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A trapezista e a menina na calçada

Num lugar distante que nem sei se ainda existe, a alegria não acabava nunca. O certo seria dizer que a alegria nunca acabava, mas aí vira cacófato. A alegria infinita desse local não era por efeito da água ou do clima, embora ótimos, mas por causa do nome do lugar – Alegre – porque naquelas bandas uma cachorrinha chamada Alegre ia se esconder. Se ganhou esse nome porque era muito alegre os livros de história não registram.
 
Lá na minha rua havia um terreno baldio sem muros altos proibindo. Ali todo parque de diversões se erguia, toda tenda de circo se abria, e como os artistas e empregados estavam sempre pedindo alguma coisa emprestada, a gente entrava de graça. Naquele tempo os circos eram chamados circo teatro, com uma primeira parte de espetáculos circenses, embora mambembes, e uma segunda parte com uma peça de teatro. Quase um vaudeville.  

Houve um circo que ficou mais tempo que os outros, porque agradou mais ou porque havia uma seca brava e as outras cidades não davam autorização para se instalarem. Com a escassez de água, o pessoal do circo ia longe encher garrafões para manter as funções diárias. Imagine-se a higiene do local. Para o banho iam todos – ou muitos deles – se banhar no Rio Conceição, cujo nome era uma  homenagem ao fundador da cidade, o fazendeiro João da Conceição.

 
Para beber e para as mamadeiras as mulheres pediam de porta em porta, que água mineral engarrafada era coisa rara, embora tivéssemos a Água Mineral Conceição, de boa fonte local. As almas caridosas sempre atendiam, mas havia uma senhora que nunca dava. A malabarista, equilibrando nos braços um bebê chorando de fome, disse ela, implorou um copo d'água para a mamadeira, e como a mulher não atendeu, ela jogou uma praga terrível, “Vai morrer de sede, implorando um copo d'água!” Morreu? Claro, 30 anos depois, num acidente de carro.
 
Com entrada grátis, minhas irmãs e eu íamos ao circo todos os dias e  aprendemos todas as falas da peça teatral, que era muito chata. Assim mesmo a plateia enchia, porque as opções de entretenimento da cidade, embora alegre, eram poucas. Já cansadas do espetáculo, sentávamos perto do palco e declamávamos as falas antes dos atores. Como a audiência morria de rir, eles deviam nos pagar pelo toque humorístico, mas a peça era para chorar e fomos expulsas do circo para sempre.
 
Ou até a próxima temporada, que eles sempre voltavam. Dias depois da proibição, estava eu a brincar na calçada de casa, e a equilibrista vem falar comigo, “Menina, quer ganhar uns trocados?” Pensei que iam me contratar para o espetáculo, mas qual! Ela precisava de uma babá para o bebê chorão. Ofendidíssma, entrei em casa sem nem responder. Até hoje me envergonho dessa atitude, mas era criança e inexperiente das coisas da vida.
 
Nos Estados Unidos, país mais rico que o nosso, a maioria das adolescentes ganha um dinheirinho extra como babysitter, tomando conta de crianças mesmo se os pais têm recursos. É o que vemos nos filmes, mas não prestava atenção. No Brasil, isso é coisa de pobre. No caso da trapezista, sei que papai não teria deixado, porque ‘gente de circo’ era discriminada como ciganos e outros nômades, mas devia ter agradecido e me sentido honrada com a proposta.

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