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A sucessão e a política no ES

No Espírito Santo, depois de três eleições para governador – 2002, 2006 e 2010 – caracterizadas por acordos pelo alto que represavam a competição político-eleitoral, teremos agora em 2014 uma quadro de grande competição eleitoral. Esta, por si só, é uma novidade histórica  na política capixaba. Sai a política da “geopolítica” dos consensos forjados pelo alto. Entra a política da competição e das coalizões.  
 
É óbvio que nenhuma das três principais candidaturas a governador – Renato Casagrande (PSB), Paulo Hartung (PMDB) e Roberto Carlos PT) – , situa-se politicamente fora do “mainstream” da política capixaba. Não há, por exemplo, nem mesmo uma tentativa “a la” terceira via, pois as candidaturas de Camila Valadão (Psol) e de Mauro Ribeiro (PCB) têm, ambas, perfis de candidaturas nanicas para marcar posições – o que é salutar mas não muda o “mainstream”. Anthony Downs, de resto, com a sua teoria do “eleitor mediano”, já dizia que nas democracias representativas  de sistemas multipartidários, a competição eleitoral tende a convergir para um “centro político”, ficando os “extremos”  como pontos fora da curva. 
 
Mas o fato é que o novo quadro capixaba é de competição e de provável polarização entre as candidaturas de Renato Casagrande e de Paulo Hartung. Mesmo com esta polarização, as eleições podem caminhar para um segundo turno. Isto porque as votações somadas do PT, do Psol e do PCB, podem impedir a formação de maioria no primeiro turno. Isto, por si só, já seria  uma novidade que forçaria à formação de alianças eleitorais e depois de uma coalizão de governo. O que é diferente da idéia corrente da “unidade”. Aliás, com o prenúncio do fim da unanimidade de todos-com-todos,  alguns observadores mais mordazes e  incorrigíveis até já acham que poderemos estar diante de uma primavera política capixaba, em alusão à famosa Primavera de Praga –  que foi, como todos sabem, um período de liberalização política na então Thecoslováquia. 
 
Em artigo anterior, argumentei que haveria um congestionamento de caciques na política capixaba e que isto impediria a “mobilidade política” e a formação e ascensão de novas lideranças. Argumentei também que as clivagens da sociedade capixaba são hoje bem mais complexas para serem tratadas num quadro de unanimidade. O contraditório é latente e patente. Sob os prismas da mobilidade política e das clivagens sociais, as três principais candidaturas colocadas – Renato Casagrande, Paulo Hartung e Roberto Carlos – permitem campos de alianças políticas que podem descongestionar a  movimentação da lideranças e permitir alternâncias e novas ascensões políticas. Agora, em 2014, e depois, em 2016 e 2018. Os dois nanicos (?) – Camila Valadão e Mauro Ribeiro – também contribuem para este novo quadro, permitindo que segmentos presentes nas Manifestações de 2013 se manifestem agora nas eleições de 2014. Novas vozes que pedem passagem. 
 
Agora é a disputa política. O campo político formado e costurado em torno da candidatura do governador Renato Casagrande à re-eleição sai para o embate em vantagem. Além do seu grande “recall”, Casagrande conta com apoios políticos muito expressivos, a julgar pelas presenças, por exemplo, dos senadores Ricardo Ferraço (PMDB) e Magno Malta (PR) e dos prefeitos Luciano Rezende (PPS) e Audifax Barcelos (PSB) em seu palanque. Isto sem contar o também relevante apoio de vários partidos e candidatos e de vários prefeitos e lideranças locais no interior. Supondo que todos vão arregaçar as mangas e trabalhar pela candidatura, não há dúvida que se trata de um palanque muito forte. Um caminhão de votos. 
 
O primeiro problema de Renato Casagrande vai ser como ele vai para o tête-à-tête, em forma de embate, com Paulo Hartung. Vai ser um embate apenas em torno de números, ou também se vai levar a disputa para os projetos de estado e para a construção do capital simbólico de cada um? O segundo problema do governador será mostrar com qual equipe ele vai governar, para além das fronteiras do seu PSB e em condições de mostrar capital político e capital simbólico para dialogar com o governo federal, com o mercado e com os movimentos sociais.  
 
Já o campo formado e articulado em torno da candidatura de Paulo Hartung ao retorno à governadoria do estado, vai precisar suprir a desvantagem inicial do seu palanque político em relação ao palanque do seu principal adversário, Renato Casagrande. Com uma narrativa convincente para os eleitores descrentes com a política – que são muitos – e para as lideranças locais que se sentiram “excluídas” dos campos de alianças de Casagrande. Mas não vai bastar a meta-narrativa embutida  no slogan do “pode mais”.  
 
Hartung vai precisar mostrar como a sua candidatura poderá estar em sintonia com a nova realidade do estado e das ruas. Ou seja, como ele agora se situa em relação às novas circunstâncias da política nacional e da política regional. Os seus governos anteriores foram marcados por circunstâncias muito diferentes, às quais ele se sintonizou com inteligência ao criar o mantra do “bem-contra-o-mal” e ao focalizar as suas ações no ajuste fiscal, com a ajuda do governo Lula, que aprovou a já conhecida operação de antecipação dos royalties do petróleo. Foi um governo de forte corte tecnocrático, adequado àquelas circunstâncias. Mas e agora? 
 
Por último, o campo formado em torno da candidatura de Roberto Carlos, do PT, vai precisar mostrar que ele é realmente um terceiro campo de forças, e não apenas um campo auxiliar de um dos dois outros campos principais. O PT desidratou-se politicamente no Espírito Santo e, agora, no período de formação das pré-candidaturas, teve iniciativas erráticas que o isolaram. Mas acabou vindo acompanhado do PDT. Juntos, mesmo tendo o PDT liberado seus candidatos proporcionais para apoiarem outras candidaturas majoritárias, podem ter musculatura político-eleitoral para levar as eleições de governador  para um segundo turno e para eleger talvez dois deputados federais.  
 
 
Podem, também, ter capacidade e capilaridade para eleger bancada relevante na Assembléia Legislativa e para levar o seu candidato a senador, João Coser, a ter votação expressiva e competitiva. Tudo somado, se colocando como terceira força e indo para valer para a disputa, a aliança PT-PDT poderá ter capacidade de participar da coalizão do próximo governo e de acumular musculatura política paras as disputas de 2016 em Vitória (João Coser), em Cariacica (Helder Salomão) e na Serra (Sérgio Vidigal). Ainda mais se a candidatura de Roberto Carlos trouxer Lula para o seu palanque, ao lado da presidente Dilma, galvanizando o eleitorado tradicional do PT e, outra vez, levando as eleições para governador para um segundo turno. 
 
Num quadro político-eleitoral de disputas acirradas tanto entre as candidaturas a governador, quanto entre as candidaturas a senador, sem falar nas disputas às candidaturas proporcionais que poderão resultar em altos índices de renovação na Câmara Federal e na Assembléia Legislativa, as eleições capixabas prenunciam renovações. Renovações de discursos e projetos e renovações de lideranças políticas. 

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