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A violência ‘punindo’ a violência

O duplo assassinato de dois jovens no Terminal Vila Velha nessa quarta-feira (4) é mais um episódio da realidade violenta que aterroriza a população capixaba. O crime brutal, como não podia ser diferente, choca a todos, mas é reflexo da cultura de violência que mantém o Espírito Santo há mais de 14 anos entre os estados mais violentos do País.
 
A violência está banalizada a tal ponto no Estado, que mal um caso “esfria” já surge outro ainda mais macabro.
 
Há menos de duas semanas (23/01) outro episódio de violência indignou a população canela-verde. Um jovem aparentando desequilíbrio psicológico invadiu a sede da Prefeitura de Vila Velha com a Bíblia na mão para “tirar satisfações” com o prefeito Rodney Miranda, que nem estava no local. O despreparo do agente de segurança em contornar a situação acabou em tragédia. Diego Biasutti, de apenas 27 anos, teve sua vida abreviada com um tiro na cabeça.
 
No crime do terminal, a polícia ainda não sabe qual o motivo que levou o assassino a esfaquear inesperadamente Jhony Lima Fernandes, 19 anos, e Saulo Ferreira Tavares, 24 anos. O crime ocorreu no momento em que o ônibus da Linha 508 do Transcol se preparava para encerrar a viagem no Terminal de Vila Velha. 
 
A propósito, a polícia teve uma participação desastrosa tanto no caso da Prefeitura de Vila Velha como no do terminal. Nos dois crimes, a polícia, para atenuar a pressão da opinião pública, tentou justificar a violência pela própria violência. 
 
No caso de Diego Biasutti, as primeiras declarações da polícia destacavam que o jovem tinha duas passagens por tráfico. Essa é uma estratégia bastante recorrente da polícia para justificar os crimes de homicídios. A justificativa para apaziguar os ânimos da opinião pública é a seguinte: “Foi morto porque tinha envolvimento com drogas”. Esse argumento costuma “consolar” a população, que lamenta a morte, mas assente que “o fulano morreu porque mexeu com o que não devia”. Naquela máxima do “pau que nasce torto…”
 
No crime do terminal, a polícia, sem ter evidência alguma, divulgou uma nota criminalizando os dois rapazes. Era uma maneira de dar uma resposta rápida e efetiva à população. Um trecho da nota informava que o crime ocorreu após uma tentativa de roubo cometida pelos dois jovens dentro do ônibus. Horas depois, a polícia voltou atrás e desconsiderou a informação. 
 
Ainda no crime de Biasutti, a reação de Rodney Miranda explica por que a cultura da violência é tão arraigada no Espírito Santo. O prefeito, em vez de lamentar a morte trágica que tirou a vida de um jovem que enfrentava problemas de dependência química, talvez pela própria omissão do poder público, exaltou a postura do vigilante. Disse que ele atirou em legítima defesa. A preocupação não era com a morte do rapaz, mas em isentar o segurança de qualquer responsabilidade sobre o crime. Rodney chegou a dizer que faria o mesmo se estivesse no lugar do segurança. Ou seja, o prefeito da cidade admitiu que atiraria para matar uma pessoa desorientada que entra na sede da prefeitura com a Bíblia na mão. 
 
Quando o prefeito do município, que é ex-secretário de Segurança, estimula a cultura da violência, o que se pode esperar da população? O que se viu nessa quarta-feira no Terminal Vila Velha é a face perversa da cultura da violência sendo extravasada. É feio de se ver.
 
Chama atenção que quase ninguém está dando importância ao fato de o agressor ter sido espancado pelos populares que estavam no terminal. É como se houvesse um consentimento tácito para o linchamento. Como se o crime cometido justificasse a “justiça com as próprias mãos. 
 
O fato é que o assassino está internado em estado grave no Hospital São Lucas vítima da barbárie “humana”.
 
É a violência “punindo” a violência. Essa é a sociedade que queremos?

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