos partidos, todos mais ou menos salpicados pela lama dos porões da democracia liberal. Tanto que a maioria dos políticos acaba como insetos presos numa teia de aranha gigante. Agora é a vez de Dilma.
Às vezes basta um único mandato para a imagem do político se modificar, geralmente para pior. Poucos resistem ao dia a dia do poder, com suas doses homeopáticas de burocracia, rame-rame, nhem-nhem-nhem, tric tric, parasitismo, puxassaquismo, golpismo, inveja, maledicência e traição. Os amigos, os parentes, os inimigos, os aliados: tudo vai formando uma bola de cisco apresentada sob 1001 configurações na Mídia, que atua corrosivamente, como uma versão maligna da intempérie que vai destelhando reputações como galpões expostos aos vendavais.
É comum ver ocupantes de cargos comissionados transfigurar-se. A administração pública brasileira está cheia de aspones cuja principal característica é o olhar transparente, isento de humanismo. Quando não se torna frio, o(a) cara muda para o outro lado, representando o falso magnânimo, um dos disfarces demagógicos da prepotência. Mesmo quando o cargo é restrito ao âmbito partidário, há sujeitos que se inflam e passam a se comportar de outra maneira. Mudam o modo de falar, a indumentária, os hábitos pessoais.
O que identificou o PT, nos seus primeiros tempos, como partido nascido nas bases ligadas aos sindicatos, à igreja católica e às universidades, foi a contribuição voluntária dos seus associados para o caixa do partido. Vivia-se de mutirões à semelhança dos primeiros cristãos nas catacumbas romanas. Depois, com o sucesso dos seus primeiros candidatos, o PT recebia 30% dos vencimentos dos eleitos de 1982. Quando o número de eleitos aumentou, foi possível reduzir o percentual da contribuição compulsória.
Foi uma ascensão maravilhosa. Em 1988 Erundina prefeita de São Paulo; em 1989 a primeira candidatura presidencial de Lula, que quase chegou lá; em 1995 eleitos os primeiros governadores (DF e ES); em 1996 foi conquistada a prefeitura de Porto Alegre com o orçamento participativo e, finalmente, em 2002 a eleição de Lula para a presidência, na qual o partido ainda se encontra, vencidas mais três eleições. Mesmo com tudo o que foi feito pelo partido, tanto pela ascensão dos pobres quanto pelo fortalecimento dos ricos, o desgaste é considerável.
Quem diria, 35 anos atrás, que o tesoureiro do Partido dos Trabalhadores estaria na alça de mira da Operação Lava Jato, que investiga uma rede de corrupção política alimentada por empreiteiras de obras públicas? Pode ser perseguição político-partidária, mas talvez seja fadiga do material partidário. Não é uma história original. No passado outros partidos se deixaram levar pela presunção da impunidade. A Arena durante a ditadura militar, o PTB durante o governo Vargas, o Partido Republicano Paulista no governo Washington Luiz abusaram do poder. Por isso é importante compreender onde e quando o PT começou a tropeçar na bola.
Houve quem se desiludisse com o PT ainda na década de 1990, quando o partido era dominado por patrulhas ideológicas que, bem instaladas na hierarquia do partido, chegaram ao cúmulo de exigir o desligamento do então governador do Espírito Santo, Vitor Buaiz, por buscar e praticar uma forma de governança em sintonia com a presidência da República, então ocupada por Fernando Henrique Cardoso. Buaiz fez como governador o que Lula faria logo depois como presidente – acordos com seus credores, a começar pelo FMI.
Enquanto os mais sinceros iam caindo fora — Hélio Bicudo, por exemplo, chegou a declarar voto para o outro lado –, o partido era invadido pelos petistas de segunda ou terceira hora, muitos deles oportunistas que aderiram para ocupar cargos em municípios e estados onde o partido se tornara vitorioso. O fisiologismo substituía o idealismo das primeiras horas. Nada de novo no front político. Os adventícios são um perigo porque não têm a memória dos primeiros passos, não carregam a marca dos pioneiros, nem sofreram o estigma da discriminação. Eles só querem se dar bem.
No primeiro mandato presidencial de Lula, pontificou em São Paulo o emergente Delúbio Soares, tesoureiro do PT, que se fez notar pelo hábito de fumar charutos em restaurantes sofisticados. A ostentação cobra caro de políticos, empresários e outros profissionais. No caso de alguns petistas elevados a cargos públicos, é notório que perderam a mão no processo. Condenado a meia dúzia de anos de prisão pelo STF no julgamento do Mensalão, Delúbio Soares talvez fique na história como o famoso bode expiatório que paga por um deslize ético coletivo enquadrado como crime. Por ignorância ou presunção, cometeu-se aí o que se poderia denominar uma petice, ou seja, um ato petiz, próprio de aprendizes.
Agora estamos na iminência de saber o destino de alguns outros hierarcas do PT, entre eles o tesoureiro João Vaccari Neto, que teve a casa invadida pó agentes da Polícia Federal numa dessas incursões matutinas da Operação Lava Jato. Acusado de receber propinas de empreiteiras, ele é defendido pelo partido, que argumenta só receber doações dentro da lei. Petice? Raposice? Vigarice? Parece haver lugar para tudo na vida partidária e parlamentar brasileira. Por isso a Lava Jato pode se tornar um divisor de águas na história política e empresarial do país.
Há quem veja Vaccari como uma versão mais discreta e refinada de Delúbio. Com a experiência bancária e pela militância ao lado de sindicalistas do porte de Luiz Gushiken e Ricardo Berzoini, ele talvez possua a competência contábil e operacional que faltou ao incipiente Delúbio. Mas só o tempo dirá quem tem os nomes e as mãos limpas no PT e em outros partidos brasileiros.
Há indícios, para dizer o mínimo, de que o chamado Petrolão é um sucedâneo rebuscado do Mensalão – mais seguro quanto a vazamentos por se concentrar numa empresa que, pela sua importância estratégica e respeitabilidade histórica, estava naturalmente acima de qualquer suspeita. Além disto, antes mesmo do Pré-Sal, que turbinou os investimentos em exploração, a Petrobras sempre concentrou um volume de recursos em contratos que teoricamente facilitaria um esquema regular de verbas clandestinas. Quem iria desconfiar de contratos cujas propinas de 1%, 2% ou 3% parecem merrecas quando comparadas aos corriqueiros 10% ou 15% de antigos e famosos prefeitos, governadores e ministros? Deu no que deu.
Não nos adiantemos com julgamentos precipitados, pois até agora ninguém foi condenado em consequência da Operação Lava Jato, mas é bom lembrar o quanto são raros os políticos sem mácula. Na sua “melhor idade”, o honorável paulista Franco Montoro (1916-1999), antigo pedecista que foi líder emedebista e acabou ajudando a fundar o PSDB, acumulava cinco aposentadorias – tudo dentro da(s) lei(s), mas fora do rigor ético que se espera de um homem público.
LEMBRETES DE OCASIÃO
“No Congresso tem 300 picaretas” (Lula, depois de participar da Constituinte de 1988)
“O Congresso está cheio de achacadores” (Ministro Cid Gomes, dias atrás)

