Nos últimos meses, Paulo Hartung (PMDB), ou melhor, sua assessoria, vem trabalhando duro para “plantar” notas na mídia nacional que se traduzam em prestígio para o governador. Essa estratégia de promover a gestão do mandatário capixaba além das divisas do Espírito Santo foi posta em prática logo no início do terceiro mandato de Hartung.
No auge da crise do governo Dilma, Hartung tentou se viabilizar como o governador capaz de conter a “marcha da insensatez”. Amante da política com “p” maiúsculo, o governador queria convencer os colegas dos outros estados a firmarem um pacto em nome do Brasil. Evitando se posicionar a favor ou contra a manutenção do mandato da presidente Dilma, Hartung clamava para que as picuinhas fossem deixadas de lá para que o País tivesse tranquilidade para reencontrar o caminho do desenvolvimento. Não funcionou: nem o País saiu do buraco, nem Hartung se consagrou como líder dos governadores.
Neste ano, com o processo de impeachment praticamente definido e acumulando um ano de mandato, Hartung concentrou seus esforços para mostrar que sua política de “reconstrução” do Espírito Santo já apresentava resultados palpáveis e poderia servir de exemplo para o resto do País, ou, tomando suas palavras: “como um farol para o Brasil”.
Mais uma vez, graças ao trabalho primoroso de sua assessoria, o governador encaixou notícias positivas sobre sua gestão nos principais jornais do País. Da maneira como as notícias foram editadas, o Espírito Santo passou a ser visto como “oásis” do equilíbrio fiscal. Um dos únicos que se mantinha blindado à crise que corria as finanças da maioria dos estados brasileiros. Segredo da receita de sucesso? A política econômica austera do governador capixaba executada por uma secretária de Fazenda “espartana”, que não titubeou para passar a tesoura, sem piedade, nos gastos públicos. Um corte linear de 20% em todas as secretarias, sem exceção: da saúde à educação; da segurança à cultura.
Sempre atento às oportunidades, Hartung conseguiu emplacar seu nome na vasta lista de cotados para ocupar a Fazenda no governo Temer que naquele momento se desenhava. Era tudo que ele precisava. Obviamente que não seria o governador capixaba o escolhido para ocupar a pasta mais estratégica e vital do novo governo. Mas o objetivo havia sido alcançado. Hartung precisava apenas ser lembrado.
Algumas notas e notícias depois, Hartung transformaria os factoides em realidade ao emplacar Ana Paula Vescovi no Tesouro Nacional. Os louros da nomeação não vão para Ana Paula, mas para o próprio Hartung. Ele usa a sua agora ex-secretária como troféu. Ana Paula no Tesouro Nacional é a consagração, como já registram os jornais, da política econômica que deu certo, que mostrou que é possível enfrentar e vencer a crise com uma tesoura bem afiada na mão de quem não tem medo de cortar.
Ana Paula no Tesouro agora é um fato, mas a política econômica que a promoveu é um engodo. Faltou os jornais perguntarem para os principais interessados, a população capixaba, qual a avaliação do atual governo.
Quem vive no Estado sabe que existe uma insatisfação muito grande do funcionalismo público com a política de austeridade do governo, que precarizou as relações de trabalho do servidor e sucateou o serviço público. A população na sua maioria, incluídos os eleitores de Hartung, sobretudo os do interior do Estado, também está decepcionada com o governador, que na campanha prometia “chacoalhar o Espírito Santo”.
O Estado está paralisado. As obras iniciadas pelo governo anterior ficaram pelo caminho. À boca miúda, os prefeitos reclamam que o governador deixou os municípios à deriva. Sem dinheiros para retomar as obras paralisadas pelo governo estadual, os prefeitos colhem o ônus da impopularidade por não conseguirem fazer as entregas prometidas à população.
Na ponta do serviço público, os usuários da saúde, por exemplo, sentem os cortes na pele. O que se vê é o sucateamento do sistema, que está sendo paulatinamente terceirizado. Com a gestão sob o comando das Organizações Sociais de Saúde (OSS) o governo pode lavar as mãos.
O poder da tesoura também se faz presente em outras áreas essenciais, como Segurança e Educação. Na Segurança, a violência continua aterrorizando a população com índices de homicídios de guerra civil. Por mais que o governo maquie os números, não pode enganar a percepção da população, que continua sentindo que a violência está presente no seu dia a dia.
Na Educação a estratégia foi criar uma vitrine vistosa com o Escola Viva e abandonar os investimentos no restante da escolas da rede, que foram rotuladas pelo próprio secretário de Educação, Haroldo Rocha, como “escolas chatas”, o oposto da Viva.
É preciso desmascarar também o discurso que Paulo Hartung “produziu” para responsabilizar o ex-governador Renato Casagrande por ter arruinado as finanças do Estado. Aliás, esse discurso começou a ser forjado com a ajuda de Ana Paula Vescovi antes mesmo de Hartung revelar que seria candidato ao governo.
Hartung e Ana Paula passaram a repetir que o antecessor afundou as contas do Estado e legou para a dupla um tremendo abacaxi. Não é verdade. Se Hartung conseguiu manter as contas do Estado no azul em plena crise foi justamente graças ao legado que recebeu do socialista.
Mas se Hartung admitisse que a saúde fiscal do Estado era satisfatória, não poderia produzir os factoides usados até agora para se promover na mídia nacional como o “Salvador da Pátria”. Afinal, era preciso criar um cenário de terra arrasada para mostrar que o Espírito Santo operou um verdadeiro “milagre econômico” sob sua gestão, ao sair do fundo do poço para vencer a crise.

