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A volta do embaixador a Brasília & reminiscências

O embaixador José Carlos da Fonseca Júnior voltou ao centro do poder federal. Na função de chefe de Gabinete do ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Eliseu Padilha, ele terá funções e responsabilidades típicas de um dos dois ministérios mais importantes da República, o outro sendo o Ministério da Fazenda. Além de lidar, por exemplo, com nomeações e encaminhamentos de projetos de lei, a Casa Civil deverá coordenar e monitorar os projetos e prioridades do governo. É, portanto, uma função crucial e relevante para o funcionamento da gestão do governo central .

Na era FHC, Fonseca Júnior foi chefe de Gabinete do então poderoso ministro Pedro Malan, um dos mais longevos ministros da Fazenda do Brasil. Ali, naquela bem sucedida experiência, o diplomata capixaba exerceu a função com muita competência e ampliou seus horizontes profissionais, culminando com uma entrada no mundo da política eleitoral e uma bem sucedida candidatura, em 1998, a deputado federal pelo então PFL, depois DEM. Mostrou ser bom de voto. Depois, em 2002 e em 2006, continuou mostrando ser bom de voto em duas tentativas de novas eleições, mas não obteve, nos dois casos, o mandato por causa do problema da legenda, um dos defeitos crônicos do nosso já quase anacrônico sistema eleitoral proporcional uninominal.

Voltou, então, à trilha da carreira diplomática. Aluno considerado brilhante nas “hostess” do renomado Instituto Rio Branco, acabou servindo na Índia e em Myanmar, chegando ao topo da carreira: virou embaixador. Na diplomacia, Fonseca Júnior teve, em sua formação e trajetória, forte influência do proeminente embaixador Paulo Tarso Flexa de Lima, e com ele serviu em Washington, Estados Unidos. Vem daí, por exemplo, a sua reconhecida habilidade política e sua capacidade cognitiva de manejo diplomático das relações cruzadas, importantes no mundo da diplomacia e no mundo da política.

Na sua volta à diplomacia, no mundo asiático, na Índia e depois em Myanmar, Fonseca fez seu trabalho de doutorado observando a peculiar cultura, sociedade e economia asiática e a lógica do mundo das economias emergentes da China, da Índia, de Singapura, dos chamados “tigres asiáticos”. Experiência útil para a diplomacia, principalmente para a diplomacia empresarial . Que, ao fim, o acabou levando de volta ao Espírito Santo, a convite do governador Paulo Hartung, para a função de diplomacia comercial para atração de investimentos internacionais. Tudo a ver. Uma parcela significativa dos observadores das economias regionais no Brasil ainda insiste em classificar o Espírito Santo como uma espécie de “tigre asiático”: a economia regional mais internacionalizada e privatizada do Brasil, em termos relativos, com participação “minoritária”'do setor público regional na economia regional.

Conheci José Carlos da Fonseca Júnior nos idos de 1996, 1997, ele como chefe de Gabinete do então ministro da Fazenda, Pedro Malan, e eu como presidente da (então) Aderes, que fazia as vezes de secretaria do Desenvolvimento do governo do Estado do Espírito Santo. Tratava-se da renegociação da dívida pública dos estados, pilotada no governo federal pelo competente Pedro Parente. Tratava-se, também, das negociações do governo do Estado com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e outros organismos federais. Com a destreza dos bons diplomatas, Fonseca Júnior colaborou com as negociações, com espírito federativo. Na época, “atropelado” pelo Plano Real, que derrubou a bicicleta do manejo das finanças estaduais pela procrastinação dos pagamentos à espera da montanha russa dos juros do “overnight”, o governo estadual vendia o almoço para comprar a janta.

Nas imperscrutáveis circunstâncias da débâcle das finanças públicas estaduais no pós-Real, José Carlos foi também conselheiro da (então) Aderes. Em seguida, elegeu-se deputado federal pelo então PFL, com votação expressiva. Ocupou a secretaria da fazenda na primeira metade do governo José Ignácio Ferreira no Espírito Santo, para logo em seguida assumir a cadeira de deputado federal, no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, sempre próximo do embaixador Flecha de Lima.

No final do seu mandato, nos idos de 2002, Fonseca Júnior dialogou proativamente com o então senador Paulo Hartung, já então pré-candidato a governador do Estado. Um dia, almoçando comigo em Brasília no restaurante de comida árabe do Hotel Torre, José Carlos estimulou e instigou uma colaboração minha, com ideias sobre o nosso Estado, à eventual candidatura de Paulo Hartung ao governo. Aquiesci, com prazer, de colaborar com o meu estado natal e com Hartung, e preparei alguns escritos que depois entreguei em mãos ao próprio Paulo Hartung.

Desses escritos, nasceu a ideia de minha colaboração regular à Século Diário e depois a matéria prima para a publicação do meu segundo livro, “Dilemas do Brasil Contemporâneo”. O estímulo do diplomata está na raiz da minha colaboração contínua à Século Diário e da publicação do segundo livro.

Mais recentemente, José Carlos voltou ao Brasil, depois da Índia e de Myanmar, reassumiu suas funções no Itamaraty, colaborou tecnicamente com o senador Ricardo Ferraço na Comissão de Relações Exteriores do Senado, e acabou sendo convidado por Paulo Hartung para assessorar o governador na função de atração de investimentos e projetos internacionais para o Espírito Santo.

De volta ao Espírito Santo, em 2015, o diplomata reaproximou-se também do mundo político, como presidente estadual do PSD. Voltaria à política? Vai voltar à política? Perguntava-se. Enquanto a resposta não vem, Fonseca acabou assumindo a nova tarefa de chefe de gabinete da Casa Civil da Presidência. Deu a volta ao mundo, e a volta por cima, e voltou ao centro do poder nacional. O ministro Eliseu Padilha teve a boa ideia de levar para o Palácio do Planalto alguns competentes diplomatas brasileiros, com José Carlos. Bingo. A diplomacia brasileira tem quadros de alto nível.

E depois? Perguntado, Zé Carlinhos costuma responder aos amigos que, em matéria de projeto político, vai meio que na trilha do “deixa a vida me levar”. Enquanto isso, lideranças empresariais e políticas regionais, com faro do movimento das placas tectônicas da política capixaba e com olhos clínicos, começam a perscrutar que aí pode estar o nascedouro de uma candidatura tertius à governadoria do Espírito Santo em 2018.

A não ser que não seja, como diria Luiz Eduardo Nascimento.

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