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Ação entre amigos

Já diz o ditado, quando um e dois brigam, três é demais. Se não existe algum ditado parecido, precisa ser inventado.  Ivo, Aldo e Hugo são amigos de infância, juventude, mocidade. Nas voltas que o mundo dá se dispersaram, mas acabaram morando no mesmo condomínio e trabalhando na mesma empresa, com os filhos estudando no mesmo colégio e as esposas frequentando a mesma academia. Não exatamente por coincidência, mas aquela coisa de um leva o outro.
 
E tudo ia bem até que… por causa de uns míseros trocados, Aldo e Hugo se desentendem.  Aldo comprou um tênis na Amazon, e quando a encomenda chegou, teve a desagradável surpresa de ver que não cabia, “Diminuiu de tamanho ou meu pé cresceu?” Quem compra na Amazon sabe que tudo se devolve, desde que pague o frete da volta e mantenha a caixa original. E quem não compra na Amazon hoje em dia?
 
Aldo ia devolver o tênis, obedecendo às normas estabelecidas pela empresa, mas Hugo vê-gosta, experimenta-serve – e decide ficar com ele.  “Tudo bem, o preço é tal, e o tênis é seu”. Hugo paga e vai pra casa, mas o imprevisto se mete onde não é chamado – no caso, a reação da Híria, a  irada esposa. “Muito caro, e você acabou de comprar dois tênis, não precisa de mais um. Devolve!” Hugo diz que vai ser chato devolver ao amigo,  se até já pagou…  “Querido, o que não se devolve nesse país?”
 
O tênis ficou esquecido no chão e durante a noite o cachorro comeu? Não. Hugo devolve o tênis ao amigo, dizendo que pensou melhor. “Sem problema, manda de volta pra Amazon. Tem frete, você sabe”, diz Aldo.  “Mas eu não comprei na Amazon, e você ia devolver mesmo, portanto aqui está. O frete é seu”. Por coincidência ou azar da sorte,  Ivo está presente e se torna testemunha ocular da discussão entre os dois amigos… “Acho que a responsabilidade é sua”, diz o um;  “Não é pelo dinheiro, é uma questão de ética”, diz o dois.
 
O terceiro é Ivo, convidado a decidir  quem está com a razão:  quem comprou sabendo que teria um frete a pagar, se devolvesse, ou quem comprou do vizinho, sem frete incluído. Ivo, porém, se recusa a opinar,  alegando que eles são maiores de idade e amigos de longa data, portanto devem resolver sozinhos o impasse, “Afinal, são apenas 17,00 dólares!” E tirando algumas notas do bolso, completa, “Se querem minha ajuda, eu pago o frete e acabamos com isso”.
 
Oferta não aceita, Aldo paga o frete e a amizade dos dois sofre profundo abalo. Ainda se falam nos assuntos da empresa e se cumprimentam no elevador, mas a velha camaradagem evaporou-se como o salário mínimo antes do fim das contas. Meses depois, dois colegas do trabalho têm uma disputa semelhante, e Ivo por acaso está presente. Em sendo mais velho e de mais alta hierarquia é convidado a decidir quem está certo ou errado – Ivo dá seu voto de Minerva, explica seus motivos, e o assunto é esquecido.  
 
Tendo também presenciado o quiproquó, Aldo recrimina Ivo, dizendo que se ele tivesse dado sua opinião na disputa entre seus dois amigos, como fez agora com dois estranhos, eles estariam numa boa. Ivo então cita Santo Agostinho, “Se dois amigos te pedirem para decidir uma disputa, recuse, ou vai perder um amigo; se dois estranhos te pedirem para decidir uma disputa, aceite, pois vai ganhar um amigo”.

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