domingo, abril 5, 2026
30.9 C
Vitória
domingo, abril 5, 2026
domingo, abril 5, 2026

Leia Também:

Alimentando a violência

O secretário de Segurança André Garcia vem dando declarações à imprensa e postando textos em seu perfil no Facebook que deixam claro a sua intolerância aos protestos que tomaram as ruas da Capital capixaba nos últimos dois meses.
 
Garcia quer transmitir à população que a polícia tem a situação sob controle e que vai agir com rigor para reprimir os manifestantes chamados por ele de “vândalos e insanos”. 
 
Garcia, que é hoje considerado um dos secretários prodígios da equipe do governador Renato Casagrande, foi escalado oficialmente para fazer o papel de porta-voz do governo nas questões envolvendo os protestos de rua. Sem falsa modéstia, ele deixa escapar nas entrelinhas de suas declarações que está fazendo um excelente trabalho. Talvez não tenha perguntado sobre seu desempenho aos manifestantes que têm sentido na pele a violência da polícia capixaba, que não difere muito das ações truculentas de outras PMs Brasil afora. 
 
Se tivesse mais humildade, Garcia, que entrou “outro dia” na Segurança, devia refletir com atenção as palavras do ex-chefe de polícia Norm Stamper, que durante 34 anos comandou as forças de segurança de Seattle, uma das 20 cidades mais populosas dos Estados Unidos. 
 
Stamper, em entrevista ao programa Sem Fronteiras, da GloboNews, nesse domingo (11), reconheceu que errou ao reprimir com violência as manifestações em Seattle, que protestavam contra o processo de globalização, em 1999. 
 
O ex-chefe de polícia disse que o erro se agravou quando as forças de segurança recorreram às armas químicas (spray de pimenta e gás lacrimogêneo) e aos chamados armamentos “não letais”, balas de borracha, que ele admitiu que podem matar sim uma pessoa. 
 
“Alcançamos nossos objetivos, mas a que preço?”, pergunta com semblante envergonhado o policial aposentado. 
 
Stamper adverte que os erros cometidos em Seattle foram repetidos em 2011 no Occupy Wall Street, quando os manifestantes tomaram uma praça nas imediações do centro financeiro de Manhattan, na cidade de Nova York, para protestar contra a desigualdade de renda e o poder das grandes corporações. 
 
Mais uma vez, como reconheceu Stamper, a polícia não aprendeu com a lição de Seattle, e recorreu à violência para esvaziar o movimento. 
 
A repressão policial, no entanto, não impediu que outros movimentos de rua se espalhassem por outras partes do mundo, inclusive no Brasil. 
 
No Espírito Santo, onde as manifestações têm sido intensas desde junho deste ano, a polícia insiste na repressão violenta e na criminalização dos movimentos como estratégia para estancar os protestos. 
 
Na mesma reportagem do programa Sem Fronteiras, o autor do livro “A ascensão do policial guerreiro” (“Rise of the warrior cop”), o jornalista Radley Balko também adverte que o caminho da repressão das manifestações populares adotado pelas polícias é equivocado.
 
Balko chama a atenção para o processo de militarização da polícia norte-americana, que recebeu aval do governo para nos anos 1970 declarar guerra às drogas. É essa mesma polícia, com caráter militar, que reprime hoje os protestos populares. 
 
O jornalista diz que após as manifestações do Occupy, no entanto, a sociedade passou a questionar mais intensamente a ação violenta da polícia, principalmente, destaca Balko, porque era a primeira vez que estudantes de classe média iam para as ruas. 
 
A polícia que estava acostumada a reprimir negros e latinos envolvidos com drogas, sem nenhum respaldo das redes de direitos humanos, agora lidava com brancos com boa formação e smartphones na mão, registrando e postando tudo nas redes sociais. Foi o caso da famosa pulverização de spray de pimenta de um policial contra alunos indefesos na Universidade da Califórnia, que protestavam sentados.As cenas correram o mundo e  expuseram a truculência covarde da polícia, como alerta Balko, cada vez mais militarizada. 
 
Se o perfil dos manifestantes mudou, a ação da polícia não. Seria prudente que o secretário de Segurança André Garcia tivesse mais humildade para lidar com um fenômeno que ele ainda desconhece. 
 
Era uma chance que ele teria para não lamentar mais tarde, como o ex-chefe de polícia de Seattle, que cometeu erros em uma semana que mancharam os seus 34 anos de profissão. “Uma das coisas que para mim, parte do mais doloroso aprendizado, são os erros que cometi. Achamos que poderíamos ser mais espertos do que os anarquistas, e não fomos. Tem muito aprendizado ali”, reconhece Stamper. 

Mais Lidas