Independente do projeto de decreto legislativo que propõe o fim da cobrança do pedágio na Terceira Ponte ser aprovado na sessão desta quarta-feira (10) – se é que haverá quórum para votação -, o grupo de mais de 100 ou 200 manifestantes, não se sabe ao certo, sai vitorioso desse embate com o governo, que começou nas ruas faz quase um mês e acampou dentro do legislativo estadual há mais de uma semana.
Nesta quarta faz nove dias que grupo se mantém entrincheirado, pacificamente, com a missão de pressionar a Assembleia a aprovar o projeto que “libera as cancelas” dos pedágios da Terceira Ponte.
São vários os indícios que confirmam a vitória desse valente grupo. As mais de 200 horas de ocupação já foram suficientes para deixar governo e classe política à beira de um colapso. Os homens que se dizem representantes do povo descobriram que não estão preparados para lidar com essa tal de democracia. Eles se sentiram na verdade cada vez mais apartados do povo. E isso, em ano pré-eleitoral, deixa qualquer político desnorteado.
Talvez por isso o que se viu nos últimos dias foi um festival de “caneladas” por parte do governo. Foram incontáveis as declarações inoportunas do governador Renato Casagrande (PSB) e de seus assessores que só serviram para desgastar ainda mais a imagem do governo perante a opinião pública. Imagine uma pesquisa de popularidade com Casagrande a essa altura. Quantos pontos ele teria despencado?
Depois do desespero das primeiras 24 horas de ocupação da Assembleia e da surpresa perante à decisão da bancada do PT que se pôs a favor do projeto, o governo passou a articular manobras para esvaziar a votação e, por tabela, o movimento de ocupação.
A estratégia era previsível. Tanto que era possível acompanhá-la, passo a passo, por meio da imprensa corporativa, que se encarregou, como de costume, de dar os recados “cifrados” do governo.
Primeiro o governo tentou criminalizar os protestos de rua e os manifestantes que ocupam a Assembleia. Em seguida, quis mostrar que não havia mais rusgas entre os chefes da Justiça, Pedro Valls Feu Rosa, e do Ministério Público, Eder Pontes. Firmar o armistício entre as duas instituições foi importante para provar que o governo não estava sozinho.
Na mesma movimentação o governo, que até então punha as duas mãos no fogo em nome da Rodosol, mudou o discurso e admitiu realizar uma auditoria no contrato e rever a tarifa. Era a oportunidade de chamar o Tribunal de Contas para reforçar o time “ilibados”, que já tinha o TJES e o MPES.
Em seguida, Casagrande articulou a quarta instituição para completar a frente, a Assembleia, que veio dividida, mas veio. Animado com solicitude de Gildevan Fernandes (PV), facilmente convencido a fazer o “trabalho sujo”, o governo percebeu que com um pouco mais de empenho era possível trazer outros deputados para o seu lado. Era só uma questão de tempo. Dito e feito.
A carta dos 15, mais do que condicionar a desocupação imediata da Casa à retomada das atividades parlamentares, tinha o claro objetivo de mostrar “aos rebeldes” que a “brincadeira” havia acabado. Era o sinal de que Assembleia, ou parte dela, estava pronta para se alinhar às demais instituições.
Nas últimas 24 horas, promotores e juízes, a mando de seus respectivos chefes, trabalharam como há muito não se via. Que bom seria se essas duas instituições fossem sempre assim.
Num piscar de olhos, com o aval do governo, o MPES propôs e a Justiça determinou a redução imediata da tarifa do pedágio da Terceira Ponte. Toda a manobra foi feita a toque de caixa para esvaziar ainda mais o projeto de Euclério e o movimento de ocupação.
Toda essa manobra do governo e das instituições comprova que o movimento de ocupação saiu vitorioso, mais uma vez, independente do placar desta quarta.
Os manifestantes podem deixar a Assembleia amanhã (9) de cabeça erguida para tomar novamente as ruas, de onde eles vieram. Nesses dias, eles puderam sentir como ninguém, que a pulsação que vem do asfalto é forte o bastante para levá-los muito além da ponte.

