Em outubro de 2007, o caso da adolescente L.A.B., então com 15 anos, chocou o Brasil. O episódio, que mais lembra o enredo de um filme de terror, se passou em Abaetetuba, cerca de 80 km de Belém, Pará. Acusada de furtar objetos da casa do patrão, a jovem foi levada para a delegacia do município.
A então delegada de plantão, Flávia Verônica Monteiro Pereira, como parte da punição, decidiu entregar a jovem, literalmente, aos leões. Como nos tempos do Coliseu, na Roma Antiga — onde escravos, criminosos ou prisioneiros de guerra eram atirados a leões famintos, a adolescente indefesa foi lançada para um grupo de encarcerados sedentos por sexo.
Durante os 26 dias em que permaneceu confinada, L.A.B. foi usada e abusada pelos presos que se revezavam em sessões contínuas de estupro. Nesse período, ela foi poupada somente em três domingos — dia reservado a visitas de familiares.
O mais impressionante nesse roteiro macabro é o papel do Estado, que foi conivente ou no mínimo omisso ao abuso. O crime de estupro só foi cessado após o Conselho Tutelar receber uma denúncia anônima e pôr a boca no trombone. Só então o caso de Abaetetuba ganhou espaço na mídia e repercutiu na sociedade.
Quase uma década depois e alguns milhões a mais de internautas conectados às redes sociais, o caso da adolescente de 16 anos estuprada por pelo menos 30 homens na madrugada do dia 21 último no complexo de favelas São José Operário, no Rio de Janeiro, volta a comover o País.
Chama atenção a repercussão do caso do Rio em comparação ao de Abaetetuba. A velocidade com que a informação repercute quase uma década depois é impressionante. O episódio do Rio já corre o mundo. As manifestações já chegaram às ruas. Em várias partes do País acontecem atos de solidariedade à adolescente abusada.
Pressionadas, as autoridades, em todos os níveis, se movimentam para mostrar que não estão sendo omissas. O presidente interino Michel Temer e a presidente afastada Dilma Rousseff manifestaram indignação com o caso, como não podia ser diferente.
O caso do Rio mostra — para o bem ou para mal — a força que as redes sociais têm hoje. O episódio de Abaetetuba, não resta dúvida, é muito mais grave. O crime de estupro ocorreu durante 26 dias sob as bênçãos do Estado. O do Rio é tão hediondo quanto, mas foi pontual e, até onde se sabe, não houve conivência do Poder Público.
O processo no Pará ainda corre em segredo de Justiça. Mas as investigações da polícia chegaram a apontar o envolvimento de pelo menos uma dúzia de pessoas, entre os suspeitos de terem estuprado diretamente a adolescente e de autoridades que teriam prevaricado por conivência ou omissão: de carcereiros a investigadores; de delegados a juízes.
Quase 10 anos depois, apenas dois presos foram condenados por estupro: Beto Júnior e Rodinei Leal, o Cão. Não foi possível à vítima, ante a alta rotatividade de abusadores, identificar cada um dos seus agressores, tampouco as autoridades que concorreram para que o crime se repetisse por quase um mês.
Vamos ver agora, no caso do Rio, se as redes sociais terão força para não deixar os criminosos impunes. Porque o crime de Abaetetuba só reforçou a impunidade. Contribuiu, por exemplo, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, para que mais de 200 mil mulheres fossem estupradas no Brasil entre 2011 e 2014.
PS.: não se tem notícia do paradeiro de L.A.B.

