Reportagem publicada nesse sábado (26) por André Barrocal, no site de Carta Capital – “’Doutrina do choque’ explica Brasil de Michel Temer” -, abre citando Paulo Hartung (PMDB). O jornalista afirma que o governador do Espírito Santo é um adepto de medidas neoliberais. Em seguida, pinça uma frase de recente entrevista do governador ao jornal Valor. “Estamos em guerra”, alerta Hartung, advertindo sobre a urgência de abraçar as reformas.
Mais à frente, o texto deixa o governador capixaba de lado para analisar o novo pacote de privatizações do governo Temer, que inclui a Eletrobras, aeroportos, os Correios e até a Casa da Moeda.
Paulo Hartung figura no abre do texto porque seu modelo de governo guarda semelhanças com o de Temer. Desde o início do seu governo, em 2015, Hartung vem trabalhando sua imagem com afinco para fora do Estado. Com a ajuda da grande mídia nacional, o modelo da política econômica de Hartung recebeu o selo de “aprovado” dos formadores de opinião do mercado, que passaram a enaltecer o Espírito Santo como um “caso de sucesso” a ser estudado e copiado.
Depois da introdução, Hartung não é mais citado ao longo do texto de Carta Capital, mas o desenrolar da reportagem, que afirma que o Brasil está sob uma “doutrina do choque”, ajuda a entender o que está por trás do modelo político-econômico deste terceiro mandato de Paulo Hartung.
A matéria de Carta, para analisar a política econômica de Temer, se sustenta na ideia descrita pela jornalista canadense Naomi Klein, no livro “Doutrina do Choque” (2007).
A autora critica as ideias propagadas pela “Escola de Chicago”, que teve como idealista Milton Friedman (1912 – 2006), aluno e professor da Universidade de Chicago. Um dos principais defensores do liberalismo econômico e um dos idealizadores do neoliberalismo. O Nobel de Economia (1976) sempre exorcizou a ideia de o Estado meter a colher no mercado. Para Friedman, quanto menor o Estado, melhor.
Friedman, segundo Naomi Klein, apostava na doutrina do choque. A lógica proposta pelos “Chicago Boys” defende que a melhor oportunidade para impor as ideias radicais do livre-mercado é no período subsequente ao de um grande choque. “Esse choque pode ser uma catástrofe econômica. Pode ser um desastre natural. Pode ser um ataque terrorista. Pode ser uma guerra. Mas, a ideia é que essas crises, esses desastres, esses choques abrandam a sociedades inteiras. Deslocam-nas. Desorientam as pessoas. E abre-se uma ‘janela’ e a partir dessa janela se pode introduzir o que os economistas chamam de ‘terapia do choque econômico’”, afirmou a jornalista em entrevista reproduzida pelo site de Luiz Nassif, em 2015.
Qualquer semelhança da doutrina do choque com a política de Hartung não é mera coincidência. O peemedebista rompeu o acordo de continuidade com o então governador Renato Casagrande (PSB), alegando que o seu sucessor havia “quebrado o Estado”. Estava criado o clima de caos.
Durante a campanha, Hartung construiu um quadro de futuro apocalíptico para o Espírito Santo, tentando convencer o eleitor que era o único preparado para tirar o Estado do fundo do poço.
Venceu a eleição e antes de se sentar na cadeira de governador foi logo avisando que a população capixaba teria que “comer muito sal” nos próximos anos para vencer a crise. Hartung deitava a população no divã para receber a “terapia do choque”. A jornalista Naomi Klein descreve no seu livro como o capitalismo se impõe durante a crise.
Hartung usou a terapia do choque para fazer cortes lineares nos investimentos durante os dois primeiros anos de governo, inclusive em áreas essenciais, como saúde, segurança e educação.
Foi se sustentando na terapia do choque que o governador negou conceder reposição salarial aos servidores do Estado e entrou num embate com os familiares da Polícia Militar, que reivindicavam melhorias salariais e de trabalho. O governo não cedeu à pressão e manteve a corda esticada com a PM durante intermináveis 22 dias, período em que o Estado ficou de cabeça para baixo. Os números de homicídios e os crimes contra o patrimônio explodiram. Os policiais voltaram ao trabalho, mas o clima de tensão na caserna continua, e o governo não sabe quando a pressão vai romper o muro dos quartéis e voltar às ruas. O mesmo serve para os servidores, que também não foram “domados” pela terapia do choque.
O modelo da política econômica de Hartung, à medida que avança, confirma a tese da doutrina do choque de Klein. Hartung, que pode ser considerado um “chicago boy dos trópicos”, usou a crise nacional e do vizinho Rio de Janeiro para criar um clima apocalíptico no Estado. Nas entrelinhas alertava: “Se não aceitarem a terapia, nosso destino será tão catastrófico quanto o do Rio, que não consegue honrar a folha de pagamento dos servidores”.
A crise superdimensionada criou as condições necessárias para Hartung impor a terapia do choque. Serviu também para consolidar o Espírito Santo como um “caso de sucesso”. Para seu modelo ganhar essa conotação de caso extraordinário, era preciso, porém, passar a ideia de que o Estado chegou, devido à inépcia do antecessor, à parte mais funda do poço, reagiu ao choque e conseguiu vencer a crise de forma espetacular.
A teoria da doutrina do choque de Naomi Klein também defende que não é possível introduzir, por meio da democracia, esse tipo de ideia. Nesse ponto a teoria também se encaixa ao modelo político do governo de Paulo Hartung. Um governo que usa uma embalagem democrática, mas que por dentro esconde conceitos totalitários: concentra poder, persegue adversários, é avesso à transparência e aparelha as instituições.

