A cerimônia de posse na Assembleia nesse domingo (1) deveria ser reservada aos deputados empossados e seus amigos e familiares, mas o governador Paulo Hartung (PMDB) acabou roubando a cena.
O discurso do governador, como não podia ser diferente, fez sombra à cerimônia. Além de imiscuir na festa alheia, Hartung não se contentou em fazer um discurso discreto, como se esperava. Afinal, o intruso era ele.
Ao polemizar o tom do discurso, tornando a fazer críticas duras ao antecessor Renato Casagrande (PSB), Hartung atraiu as atenções da imprensa, que foi obrigada a dar generoso espaço à polêmica em detrimento da posse.
Durante os 20 minutos de discurso, além dos ataques a Casagrande, Hartung enviou outros recados. Como estrela maior da companhia, ele se sentiu com autoridade para comandar os convidados. Semelhante a um apresentador de programa de auditório, ele intimou a “claque” a aplaudir o procurador-geral de Justiça, Eder Pontes.
Ele queria ovacionar publicamente o chefe do Ministério Público em resposta à apuração do Tribunal de Contas que investiga três contratos supostamente irregulares firmados por Pontes. “Gostaria de saudar um homem de bem. Um homem honrado que dignifica o Ministério Público Estadual”, exaltou Hartung.
Sem dúvida, a iniciativa de Hartung não foi de improviso. O governador premeditou como usaria a cerimônia de posse para passar seus recados. Seguindo o roteiro, ele elogiou na sequencia o presidente do TCE-ES, Domingos Taufner, com o propósito de mostrar que as duas instituições esbajavam harmonia.
Após a cerimônia, Eder Pontes posou para fotos ao lado de Taufner e do conselheiro Rodrigo Chamoun. As fotos que selam o clima amistoso entre as duas instituições foram estampadas nos dois principais jornais do Estado nesta segunda-feira (2).
As imagens somadas à chaleirada de Hartung têm a intenção de remir Eder Pontes antes mesmo do término das investigações do TCE. Ou alguém ainda acredita que a corte de contas continuará apurando o caso com a mesma isenção?
Hartung mostrou que, aos poucos, está retomando o seu poder de arbitrar sobre a sorte das pessoas. Eder Pontes teve a felicidade de ser ungido como “um homem de bem”. A partir do crivo do governador, não cabe a nenhuma instituição questionar a honradez do chefe do MP. Assunto encerrado.
Toda a encenação, porém, com direito a plateia e farta cobertura da mídia, tem um preço, e não é baixo. Ao fazer a remissão pública do chefe do MPES, Hartung fica com crédito na casa. Aliás, esses créditos podem lhe render bons dividendos amanhã.
Precavido, Hartung sabe que contar com a égide do MPES, como nos velhos tempos de Fernando Zardini, é sempre estratégico. Principalmente agora que o governador tem ações tramitando na instituição e não conta mais com aquela imagem imaculada de outrora.

