Sábado, 27 Novembro 2021

​A saída de Salles

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, pediu demissão há uma semana, sob pressão de duas operações deflagradas, como consequência de sua atuação no cargo, agora tendo, para além dos problemas de desmatamento e sucateamento de instituições ambientais, denúncias de ilegalidades.

As denúncias de corrupção sobre Salles, em seu caso, envolvem ilegalidades com madeireiras, sobretudo no exercício de advocacia administrativa, que é o ato de beneficiar particulares com a sua influência como agente público, neste caso das madeireiras, fraudando documentos que camuflavam extração ilegal.

As entidades ambientais, como o Observatório do Clima, a WWF e o Greenpeace, comemoraram a saída do ministro, embora se demonstrem céticos quanto às mudanças na política ambiental do governo Bolsonaro. Acusam, por sua vez, a gestão de Salles de ter provocado o aumento do desmatamento, das queimadas, das emissões de gás carbônico e, por fim, de ter operado uma verdadeira degradação da imagem internacional do Brasil no assunto meio ambiente.

O novo ministro nomeado não sinaliza nenhuma luz nestas trevas, pois Joaquim Álvaro Pereira Leite foi durante duas décadas membro da Sociedade Rural Brasileira (SRB), entidade ruralista das mais antigas e influentes do Brasil. Outro fator que não nos dá nenhuma luz nestas sombras foi a aprovação, sem debate e a toque de caixa, do texto do PL 490/2007. Este projeto de lei inviabiliza, praticamente, as demarcações de terras indígenas e abre a porteira destes territórios para atividades econômicas predatórias. Foi aprovado pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), presidida pela governista Bia Kicis, com um desrespeito à Constituição Federal e à democracia.

Ricardo Salles está com seu nome envolvido em denúncias de tráfico ilegal de madeira e ações de obstrução de investigações em um caso de desmatamento. A mudança de governo nos Estados Unidos, com a entrada de Joe Biden, aumentou a pressão sobre o governo brasileiro em relação ao meio ambiente, uma vez que sob Trump, esta pressão vinha da Europa, mas agora as coisas ficaram mais difíceis, pois houve um forte aumento nos alertas de desmatamento e extração ilegal de madeira na Amazônia.

Aqui, mais uma "coincidência incrível", esta que serve de cortina de fumaça, pois a demissão de Salles acontece no mesmo dia em que vem à tona o caso das denúncias de irregularidades a respeito da compra da vacina indiana Covaxin.

Esta cortina de fumaça também foi operada no caso da demissão do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que foi no mesmo dia em que Queiroz foi preso na casa do advogado dos Bolsonaro, Frederick Wassef.

Salles é alvo de dois inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito de operações da Polícia Federal: a Handroantus, relacionada à apreensão milionária de madeira ilegal em dezembro de 2020, e a Akuanduba, esta que desbaratou em maio deste ano um esquema de exportação ilegal de toras, tendo as duas operações levantando suspeitas sobre extração ilegal de madeira na Amazônia e no Pará.

No caso da Akuanduba, segundo a Polícia Federal, houve denúncias de autoridades norte-americanas sobre "desvio de conduta de servidores públicos brasileiros no processo de exportação de madeira". E agora em junho, a ministra do STF, Carmen Lúcia, autorizou a instauração de um inquérito para investigar o então ministro sob acusação de crimes como advocacia administrativa, criar dificuldades para a fiscalização ambiental, e atrapalhar a investigação de infração penal envolvendo organização criminosa.

Por fim, a pressão sobre Salles aumentou nas últimas semanas, culminando com a apreensão de seu celular para investigações, uma vez que demorou para entregar o aparelho à justiça para análise.

O que vemos aqui é uma sucessão de eventos, envolvendo duas operações que investigam ilegalidades, e o agravamento da imagem internacional do Brasil em relação ao meio ambiente, mesmo com algumas colocações hipócritas de Bolsonaro na Convenção do Clima, e a perspectiva para o meio ambiente com este novo ministro, por sua vez, também não promete ser uma das mais brilhantes.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog:
http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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