Depois de um ano e meio no comando do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB) finalmente encontrou um discurso para chamar de seu. Se nos dois primeiros governos (2003 – 2010) funcionou como um relógio o discurso para enfrentar o temido “crime organizado”, neste terceiro mandato o inimigo a ser derrotado é a crise econômica.
A parte boa dessa ficção é que Hartung saltou na frente de todo mundo e descobriu, sozinho, a receita para enfrentar e vencer a crise. A fórmula é relativamente simples, mas, segundo Hartung, exige disciplina espartana do executor: promover um ajuste fiscal austero para criar um ambiente de negócios favorável para atrair os empresários. Afinal, para Hartung, não é o governo que produz PIB, quem produz riquezas são os empresários e não se fala mais nisso.
Aliás, e isso não é uma inovação deste terceiro mandato, o governador sempre acreditou que o setor privado tem a solução para todos os problemas do Estado. Não por acaso, tratou invariavelmente os empresários, sobretudo os mais graúdos, como “sócios” dos seus governos. Não quaisquer sócios, mas os majoritários, os que dão a palavra final.
A ONG ES em Ação é resultado dessa parceria de sucesso, para os empresários, é claro. Das cabeças pensantes desse núcleo seleto de empresários têm saído as diretrizes para Espírito Santo. Afinal, o ES 2030 nada mais é que um plano estratégico de negócios pensado por grandes empresários, com o aval de um governador-empreendedor, que defende o Estado Mínimo e o fortalecimento do setor empresarial como receita de economias sustentáveis. Na visão de Hartung, o Estado é um negócio como outro qualquer.
Nas entrevistas que tem dado ao primeiro escalão da imprensa nacional o governador tem se esforçado em consolidar sua visão neoliberal. Tem defendido abertamente as privatizações. Diz com todas as letras que o principal problema hoje dos estados não é a dívida pública, mas a folha de pagamento ativa e inativa do funcionalismo público. Como resolver esse problema? Para Hartung é simples: basta encolher o tamanho do Estado, reduzindo o efetivo de servidores e consequentemente os serviços oferecidos à população.
Na semana passada, em entrevista a jornalista Míriam Leitão (Globo News, 21/07/16), Hartung repetiu as frases que já viraram bordões neste terceiro mandato. Ele voltou a defender abertamente o ajuste fiscal, a privatização ampla, geral e irrestrita e a importância de se criar um ambiente atraente para os empresários, leia-se políticas de incentivos que fazem do Espírito Santo um “paraíso fiscal”, no que se refere aos pacotes generosos de isenções de impostos que são concedidos ao setor empresarial.
Na entrevista, a empolgação de Hartung era tamanha, que ele parece ter exagerado nos números. Em certo momento ele levou a jornalista a duvidar dos dados, dando a entender que o governador recorrera à “contabilidade criativa” para enaltecer os resultados do Espírito Santo. “A receita orçada bateu com a receita arrecadada”, garantiu Hartung para dar a dimensão que julgara justa ao tamanho do feito alcançado. A declaração provocou uma exclamação involuntária na jornalista. Miriam confessou que em décadas de jornalismo econômico nunca vira nada parecido. Sem ter como contestar, porém, acabou aceitando resignada o ineditismo do dado.
Contabilidade criativa à parte, o extrato do discurso de Hartung mostra que o “pulo do gato” da sua receita de sucesso está em entregar os ativos do Estado nas mãos do empresariado. Porque, para Hartung, somente eles podem nos salvar do dragão impiedoso da crise.
O discurso de Hartung faz lembrar a música de Rauz Seixas Aluga-se. Na primeira estrofe Raulzito adverte: “A solução pro nosso povo eu vou dar/Negócio bom assim ninguém nunca viu/Tá tudo pronto aqui é só vir pegar/A solução é alugar…” ou vender o Espírito Santo
Para quem se esqueceu da letra…
Aluga-se
Raul Seixas
A solução pro nosso povo eu vou dar
Negócio bom assim ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui é só vir pegar
A solução é alugar o Brasil!
Nós não vamos pagar nada
Nós não vamos pagar nada
É tudo free,
Tá na hora agora é free,
vamo embora
Dar lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá pra alugar
Os estrangeiros, eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico, tem vista pro mar
A Amazônia é o jardim do quintal
E o dólar deles paga o nosso mingau
Nós não vamos pagar nada
Nós não vamos pagar nada
É tudo Free,
Tá na hora agora é Free,
vamo embora
Dar lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá pra alugar
Nós não vamos pagar nada
Nós não vamos pagar nada
Agora é free
Tá na hora agora é free,
vamo embora
Dar lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá pra alugar

